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Argentina

Postado em 20/03/2020 7:24

A Argentina reforça o melhor antídoto contra o coronavirus: o Estado as políticas públicas e a solidariedade

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Helena Iono, direto de Buenos Aires
Com 128 casos e 3 mortes por coronavirus na Argentina, o governo de Alberto Fernandez enfrenta de forma alentadora este gravíssimo problema mundial, acionando a mão forte do Estado com medidas e instruções urgentes e severas na área da saúde, da proteção social, da economia e da defesa nacional para proteger uma população de mais de 44 milhões de argentinos.
Aqui, o governo  antecipou-se a uma previsível rápida difusão do vírus de forma preventiva, há 10 dias atrás, partindo do alerta vermelho e das experiências da Itália e da Espanha, e da Europa em geral cujos governos, lamentavelmente, despertaram tarde, enfrentando agora uma difusão catastrófica de difícil controle, com mortes a um nível já superior à da República Popular da China. País este, que, graças à sua estrutura econômica-social baseada na eficiência de uma Estado socialista e numa disciplina coletiva, solidária e centralizada do povo, não só está vencendo a pandemia e a infodemia, mas se encontra em vias de criar uma vacina anti-Covid-19 para o mundo, como anunciado pela Academia Militar de Ciências Médicas da China. Enquanto a infodemia esparge o vírus das fakenews, dos ataques ao “coronavirus vermelho” e do anticomunismo e do racismo, desnuda-se aos olhos dos povos, a impotência das estruturas capitalistas, induzidas pelo neoliberalismo ao esvaziamento do Estado, à medicina privatizada como nos EUA e na Europa. É nesse meio de cultura neoliberal e de guerra mundial que a propagação do coronavirus é mais rápida quanto mais débeis são as estruturas sanitárias públicas.
Diante disso, o governo da Lombardia, epicentro do foco do coronavirus na Itália, pede ajuda aos médicos de Cuba, China e Venezuela. Os chineses já fizeram chegar um contingente de médicos, remédios, instrumentos, máscaras e respiradores. Cuba, com o antiviral Interferon alfa 2B curativo capaz de debelar o Covid-19 produzido pela indústria biotecnologia cubana e agora na indústria mista cubana-chinesa ChangHeber de Changchun na China, oferece ajuda à Itália, e à Venezuela. Cristina Kirchner que acaba de voltar de Cuba com sua filha Florencia terá muito a contar; oxalá traga um projeto de cooperação similar de produção de Interferon na Argentina. Leia.
Como o governo de Frente de Todos enfrenta o coronavirus
O governo decretou como primeira medida o fechamento total de todas as fronteiras do país, por ar, terra e mar; não somente limitando os voos aéreos dos países de alto risco. O controle de temperatura e a quarentena em função da coletividade tornam-se obrigatórios a todos os cidadãos; em caso de transgressão, denunciados pela cidadania, são sujeitos justamente à prisão por delito. Nos últimos dias entraram 140 mil cidadãos sujeitos à quarentena. Outro problema em pauta é a repatriação de 23 mil cidadãos argentinos, bloqueados no exterior pela crise aeroviária; o seu retorno implica numa grande mobilização de aeroviários num heroico resgate e organização de quarentenas, convocando o papel de vanguarda da Aerolíneas a ser vanguarda.
A equipe governamental de Alberto Fernandez empenha-se e consegue o apoio de legisladores e governadores da oposição. Diferentemente do Brasil, as várias áreas ministeriais trabalham de forma intensa e coordenada na luta contra o coronavirus, na contracorrente de uma economia arrasada pelo neoliberalismo de Macri para quem “o populismo é pior que o coronavirus”, numa afirmação tão irresponsável quanto a dos Bolsonaros e seus seguidores que minimizam a pandemia atribuindo-a a uma invenção midiática, ou a uma criação da China. A única diferença é que Macri já foi embora “lavando as mãos”, e Bolsonaro não as lava e é ainda presidente da mais populosa nação da América Latina para a qual deve dar contas dos seus atos, sem descartar o Parlamento e a Justiça. Eis uma grande preocupação dos irmãos latino-americanos, além do valente haitiano, diante dos riscos que o desgoverno de Bolsonaro significa para a vida do povo brasileiro.
