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quarta-feira, 16 setembro 2026

A deterioração estratégica das Forças Armadas dos Estados Unidos (I)

Por Sergio Rodríguez Gelfenstein*

Em outubro passado, escrevi um artigo descrevendo os problemas internos que assolam as Forças Armadas dos Estados Unidos. Naquela ocasião, enfatizei as questões doutrinárias onde surgiram divergências entre os líderes políticos e militares do Pentágono, particularmente em relação à nova estratégia de defesa elaborada pelo governo Trump.

Nesse artigo, destaquei que o ponto de vista do Secretário da Guerra, Pete Hegseth — que estabeleceu que o foco das preocupações militares dos EUA deveria ser o enfrentamento e a derrota de ameaças internas — encontra resistência por parte da alta cúpula das Forças Armadas, visto que um bom número de generais e almirantes acreditava que o Secretário estava minimizando a competição dos EUA com a China e reduzindo o papel do país na Europa e em outras regiões do mundo.

Essa situação crítica parece ter se agravado nos últimos dois meses. A esse respeito, mencionarei quatro perspectivas fundamentais que, embora não sejam as únicas, expressam aspectos da capacidade de combate de uma força armada que, sem dúvida, influenciam a determinação de sua real prontidão para o combate. São elas:

1. Gestão Estratégica

2. Moral de combate das tropas

3. Infraestrutura

4. Equipamentos

Vejamos:

Em relação à liderança estratégica, o impacto da gestão equivocada de Pete Hegseth no Departamento de Guerra é bem conhecido, a ponto de, em 6 de agosto, o próprio presidente Trump ter que vir a público refutar as alegações de que teria tido desavenças com Hegseth motivadas por “informações falsas” que este lhe teria fornecido a respeito das reservas de armas do país, supostamente esgotadas durante a guerra contra o Irã.

Discutindo o único sucesso militar alcançado pelos Estados Unidos durante seu mandato (a incursão na Venezuela e o sequestro do presidente Maduro) e mentindo descaradamente sobre sua guerra com o Irã, Trump lançou um ataque soberbo contra a mídia, a quem culpa por desinformar sobre seu histórico que – segundo ele – inclui a conclusão bem-sucedida de dez guerras.

No entanto, a renúncia do Secretário do Exército, Dan Driscoll, evidenciou a crise institucional no Departamento de Guerra sob a liderança de Hegseth. Isso se soma a uma série de demissões e bloqueios de promoções de oficiais militares de alta patente, gerando preocupação entre senadores e representantes republicanos.

A saída de Driscoll (um funcionário do movimento MAGA próximo ao vice-presidente JD Vance) segue a do chefe do Estado-Maior do Exército, Randy A. George, em meio a divergências sobre a modernização das Forças Armadas. Relatos indicam que a reestruturação realizada por Hegseth afetou mais de 10% da liderança militar, suspendendo as promoções de dezenas de oficiais superiores.

Interinamente, o cargo de Chefe do Estado-Maior do Exército está sendo ocupado pelo General Christopher LaNeve, um aliado próximo de Hegseth, o que evidencia a divisão dentro das Forças Armadas. A saída de Driscoll segue as da Chefe de Operações Navais, Almirante Lisa Franchetti, e do Vice-Chefe do Estado-Maior da Força Aérea, General Jim Slife.

Ao tentar se esquivar da responsabilidade por essas questões, especialmente a espinhosa questão dos estoques de munição, Hegseth culpou seu subsecretário, Stephen Feinberg, responsabilizando-o também por não garantir que o presidente estivesse plenamente informado sobre a situação.

Este contexto ocorre enquanto as Forças Armadas enfrentam as exigências operacionais decorrentes da prolongação, por mais de seis meses, do conflito no Oriente Médio, o que representou uma significativa pressão logística e um forte impacto na preparação estratégica das tropas destacadas em missões internacionais prolongadas, fato que tem sido insistentemente negado por Trump e Hegseth.

Não é segredo que a instabilidade na liderança das Forças Armadas dos Estados Unidos, devido à constante rotatividade de cargos de comando, cria um vácuo de direção e liderança e dificulta a inovação tecnológica necessária em um momento tão complexo como o atual.

