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sábado, 22 junho, 2024

A grande ilusão: o fracasso do internacionalismo liberal americano

© AFP 2023 / Stefani Reynolds

Fato é que, pelo menos por um curto período no início dos anos 1990, particularmente após a Guerra do Golfo e o colapso da União Soviética, pareceu a muitos que o sonho de uma ordem mundial centrada nos Estados Unidos seria realmente viável. O otimismo daquele período desde então desapareceu, e restou demonstrado que o internacionalismo liberal estadunidense não se provou eficiente, tanto em teoria quanto na prática.
Isso porque a ideia de expandir os chamados “valores democráticos pelo mundo” sinalizou essencialmente um projeto para transformar as relações internacionais em um palco no qual os interesses políticos e econômicos americanos encontrassem livre expressão.
A retórica por trás desse projeto era vender a ideia de que liberdade e prosperidade só poderiam ser usufruídas em democracias liberais como a representada pelos Estados Unidos. Dado esse contexto, Washington se tornou o principal líder ocidental a promover – sobretudo agressivamente – o internacionalismo liberal no século XX.
Embora os formuladores de políticas na Casa Branca tenham imaginado uma ampla variedade de maneiras de alcançar seus objetivos políticos, três métodos acabaram se destacando. Em primeiro lugar, temos a retórica em torno da defesa do livre comércio, segundo uma interpretação de que a interdependência econômica entre os Estados reduziria a incidência de conflitos no sistema.
Tal iniciativa visava também proporcionar benefícios por meio da globalização e abertura das fronteiras, como meio de unir as pessoas e talvez atenuar suas diferenças sociais. Contudo, a defesa do livre comércio se viu descreditada por seu próprio centro difusor, que passou a empregar guerras comerciais com rivais geopolíticos (como durante o período Trump contra a China e pela sabotagem recente do gasoduto Nord Stream (Corrente do Norte) que conectava Rússia e Alemanha na Europa).
Outro método que precisa ser destacado nesse projeto liberal diz respeito à exportação da democracia americana para outros Estados e governos. Na prática, como as intervenções dos Estados Unidos no Norte da África, Oriente Médio e Ásia Central demonstraram, tudo não passou de uma tentativa de interferência externa nos assuntos internos de outros países, promovendo os interesses setoriais das elites econômicas e do complexo industrial-militar americano.
O presidente Joe Biden durante uma reunião com o secretário de Defesa Lloyd Austin, à esquerda, e o atual presidente do Estado-Maior Conjunto, o general Mark Milley - Sputnik Brasil, 1920, 14.07.2023

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Finalmente, o terceiro método trata-se da infusão de agendas liberais em órgãos regulatórios e instituições de tomada de decisão internacional, no sentido sobretudo de supostamente defender os direitos humanos contra violações de Estados autoritários. Nesse ponto, o internacionalismo liberal insiste que os diferentes Estados e sociedades ao redor do mundo devem subordinar os interesses coletivos aos interesses individuais.
Em suma, trata-se do enfraquecimento do Estado perante o ideal de autonomia e liberdade do indivíduo, um ideal, aliás, puramente ocidental e de modo algum universal. Aqui, lidamos com a tentativa de europeus e americanos de forçar seus valores e ideais duvidosos em países e povos inteiros, ignorando suas tradições históricas e suas especificidades culturais, sociais, políticas e religiosas. Um projeto que falhou devido à irrefutável realidade da pluralidade civilizacional do mundo.
Deve-se notar, portanto, que o internacionalismo liberal é fundamentalmente um projeto revolucionário. Ele busca transformar a estrutura básica do sistema de Estados, assim como busca transformar como as sociedades são organizadas, em torno da ideia do culto ao indivíduo e às aberrações que dele advém.
No início do século XXI, por sua vez, testemunhamos o levantar de diferentes civilizações e Estados que se opõem a esse projeto homogeneizante do Ocidente (capitaneado pelos Estados Unidos), defendendo assim sua história e a forma de viver de suas populações.
No mais, mesmo diante de uma era de globalização, os Estados nacionais não perderam força, mas continuam sendo os legítimos representantes de seus cidadãos e os principais condutores de políticas macroeconômicas em seu território. Com efeito, também o mundo unipolar que se visualizava no começo dos anos 1990 deu lugar à multipolaridade no sistema internacional, muito por conta da ascensão da Rússia no começo dos anos 2000 e sobretudo da China.
A propósito, Rússia e China mostraram no decorrer do tempo que a paz social, o gozo de liberdades fundamentais e mesmo o bem-estar econômico podem ser atingidos sem a necessidade de emular irrestritamente a democracia de tom liberal dos Estados Unidos. Tal situação confrontou os internacionalistas liberais com dilemas intratáveis, e provocou neles uma tremenda frustração em vista de seu fracasso em reformar o mundo de acordo com sua imaginação e desígnios.
Capitólio em Washington, EUA, 15 de março de 2023 - Sputnik Brasil, 1920, 26.07.2023

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Em teoria, os liberais sempre enxergaram o Estado com desconfiança. Contudo, os políticos americanos (principais atores por trás da exportação do projeto liberal) tiveram de admitir o sucesso de países nos quais o Estado teve (e continuará tendo) um papel fundamental na vida econômica e social de seus cidadãos. Ademais, hoje está bastante claro que até mesmo o modelo de intervenção humanitária se encontra esgotado, dado o uso desmedido da força militar pelos Estados Unidos em defesa das chamadas “populações oprimidas” pelo mundo.
Em verdade, tais intervenções minaram a própria confiança na eficácia do direito internacional e relativizaram perigosamente o conceito de soberania estatal. Tratou-se, enfim, de uma máscara para que Estados poderosos (sobretudo no Ocidente) promovessem seus próprios interesses nacionais invocando ideais que parecessem bonitos para um grande público.
Assim sendo, o internacionalismo liberal estadunidense provou-se uma grande ilusão desde o começo. Por um lado, os Estados Unidos queriam transformar o mundo à sua imagem e semelhança. Por outro, continuarão sem entender que nem todas as nações estão ávidas por emular o seu chamado “american way”.

As opiniões expressas neste artigo podem não coincidir com as da redação.

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