Duríssima é a batalha do governo da Frente de Todos no novo cenário criado pelo coronavirus, com um sistema sanitário público destruído pelos cortes de Macri que reduziu o Ministério da Saúde numa simples Secretaria de Saúde. O famoso Instituto Nacional de Microbiologia Dr. Malbran, encontrado num estado de total abandono, está sendo recuperado de urgência para ser o ponto focal de atenção aos infectados pelo Covid-19. Entre as várias medidas sanitárias, o governo nacional decidiu a construção de 8 módulos hospitalares de emergência na Província de Buenos Aires (a mais populosa e infectada), dos quais 5 serão nos municípios da periferia da capital e 3 no interior do país. Assinou-se um acordo entre o governo, a CGT e os sindicatos (4 bilhões de pesos para as obras sociais). Isso atinge 15 milhões de pessoas, ou seja, 1/3 de argentinos. Nisto se inclui o fornecimento de camas e aparelhos para hospitais, além de colocar os hotéis, normalmente usados para lazer e eventos sindicais, à disposição das quarentenas. Os moradores de rua  também serão acolhidos nos hotéis e pousadas e albergues.
Além disso, independentemente da emergência coranavirus, voltam-se a distribuir gratuitamente todos os remédios essenciais aos idosos; aceleram-se também as políticas de contenção das outras epidemias massivas e fatais como a do dengue e do sarampo, ignoradas pela gestão macrista que se dedicou a levar bilhões de dólares ao exterior. O Ministro de Defesa, Agustin Rossi, anuncia que máscaras de proteção e álcool estão sendo produzidos pela fábrica militar que suspende, momentaneamente, a produção de fardas dos soldados. E o mais importante é que Alberto Fernández reuniu-se com o embaixador da República Popular da China para selar acordos semelhantes aos realizados entre esse país e a Itália. Em pouco tempo a Argentina terá uma quantidade significativa de reagentes para prova de Coronavirus e outros instrumentos sanitários. Entre o modelo italiano e o chinês, a Argentina opta por acelerar os passos e organizar a estrutura sanitária e a consciência social coletiva como na China.
Logicamente, entre todas as medidas de contenção da propagação do coronavirus estão decretados os fechamentos das escolas públicas e privadas, até dia 31 de março e suspensas todas as atividades esportivas, culturais, cinema, teatro, espetáculos que impliquem aglomerações. Os trabalhadores estatais e privados têm licença de 14 dias, enquanto a permissão ao trabalho a partir de casa está generalizada. O Ministério da Educação e equipes de educadores ocupam as telas da TV Pública, dos canais Novo Encontro (cultural) e Paka Paka (infantil) com programas para educação e entretenimento, suprindo o fechamento das escolas. As mães e avós da Praça de maio, suspendem a histórica manifestação anual em homenagem aos mortos e desaparecidos na ditadura, a do “Nunca Mais”, da “Memória, Justiça e Verdade”, neste 24 de março, sem deixar de realizar encontros restritos e pronunciamentos pelas redes.
A intervenção do Estado frente à virulenta crise econômica
O ministro da Economia, Martín Guzmán, e o ministro da Produção, Matías Kulfas,  anunciaram as medidas emergentes no plano econômico para conter os efeitos nefastos da “crise coronavirus” na subsistência do trabalhador e na atividade produtiva, das pequenas e médias empresas e comércios. Felizmente, trata-se de um governo eleito com um projeto de fortalecimento e recuperação do Estado. A emergência social cria um bônus aos aposentados de baixa renda, e um aumento da AUH (Subsídio universal por filho), um maior abastecimento dos chamados “comedores populares” nos bairros pobres, e uma prorrogação de dois meses para o vencimento das dívidas dos aposentados por créditos sociais ao fundo de pensão. Enfim, o Estado deverá respaldar a subsistência dos setores mais indefesos da população nestes meses excepcionais de calamidade pública. Os trabalhadores autônomos e informais, que são cerca de 10 milhões, sobretudo jovens, serão contemplados nos próximos dias na ajuda emergencial.  A organizações católicas dos “Padres pelos pobres”, que atendem os favelados pressionam para organizar material sanitário e quarentenas nas comunidades.  A suspensão dos transportes públicos é parcial, com regras de manutenção higiênica e impedimento de usuários em pé (exclusivamente sentados). A circulação entre várias Províncias (estados) também está fechada, e o movimento de automóveis nas estradas é restrito e controlado.