A insistência de Trump e Hegseth em manter comandantes interinos nomeados politicamente (para impedir que generais e almirantes “ligados ao Partido Democrata” e à ideologia woke alcancem posições de poder) visa consolidar uma cadeia de comando atrelada ao Partido Republicano. A possibilidade real de os republicanos perderem o controle do Senado, que decide sobre as promoções a generais e almirantes, nas próximas eleições, paradoxalmente motiva Hegseth a acelerar o processo.

Em outra frente, a Marinha dos EUA enfrenta crescente pressão financeira, já que a prolongada guerra de Washington contra o Irã consumiu bilhões de dólares em despesas operacionais, forçando a instituição a desviar fundos destinados a salários e outras necessidades militares. Isso está impactando os estoques de armas e a infraestrutura militar, visto que meses de operações de combate, deslocamentos navais e ataques retaliatórios iranianos continuam a drenar os recursos do Pentágono. “Os estoques estão esgotados”, disse o oficial da Marinha dos EUA aposentado Harlan Ullman ao jornal britânico The Guardian.

Em outra área, a questão das condições de trabalho e de vida das tropas, que afeta seu moral em combate, atingiu um ponto de virada depois que o porta-aviões Abraham Lincoln passou nove meses consecutivos no mar, apresentando sérios sinais de deterioração, conforme relatado pelos próprios marinheiros a bordo da embarcação.

Entre os problemas encontrados neste navio, lançado em fevereiro de 1988, estavam chuveiros mofados que forçaram seu fechamento por vários dias. O mesmo ocorreu com as instalações de lavanderia. Da mesma forma, foram detectados problemas com água quente e potável, bem como vasos sanitários quebrados que entupiam e transbordavam, deixando um acúmulo de excrementos humanos nos banheiros usados ​​por cerca de 200 marinheiros.

Além disso, membros da tripulação relataram escassez de alimentos e longas filas de uma hora ou mais para comprar comida na loja do navio. Um militar relatou em uma mensagem para sua mãe que “às vezes a refeição consistia em meia xícara de arroz e duas tortillas”, uma afirmação denunciada pelo congressista democrata Mike Levin, apesar da negação do governo. Por um longo período, os marinheiros tiveram que se alimentar basicamente de atum misturado com macarrão ou salsichas; vários descreveram perda de peso significativa.

Da mesma forma, a tripulação ficou sem suprimentos básicos como pasta de dente, desodorante e sabonete. Além disso, os atrasos na entrega de correspondências foram tão graves que alguns pacotes de ajuda humanitária desapareceram do sistema por meses.

Em outro assunto tão delicado quanto a situação das tropas, cabe mencionar que um marinheiro relatou ter visto buracos que vêm corroendo gradualmente o convés de voo, uma das áreas mais vulneráveis ​​da embarcação militar, visto que aeronaves com motores potentes podem queimar os marinheiros e jogá-los ao mar. Um oficial afirmou que “as hélices giratórias são capazes de causar acidentes, enquanto o constante carregamento e descarregamento de bombas, mísseis e foguetes representa um risco de explosões e incêndios”.

Tudo isso levou a uma queda na moral e, consequentemente, a um declínio no espírito de luta das tropas, especialmente porque a tripulação do Lincoln teve apenas dois dias de folga desde que zarpou de seu porto de origem, San Diego, em novembro passado. Vale ressaltar que isso ocorre porque o porto onde esse tipo de navio costumava parar para descanso da tripulação era a Estação Naval de Jufair, no Bahrein, base da Quinta Frota dos EUA, onde se localizava grande parte de seu centro logístico, agora destruído por mísseis iranianos. No passado, essas cargas transitavam pelo Estreito de Ormuz, o que agora é impossível devido ao risco de ataques iranianos.

A democrata Sara Jacobs, membro do Comitê de Serviços Armados da Câmara, alertou sobre o esgotamento e a saúde mental dos fuzileiros navais a bordo, “porque a história mostrou que isso pode ter consequências graves, incluindo um risco aumentado de suicídio”.

Nesse contexto, o almirante aposentado Mike Mullen, ex-presidente do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas dos EUA, explicou que as bases americanas no Bahrein, Kuwait e Emirados Árabes Unidos, normalmente usadas para descanso da tripulação, tornaram-se inutilizáveis ​​após os ataques iranianos. Ele disse: “Esses lugares onde normalmente íamos descansar e relaxar [agora] não podem ser usados”. Vários senadores e familiares de marinheiros alertaram sobre a deterioração da saúde mental da tripulação. Nessas condições, familiares relataram que vários marinheiros tentaram pular no mar devido ao estresse extremo, turnos e vigias de 12 a 16 horas e exaustão física.

