Na Babel do rio das Amazonas já se conhecem mais de 150 línguas, tão diversas entre si como a nossa e a grega; e assim, quando lá chegamos, todos nós somos mudos, e todos eles surdos. Vede agora quanto estudo e quanto trabalho será necessário para que estes mudos falem e estes surdos ouçam.
Imposta pelo colonizador, foi a língua do catecismo, das orações, dos sermões, dos cantos, da catequese e do trabalho compulsório. Subiu o rio Amazonas, penetrou em seus afluentes, entre eles o rio Negro, e se expandiu por toda a região. Mas foi também a língua de dezenas de insurreições indígenas, desde o levante Tupinambá contra a escravidão comandado pelo tuxaua Guaimiaba, o Cabelo de Velha, no séc. XVII, passando pela revolta de Ajuricaba no séc. XVIII até a Cabanagem no séc. XIX.
Os tupinólogos do séc. XIX ficaram deslumbrados com a beleza e a sapiência das narrativas veiculadas pelo Nheengatu ou fala boa, que o general Couto de Magalhães aprendeu só para poder recolher narrativas indígenas como aquela em que o jabuti contracena com a onça e o jacaré, em versão por mim resumida na festa de lançamento da Constituição. Foi assim.
La Fontaine e Maquiavel se deliciariam com essa narrativa indígena, que reflete alto grau de civilização, porque – diz Couto de Magalhães – só um povo altamente civilizado usa a inteligência para vencer a força.
A edição em LGA contém quatro textos bilingues: a Apresentação de Rosa Weber, o Prefácio assinado por Marco Lucchesi e José Bessa, a Introdução de Andréa Medeiros, Luanna Marley e Luís Lanfredi e a Importância da Tradução de Edilson Baniwa, um de seus tradutores, doutor em linguística, para quem a Constituição “revela um mundo desconhecido e diferente, mas que agora pode ser compreendido pelos falantes de Nheengatu” .
O general Couto de Magalhães contra-argumentou: “Para avaliar as qualidades estéticas de uma obra, o estudioso deve examiná-la com rigor, o que requer inapelavelmente o conhecimento da língua em que ela foi produzida, sem o qual qualquer juízo crítico está invalidado. Se até a pedra mais insignificante merece ser estudada por geólogos, quanto mais uma língua, criação humana”.