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terça-feira, 11 junho, 2024

A Imagem dos Indígenas na Escola: o Brilho da Floresta

José Bessa Freire

– Então, vem comer tapioca aqui na maloca. 

(Manaus. Anos 1950. Brincadeira infantil) .

– Mal ou Bem? Esse dedo aqui é o “mal”, esse outro é o “bem”, escolhe se você vai “ficar de mal” comigo ou se vamos brincar juntos – dizia uma criança à outra, que fora magoada por ela em uma briguinha.

– Vai comer pão duro atrás do muro – era a reposta, se o dedo tocado fosse o “mal”. O ofendido não perdoava. Mas se ele tocasse o dedo do “bem”, vinha o convite do suposto agressor: – Então, vem comer tapioca aqui na maloca. Nesse caso, faziam as pazes e iam brincar um com o outro. Assim eram resolvidos pequenos conflitos no bairro de Aparecida, em Manaus, nos anos 50.

O que ocorreu no Brasil, durante cinco séculos, não foi rixa infantil. Mas a escola tratou os povos indígenas com pão duro atrás do muro, disseminando preconceitos sobre suas culturas, línguas e saberes. Só tocou o dedo do “bem”, em 2008, com a Lei 11.645, que obriga o estudo da história e das culturas indígenas e afro-brasileiras no ensino fundamental e médio. No entanto, falta atualizar professores e livros para que as crianças possam comer tapioca na maloca.

Para isso, o Caderno Povos Indígenas Povos Originários, dirigido a professores incluídos no Projeto Trilhos da Alfabetização, foi lançado na quarta-feira (22) no Centro Cultural Vale do Maranhão (CCVM), em São Luis. Veio complementar os três Almanaques destinados, desde 2020, a 70 mil crianças maranhenses do Ensino Fundamental e recentemente às crianças paraenses, ao lado do outro Caderno Por uma educação antirracista.

O projeto foi concebido por Vilma Guimarães no âmbito da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e da Fundação Vale. Ela, que é um vulcão em permanente erupção, comanda de forma incansável uma equipe de 80 pessoas, todas contagiadas por seu entusiasmo e sua vivência no campo da pedagogia do oprimido e da alfabetização libertadora e crítica, na qual a leitura do mundo precede a leitura da palavra na visão de Paulo Freire, seu conterrâneo de Pernambuco com quem trabalhou.

Afastar preconceitos

O seminário Povos Indígenas Povos Originários, mediado por Reinilda Oliveira (FGV-MA), iniciou com o ritual sagrado dos Tenetehara, após a fala de abertura de Marcelo Klein, diretor da Fundação Vale. Depois disso, a cacica Cíntia Guajajara, a pajé Japira Pataxó, a antropóloga Maria José A. Freire e este locutor que vos fala conversaram sobre o Caderno, cuja introdução traz o poema Eu não tenho minha aldeia da escritora Eliane Potiguara e o artigo de Gersem Baniwa, professor da UnB, sobre a atualidade dos povos indígenas.

O Caderno foi apresentado por Maria José, sua coautora. A primeira parte Afastar preconceitos, incorporar a diversidade aponta aos professores da rede escolar “alguns preconceitos construídos historicamente sobre os povos indígenas, que circulam no imaginário e nas práticas sociais de instituições como escola, mídia, museu e que atuam como lente deformadora da realidade, impedindo-nos de reconhecer os saberes dos povos originários”.

Foram selecionados quatro preconceitos, responsáveis pelo “epistemicídio”, além de um “antídoto” para cada um deles. A imagem do “índio genérico” foi desconstruída com a apresentação da diversidade sociocultural, étnica e linguística. A visão de que são “culturas atrasadas” foi desmanchada com os saberes em vários campos do conhecimento, da arte e da técnica. O “congelamento das culturas”, que representa os indígenas hoje como na carta de Caminha, foi desfeito com o debate sobre o conceito de cultura e seu caráter dinâmico. Tudo isso repleto de exemplos, fotos, ilustrações.