Mas os problemas não são exclusivos do Lincoln. O jornalista investigativo Seth Harp publicou fotografias do interior do porta-aviões George Washington mostrando mofo e instalações deterioradas, apesar de o navio ter concluído recentemente uma “revisão completa” de seis anos. Segundo Harp, essa situação é resultado da Marinha dos EUA ter apenas “um estaleiro capaz de reabastecer e reparar um porta-aviões de propulsão nuclear”.

Após as alegações em torno da situação no porta-aviões Lincoln, novos depoimentos começaram a surgir de pessoas próximas a militares destacados em outros navios e até mesmo em terra. Esses indivíduos afirmaram ter recebido mensagens diretas de parentes e militares familiarizados com o assunto, que falaram sob condição de anonimato e declararam que o que havia sido dito sobre o Lincoln era absolutamente verdade. Acrescentaram que eles próprios — em outras unidades navais — também estavam enfrentando dificuldades, embora ainda não na mesma proporção. Indicaram que estavam destacados havia cinco ou seis meses e não tinham visto terra desde o início do conflito com a República Islâmica do Irã.

Uma mensagem de outro porta-aviões, o George H.W. Bush, relata a queixa de um marinheiro designado para aquele navio, que retornou temporariamente aos Estados Unidos e afirmou categoricamente que “o moral está baixo e todos estão infelizes. É de partir o coração”.
As queixas não se limitam aos navios. De acordo com a mãe de um militar destacado no Kuwait, a saúde mental de seu filho se deteriorou gravemente. A mulher revelou que o jovem estava sofrendo de problemas de saúde extremos, acrescentando que ele dizia se sentir “cansado, com fome e com medo”.

Outro depoimento, da esposa de um militar atualmente a bordo do Lincoln, afirmou que seu marido lhe disse que “eles precisam desesperadamente que mais pessoas falem sobre o que está acontecendo”, porque quando os marinheiros pedem informações a seus superiores, são instruídos a não se preocuparem com as últimas notícias e “apenas se preocuparem com o hoje”.

A mulher acrescentou que a tripulação está exausta, sem folgas e mal conseguindo dormir algumas horas. Ela também lembrou que seu marido expressou sérias preocupações sobre a liderança a bordo, observando que “ele não se importa com sua equipe”. Ela acrescentou que até mesmo marinheiros com mais de 20 anos de experiência consideram esta a pior missão de que já passaram.

A situação chegou a tal extremo que vários legisladores exerceram considerável pressão para forçar o Alto Comando da Marinha a enviar o porta-aviões George Washington à região para substituir o Lincoln após sua prolongada missão. Vale ressaltar que essa substituição foi realizada à maneira tipicamente americana. Ou seja, em vez de seguir diretamente para sua base em San Diego, Califórnia, o Alto Comando da Marinha decidiu que o navio faria uma escala em Pattaya, Tailândia. Esta pequena cidade de cerca de 300.000 habitantes, dos quais 120.000 eram registrados, era até 1961 uma tranquila vila de pescadores, mas em abril daquele ano foi praticamente ocupada pela “gloriosa” Marinha dos EUA, participante da Guerra do Vietnã, para ser usada como um grande bordel coletivo para seus dedicados marinheiros e oficiais. Da mesma forma, Pattaya, onde a tripulação do Lincoln chegou no último domingo, 6 de setembro, é conhecida como o maior centro gay da Ásia e está repleta de bares onde pessoas transgênero e drag queens fazem shows aparentemente para o deleite dos marinheiros americanos em apuros. (Continua).

*Sérgio Rodríguez Gelfenstein

Com formação em Estudos Internacionais, mestrado em Relações Internacionais e Globais e doutorado em Ciências Políticas, possui uma vasta e diversificada produção acadêmica, incluindo ensaios e trabalhos jornalísticos. Até o momento, publicou 17 livros como autor e outros como editor, além de inúmeros artigos e ensaios em cerca de 20 revistas na Venezuela, México, Chile, Peru, Brasil, Argentina e República Dominicana, entre outros. Também coordenou, compilou e contribuiu para diversas publicações coletivas em aproximadamente 10 países da América Latina e Europa, além de vários livros temáticos de menor escala. 

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