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terça-feira, 16 abril, 2024

A erosão da democracia (ou não)

 

Amanhã vai ser maior: o que aconteceu com o Brasil e possíveis rotas de fuga para a crise atual” a antropóloga, pesquisadora e professora Rosana Pinheiro-Machado analisa o impacto das políticas inclusivas dos governos petistas. Nesse período, teve início um processo no qual o poder de compra passou a ser um meio fundamental de reconhecimento e visibilidade entre as camadas populares.

Para ajudar o leitor a entender essa questão, Rosana traz ao debate ideias de diversos autores. Segundo o sociólogo alemão Wolfgang Streeck, em seu artigo “Citizens as Customers”, a “socialização pelo consumo” é mais individual do que coletiva e cria pessoas menos integradas socialmente e menos comprometidas na esfera pública”.

Na mesma direção, autores que analisam a formação das ideias políticas no neoliberalismo, como Wendy Brown, Pierre Dardot e Christian Laval, entre outros, entendem o consumo como parte de um processo de hiperindividualização e competição. Dessa forma, o mercado invade todas as esferas da sociedade e atinge a conduta humana, causando uma espécie de “privatização do eu”, uma busca permanente por prazer, esvaziando o tecido político-social.

Rosana destaca autores como Chico de Oliveira, Ruy Braga e Lena Lavinas, que apontam para o fato de que a adoção de políticas públicas neoliberais contribui para a despolitização do Estado, tornando-o um braço gestor do mercado financeiro. Para Lavinas, os governos petistas promoveram avanços sociais fundamentais, mas não chegaram a romper com o regime macroeconômico vigente no país, que era, em sua essência, bastante neoliberal, e levou à redução da provisão de bens públicos.

De acordo com a antropóloga, a inclusão via consumo transformou a autoestima de indivíduos de baixa renda, o que a autora denomina “autovalor”. O ato de adquirir bens de status embaralhou o monopólio de símbolos de prestígio das elites e ameaçou romper as relações servis que se perpetuam desde a escravidão. Por outro lado, quando essa mesma parcela da sociedade se viu em meio à crise econômica, abriu-se um campo com potencial de desestabilizar a democracia brasileira.

Em 2014, o país entrou em uma profunda crise econômica, política e de segurança pública. E todos, não importa a classe, viram-se perdidos. “Amanhã vai ser maior: o que aconteceu com o Brasil e possíveis rotas de fuga para a crise atual” é um livro que busca entender os caminhos que levaram o país até o momento político atual – das Jornadas de Junho à presidência de Jair Bolsonaro.

Ficha técnica:
Amanhã vai ser maior: o que aconteceu com o Brasil e possíveis rotas de fuga para a crise atual
Rosana Pinheiro-Machado
Editora Planeta
192 páginas
R$ 39,90

Sobre o livro: Boa parte dos brasileiros possui uma única pergunta: o que está acontecendo com o país? Muitas pessoas se sentem em um trem desgovernado por causa de transformações profundas que o Brasil sofreu nos últimos anos. E elas não sabem como viver e combater o caos diário. Por isso, este livro possui dois objetivos. Primeiro, jogar luz sobre este período de crise, trazendo uma análise do cenário político e social desde as Jornadas de Junho até a eleição de Jair Bolsonaro, sem cair no jargão acadêmico. Afinal, antes de tudo, é preciso entender o que se passa hoje. Segundo, sugerir as saídas que se delineiam no horizonte e levantar as possibilidades de resistir e, acima de tudo, viver em tempos sombrios.

Sobre a autora: Rosana Pinheiro – Machado é cientista social e antropóloga. Como intelectual pública, suas colunas viralizaram diversas vezes e pautaram o debate nacional e internacional, como ocorreu na época dos rolezinhos, da greve dos caminhoneiros e da eleição de Jair Bolsonaro. Atualmente é professora de Desenvolvimento Internacional na Universidade de Bath (Reino Unido) e fellow da academia de ensino superior do Reino Unido. No Brasil, leciona no Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e é colunista do The Intercept Brasil.

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