© AP Photo / Santiago Saldarriaga
Sputnik – Com uma vantagem de apenas 245 mil votos, o candidato da direita, Abelardo de la Espriella, venceu o governista Iván Cepeda Castro no segundo turno das eleições presidenciais da Colômbia, apontou a apuração preliminar divulgada na segunda-feira (22). Caso os dados sejam confirmados, o presidente chega ao poder em um país marcado pela polarização.
Advogado, empresário e sem histórico de cargos políticos, Abelardo de la Espriella iniciou a campanha eleitoral na Colômbia sem muita expressividade, mas bastaram algumas semanas para começar a deslanchar nos números. O direitista colombiano também acumula as cidadanias italiana e estadunidense, além de ser filiado ao Partido Republicano, do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Conhecido pela carreira consolidada e por esbanjar um padrão de vida luxuoso, o empresário conservador se colocou no pleito como um outsider ou, em bom português, um candidato anti-política, repetindo a fórmula que levou Trump à presidência dos Estados Unidos em 2016, seguida por Nayib Bukele em El Salvador (2019) e Javier Milei na Argentina (2023). Os três líderes, inclusive, estão entre as principais inspirações de Espriella, que prometeu importar a política de segurança pública linha-dura do salvadorenho — em discursos, disse que vai realizar uma ofensiva militar contra narcotraficantes e grupos armados e também construir megapresídios subterrâneos — e estreitar as relações com os Estados Unidos.
Apesar disso, o advogado e empresário foi criticado por adversários por defender clientes supostamente ligados a organizações paramilitares.
O doutor em ciência política e professor de relações internacionais da Universidade de La Salle Andrés Londoño atribui a vitória preliminar de Abelardo de la Espriella ao uso estratégico das redes sociais, cuja campanha o colocou de forma eficiente como um salvador da pátria. Aliado a isso, o advogado se apropriou de símbolos nacionais como a camisa da seleção colombiana, o mesmo visto com o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) no Brasil.
“Ele conseguiu pegar as ideias da direita na América Latina e se apresentar de forma eficiente no país. Para isso, apresentou soluções muito simples e práticas para resolver problemas complexos, como construir megacadeias e até propor a dolarização da economia, como fez Milei na Argentina. Mas também houve um voto de castigo às várias decisões políticas do presidente Gustavo Petro, que errou na questão da governabilidade [o dirigente apoiou Cepeda]”, resume ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil.
Mesmo com essa estratégia bem definida, o resultado das eleições colombianas foi um dos mais apertados da história, com uma diferença de apenas 1% dos votos — Petro e Cepeda ainda não reconheceram a vitória e aguardam a confirmação oficial, que deve ocorrer na próxima quarta (24). A candidatura governista até conseguiu reduzir a distância para Espriella, que no primeiro turno chegou a 673 mil votos (43,7% a 40,9%), com o lema de defender a continuidade de conquistas da atual gestão (2022-2026), a primeira de esquerda no país, responsável por aumentar o salário mínimo em 75% e reduzir a taxa de desemprego para abaixo de 9%, um dos menores índices da história.
“Abelardo soube usar muito bem as redes sociais e até influenciadores do país, que o apoiaram e chegaram a divulgar músicas em favor do candidato. Inclusive, a primeira declaração dele após o resultado preliminar foi direcionada a esse grupo e transmitida em diversas lives. Cepeda também utilizou essa estratégia, mas de forma mais tradicional e com influenciadores mais alternativos”, enfatiza.
O professor de relações internacionais e autor do livro “Os colombianos”, Andrew Traumann, acrescenta ao podcast Mundioka uma outra estratégia bem-suscedida do direitista: os showmícios. “Tinha aquela coisa de sair de uma cápsula, como naqueles shows de rock. Isso acabou capturando muito a imagem das pessoas e ele também trouxe um ultranacionalismo, se apropriando de símbolos colombianos, ao mesmo tempo em que se atrelava aos Estados Unidos […]. Foi a reprise de outros fenômenos que aconteceram em um passado recente, utilizando também notícias falsas contra seus adversários”, explica.
Mobilização do eleitorado na reta final
O mapa do segundo turno mostra um resultado polarizado em toda a Colômbia: enquanto regiões centrais, mais ricas e populosas, como a capital Bogotá, viram Abelardo à frente, as áreas rurais e periféricas da Colômbia deram a vitória a Iván Cepeda.
