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Meio Ambiente

Postado em 19/12/2020 7:30

A luta pelo meio ambiente e sua transmissão entre as gerações

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– A HISTÓRIA DAS QUEIMADAS NO BRASIL-

 PROPORÇÃO SEM PRECEDENTES DAS QUEIMADAS NO BRASIL

Olga Sodré

Antônio Serra, professor aposentado da Universidade Federal Fluminense (UFF), me contou que descobriu o pequeno texto “Queimada” escrito por Nelson Werneck Sodré porque estava procurando na coleção da Revista de Geografia um artigo de seu pai, que sempre publicava artigos sobre Meteorologia, nesta revista. Além de muito atual, a descrição das queimadas no Brasil traçada neste texto veio, portanto, inserida no contexto da relação que nos liga aos nossos pais e ao papel que desempenham em nossa formação e em nossas realizações.

Esse fato chamou minha atenção ao ler a descrição que Antônio apresenta de como seu pai sempre relatava e comentava tanto fatos da história como acontecimentos políticos. Meu pai, Nelson Werneck Sodré fazia o mesmo, lá em casa, sempre nos entretendo com o desenrolar da vida social brasileira e internacional.  Será que os pais atuais ainda transmitem aos seus filhos a memória viva da História na qual estão inseridos ou os mantêm alheios aos eventos em curso no Brasil e no mundo em que vivemos?

Antônio ressaltou para mim como ocorreu o papel de seu pai na história do documentário por ele escrito e já apresentado no Blogue “MEMÓRIA VIVA DE NELSON WERNECK SODRÉ, texto 13. UMA REFLEXÃO SOBRE GOLPE E DITADURA. Ele narra o fato de seu pai contar que Café Filho, quando deputado e oposição a Getúlio, costumava concluir seus discursos com a frase — “Lembrai-vos de 37!”, e conclui: “Quando pensei neste documentário, em 1986, tinha em mente os 50 anos do golpe de 1937 e a coincidência de estarmos começando uma Constituinte para encerrar a ditadura militar. E o título do documentário, é claro, veio da frase que meu pai sempre lembrava.”

Ele arremata sua indicação a respeito da transmissão da História entre as gerações, indicando como seu pai acabou participando de seu documentário. Ele conta que o diretor do documentário, Wilson Paraná, achou importante entrevistar, além de personalidades da política e de estudiosos, pessoas comuns. Antônio aí sugeriu o nome de seu pai, que deu então seu depoimento, inclusive sobre a vivência dele no dia do golpe.

Como militar, Nelson Werneck Sodré viajou por todos os recantos do Brasil, e foi sempre muito interessado pelos problemas do povo e do meio ambiente onde viviam, tendo escrito vários textos sobre a História e a Geografia brasileiras. Na diretoria do Departamento Cultural do Clube Militar, ele não só escrevia em defesa da ‘campanha do petróleo é nosso’, mas de outras riquezas naturais do país. Em casa, ele nos descrevia a beleza da Serra da Bocaina, da Amazônia, do Pantanal ou do Nordeste, destacando a luta e a contribuição das populações de cada um desses lugares.

Assim sendo, considero que ele foi um precursor da luta pelo meio ambiente, como podemos vislumbrar por suas observações a respeito das queimadas, no texto a seguir publicado na REVISTA BRASILEIRA DE GEOGRAFIA, janeiro-março de 1962 (Ano XXIV-N. 1), p. 135.

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TIPOS E ASPECTOS DO BRASIL

A QUEIMADA

Data dos primeiros tempos da colonização, isto é, do início da atividade estável e contínua que permitiu o estabelecimento do europeu em nossa terra, o hábito da queimada, que a maioria dos autores admite ser herança do indígena. De qualquer forma, como a atividade agrícola se estabeleceu, aqui, nas zonas litorâneas em que o revestimento era importante, e não nas zonas de campo, houve a necessidade, desde os primeiros tempos, de preparar a terra para a agricultura. A queimada permitia reduzir os esforços e apressar os prazos. Mais do que herança cultural, evidentemente, foi a permanência da atividade agrícola, entre nós, em nível rudimentar que assegurou a continuidade e a generalidade. do hábito, característico de pobreza de recursos e de técnicas, traços de uma atividade· rural que guarda um sentido predatório, e a que só por eufemismo se poderia batizar de agricultura. Com o passar dos séculos, a limpeza do terreno para a plantação passou a subordinar-se a quatro operações – a roçada, a derrubada, a queimada e a coivara-, e a sequência se generalizou e foi mesmo adotada nas zonas coloniais, aquelas em que o povoador oriundo de áreas agrícolas europeias poderia seguir outra norma. A carência de recursos iniciais impôs a subordinação à técnica antiga, e a queimada constitui espetáculo normal em todos os cantos do país, mesmo onde o revestimento não a exige ainda, como solução para a deficiência de braços e de utensílios. “Assisti a uma queimada colossal na serra do Carmo (Piabanha, estado de Goiás), – escreve JÚLIO PATERNOSTRO. À noite, a grinalda de fogo dava a impressão de um vulcão. Procurei investigar o motivo da queimada, pois o gado não ia até lá para pastar a gramínea que cresce após a coivara. Um sertanejo deitara fogo no mato porque de sua casa, em Piabanha, era bonito apreciar o espetáculo do incêndio.” O hábito é tão enraizado que ganhou o folclore e a própria poesia. CASTRO ALVES descreveu a queimada em versos candentes:

“O estampido estupendo das queimadas

Se enrola de quebradas em quebradas

Galopando no ar.”

Paga o solo, como os estudiosos apreciam, de há muito, ganhando devagar os agricultores para a aceitação de novas normas.

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CORDIALMENTE,

Olga Sodré

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