O quarto preconceito, que excluiu os indígenas da brasilidade e apagou os povos originários da nossa história, é contestado por dois movimentos indicados no Caderno. De um lado, as recentes pesquisas historiográficas sobre a presença deles na formação do Brasil, muitas das quais ainda não entraram na escola. De outro, o crescente protagonismo indígena em diferentes áreas: na literatura, nas artes plásticas, na ciência, na academia e na vida política do país.

Contar histórias

Por último, na parte referente à Escola, lugar de mudança, a antropóloga abordou o conceito de colonialidade do sociólogo peruano Aníbal Quijano, para quem os padrões racistas e preconceituosos de dominação, enraizados mesmo após a Independência dos países latino-americanos, continuam sendo reproduzidos em sala de aula. A escola, porém, deve ser o lugar potencial para combater a colonialidade e mudar esse quadro.

Contar Histórias para transformar a realidade constitui a segunda parte com 15 crônicas deste coautor do Caderno, composta por “narrativas, histórias, causos e exemplos, com “carne” para dialogar com a primeira parte, que é mais teórica” – esclareceu a antropóloga. Estão organizadas em três blocos temáticos: i) Educação e pedagogia dos povos originários; ii) Natureza e Saberes Indígenas e iii) Línguas Indígenas, Diversidade e História.

No final, o Caderno sugere materiais de consulta: discografia como Todos os sons de Marluí Miranda; filmes de animação, entre eles Amazônia sem garimpo;  documentários com destaque para Das Crianças Ikpeng para o mundo do Vídeo nas Aldeia; 26 livros infantis, dois dos quais Presepadas de um curumim na Amazônia, de Edson Kayapó e O povo Kambeba e a gota d´água de Márcia Kambeba;  links de sites de pesquisa, de publicações jornalísticas e de exposição virtual como Nhe´e Porã: Memória e Transformação.

Aula-passeio

A pajé Japira, Pataxó da Aldeia Novos Guerreiros, de Porto Seguro (BA), que está presente em uma das crônicas do Caderno, focou alguns dos temas nele abordados. Aprovada em banca de doutorado da UFMG por notório saber com seu livro sobre plantas medicinais, ela, professora da UFBA e que já atuou na Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), leva seus alunos para fora do espaço universitário, com uma pedagogia diferenciada em “aulas-passeio” para conhecer as ervas medicinais.

O jardim-escola por ela criado se tornou um espaço de diálogo com as plantas, que curam os males para os quais a medicina convencional ainda não tem respostas. Japira entende a linguagem das plantas:

– As plantas me chamam, é como um imã, elas mostram seus saberes e força para mim. O que eu aprendi sobre elas veio das conversa com os mais velhos e dos espíritos dos antepassados.

Outra especialista em medicina indígena, a cacica Cíntia Guajajara, mestra em linguística pela UFRJ, autora de cinco livros, começou sua fala com uma saudação na língua Tenetehara, na qual alfabetizou muitas crianças, ensinando depois o português como segunda língua. Ela preside o Conselho de Educação Escolar Indígena do Maranhão (CEEI-MA).

– Se forem bem alfabetizadas no seu mundo e nos seus valores culturais, como recomenda o Caderno, as crianças permanecerão em conexão com a floresta, as árvores, os animais, os rios – disse Cintia, que  propôs a distribuição dos Almanaques e do Caderno por todas as escolas do Maranhão, incluindo as dos Awá-Guajá, com quem compartilha o território.

Apagar a lanterna

Na nossa fala, resumimos o livro Brilhos na Floresta indicado no Caderno como material de consulta. Escrito em quatro línguas – nheengatu, português, inglês e japonês – ele aproxima a ciência e a floresta do público infanto-juvenil. Seus autores Noêmia Kazue Ishikawa, Takehide Ikeda, Aldevan Baniwa e Ana Carla Bruno contam experiência vivida uma noite na floresta amazônica para estudar cogumelos bioluminescentes, que brilham como pirilampos.