“Ele foi muito bem nessas localidades e, mesmo com todo esse poderio da direita, o governo conseguiu mobilizar seu eleitorado na reta final, quando eles foram absolutamente surpreendidos. A esquerda foi bem nessa mobilização à moda antiga, com aquilo que dizíamos antigamente, o corpo a corpo com o eleitorado, expressão típica dos anos 1990. Mas nas redes sociais, acabaram perdendo e não perceberam que isso estava acontecendo, aparentemente”, afirma Traumann.
O especialista lembra ainda que a campanha do empresário colombo-ítalo-estadunidense foi marcada por denúncias de uso massivo de robôs espalhando desinformação, algo parecido com o que ocorreu no Brasil nos pleitos de 2018 e 2022. “É aquela coisa de dizer que presidiários, bandidos e guerrilheiros votam em tal candidato”, afirma.
Aliado a isso, o professor afirma que o debate eleitoral na Colômbia foi movido principalmente pela alta da criminalidade e os problemas na área da saúde, cuja reforma prometida por Petro não saiu do papel por falta de maioria no Congresso Nacional. Para Traumann, esse também foi um dos maiores erros da administração Petro, ao não cumprir a promessa de implantar um sistema universal de saúde aos moldes do que existe há décadas no Brasil.
“Na Colômbia, existe uma parceria público-privada, com planos de saúde atuando juntamente com o governo. O presidente tentou tirar esse monopólio das empresas e criar o SUS [Sistema Único de Saúde] colombiano, mas o lobby dessas empresas com os parlamentares foi muito forte junto ao Congresso. Em retaliação, o Petro deixou de fazer repasses e, consequentemente, os planos de saúde passaram a não repassar medicamentos, seringas e outros insumos básicos para os postos de saúde. Isso caiu no colo do presidente”, exemplifica.
Eleições fraudadas na Colômbia?
O especialista comenta ainda uma denúncia do atual governo no dia seguinte ao pleito, quando o presidente acusou Israel de interferência no processo eleitoral, com a invasão de urnas. Na ocasião, o partido de Petro solicitou a anulação das votações de 33 mil equipamentos, localizados principalmente no exterior. Apesar das suspeitas e do pedido de recontagem de votos, Andrew Traumann acredita que dificilmente haverá alguma mudança no resultado.
“Há relatos, inclusive, de ataques ao sistema eleitoral colombiano vindos dos Estados Unidos e da Europa. Então, considero essa uma possibilidade, mas acho pouco provável que isso altere o resultado final. Para o senso comum, a percepção será de que houve manipulação: ‘Perderam, não souberam perder, então roubaram, anularam as urnas e por aí vai’. Não sei se o desgaste político de passar por isso compensa. Tenho até receio, diante do histórico de violência política da Colômbia”, declara.
Colômbia em ebulição: dificuldades internas e reaproximação com EUA testam projeto político de Petro
17 de fevereiro, 15:30
Quais os impactos para o Brasil?
Caso a vitória de Abelardo seja confirmada pelas autoridades eleitorais, o futuro presidente se junta a uma onda de direita que voltou a ganhar força na América Latina nos últimos anos — além da Argentina, grupos alinhados a Trump e a outras lideranças conservadoras venceram em Honduras, Chile, Bolívia e Equador. No Peru, o cenário segue indefinido, mas com Keiko Fujimori à frente.
Para Andrés Londoño, o resultado na Colômbia tende a aprofundar o isolamento regional do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Segundo ele, o Brasil já perdeu parte da capacidade de liderar iniciativas na América Latina, em um contexto de ascensão de novas direitas alinhadas a movimentos conservadores na Europa e nos Estados Unidos.
“Em outros momentos da história, o Brasil liderava muitas iniciativas regionais e conseguia que os outros países aceitassem essa liderança. Ultimamente, o Brasil perdeu essa capacidade não apenas por limitações próprias, mas também pelo ascenso dessas novas direitas, em consonância com a direita europeia e com Trump, que tem uma tradução na América Latina”, afirma.
De acordo com o especialista, a redução do número de governos de esquerda na região enfraquece projetos de integração e a busca por posições comuns em fóruns internacionais. Em contrapartida, os governos conservadores estariam mais concentrados em questões domésticas e na aproximação com Washington.
“Essa minoria de presidentes que ainda aposta em integração regional e em posições comuns em alguns cenários internacionais é cada vez menor. Os governos de direita na América Latina estão mais preocupados com problemas internos, mas também com a cooperação com os Estados Unidos“, acrescenta.
No caso colombiano, Londoño avalia que a política externa tradicionalmente discreta do país tende a reforçar a influência norte-americana sobre Bogotá, o que dificultaria ainda mais as pretensões brasileiras de exercer liderança regional.