Bióloga do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), Noêmia recebeu seu colega Takehide, da Universidade de Kyoto. Ciceroneado por Aldevan Baniwa, eles caminharam na selva em fila indiana numa noite sem lua.

 – Andem perto de mim. Iluminem o caminho com a lanterna e olhem com cuidado onde pisam – recomendou Aldevan.

Depois de longa caminhada, o Baniwa pede que todos apaguem suas lanternas. Durante dez minutos parados e mergulhados em intensa escuridão, os olhos se acostumaram com o breu. Primeiramente, a mancha esverdeada de uma folha brilha bem no pé de Noêmia. Ela levanta a cabeça. Os cogumelos, então, deslumbrantes, resplandecem em toda sua majestade. Parece até uma cintilante árvore de natal.

Comentei que eles nunca mais esquecerão aquele espetáculo de pirilampo pisca-piscando, que pode ser observado na floresta amazônica, mas também na mata atlântica, no cerrado e em biomas de outros países. Mesmo não tendo presenciado, só através da leitura, nós também não esquecemos.

– Já andei de noite por muitas florestas. Por que será que nunca vi isso antes – pergunta Ikeda, intrigado.

– Você apagou a lanterna? – perguntou o Baniwa. E diante da resposta negativa, concluiu:

– Os cientistas deviam saber que nem tudo que a gente procura, pode ser encontrado iluminando. Às vezes, para ver, é preciso desiluminar.

Depois deste relato, concluímos que os livros do Trilhos da Alfabetização estão aí para apagar a lanterna dos preconceitos, permitindo que possamos ver os brilhos dos saberes indígenas, como no poema O Guardador de Águas de Manoel de Barros, para quem “Ao poeta, faz bem desexplicar – tanto quanto escurecer acende os vagalumes”.

Alfabetizar na oralidade

Após as falas, no debate com secretários e gestores municipais de educação, contamos a divertida história do rato, que se salva das garras do gato por ser bilingue. Foram ainda mencionados os seis Almanaques, três do Maranhão e três do Pará, destinados cada um deles às crianças dos três primeiros anos do Ensino Fundamental. Eles trazem um pouco da história dos municípios incluídos no Projeto Trilhos da Alfabetização, com ilustrações de Claudius Ceccon, mapas, fotos de Carlos Fernando Macedo e outras de autoria dos indígenas Mrê Gavião e Santo Guajajara, que incentivam a leitura de imagens.

O material, que está sendo distribuído para mais de 5 mil educadores de mais de mil escolas públicas em 23 munícipios do Maranhão, contém jogos pedagógicos elaborados com base na cultura regional, além de narrativas orais que trazem ensinamentos, o que pode “tornar a aprendizagem mais significativa, lúdica e prazerosa” e contribuir para formar novos leitores.

A alfabetização através da oralidade destaca a cultura popular e as culturas indígenas, que afloram nos almanaques: culinária, festa do Divino e festas do Milho Verde e da Castanha Nova dos povos Gavião, a Festa do Mel dos Guajajara, narrativas míticas dos Suruí e dos Tapirapé, contribuição das línguas indígenas às variedades locais do português, destaque para poetas, artistas e cantores populares, adivinhações, palavras cruzadas, brincadeiras infantis e brinquedos confeccionados localmente como as canoas de miriti – “o isopor da Amazônia”.

Dessa forma, foi assim que as escolas do Maranhão e do Pará tocaram no dedo do “bem” e trouxeram os povos indígenas para dentro da sala de aula. As lanternas do preconceito foram apagadas, o convite para comer tapioca na maloca está feito e sua degustação agora só depende de como os gestores distribuirão o material e de como os professores serão formados para usar esses livros em sala de aula.

P.S. Fotos de Carlos Fernando Macedo

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