A guerra ao coranavirus na Argentina traz um pacote de medidas de apoio às patronais onde o Estado dará 350 bilhões de pesos em créditos para as chamadas PYMES (pequena e média empresas) e subsídios para o pagamento de salários dos trabalhadores. A meta é garantir “produção, trabalho e abastecimento”. Mas ao mesmo tempo, o governo garante que haverá um severo controle delimitando preços máximos ao consumidor; que combaterá a especulação nos supermercados que exploram o pânico social provocado por falsos alarmes de desabastecimento.  Este será um bom momento para o exercício do controle popular. A produção da indústria alimentar, farmacêutica, agropecuária, lavanderia, petróleo e obra pública está garantida.
Ao finalizar este artigo, o presidente Alberto Fernandez, reunido com todos os governadores emite um Decreto Nacional de Urgência que ordena uma quarentena obrigatória de todos os cidadãos em todo o país, a partir de hoje, dia 20 ao 31 de março. Leia detalhes das medidas no seu comovente apelo ao povo argentino através da sua carta publicada no site da Casa Rosada. Não obstante farta comunicação governamental sobre o enorme risco que corre o país, há ainda muita irresponsabilidade e individualismo de “espertinhos” de pequenos extratos altos da sociedade incapazes de pensar no coletivo, resistindo à quarentena e à ordem institucional, alastrando o coronavirus. O isolamento individual obrigatório é fundamental pois a velocidade do vírus é maior que o tempo necessário para organizar a estrutura sanitária de salvação. “É uma luta contra um inimigo invisível, para salvar vidas”. “O Estado será implacável com aqueles que colocarem em risco a saúde dos argentinos!” “Farei cumprir a lei com todo rigor para salvar vidas. Seremos muito estritos para assegurar o cuidado do nosso povo.” “Trata-se de uma Democracia para reduzir o dano ao povo e salvar a maior quantidade de vidas possíveis!”(Alberto Fernandez) O Ministério da Defesa acaba de convocar o Exército para uma Operação de proteção civil, chamada Covid-19. O comandante diz-se orgulhoso de ser militar para cuidar do seu povo e visibilizar o inimigo. O lado positivo nesta situação, é que a maioria do povo argentino está passando por uma prova de mudanças culturais, nos costumes e na atitude solidária. Mais Estado e solidariedade! O reconhecimento ao papel abnegado do pessoal sanitário e hospitalar na defesa das vítimas do coronavirus expressou-se no aplauso popular, hoje, às 21 horas nas janelas de todo o país.
Não há outro caminho para debelar o coronavirus senão protagonizar o Estado. Até mesmo governos como o de Macrón (França) e de Giuseppe Conte (Itália) cujos projetos neoliberais foram pegos de surpresa pelo coronavirus são obrigados a valorizar o Estado. A Itália nacionaliza a companhia de aviação Alitália, e Macron se pronuncia contra o mercado, as privatizações, e diz suspender as decisões pela reforma das pensões, destinando 300 bilhões de euros do Estado para proteger os trabalhadores e as empresas.
Não há que alarmar-se, mas é preocupante um cenário de guerra mundial provocada por um estranho vírus cujo desenvolvimento é ainda desconhecido, e cuja origem é controversa; simples acaso, ou uma guerra bacteriológica provocada por uma guerra econômica entre EUA versus China? EUA versus uma Europa que abre as portas para a Rota da Seda? EUA (Pentágono e poder financeiro internacional) versus a crescente contestação dos povos ao neo-liberalismo, unidos, mobilizados, do Chile, à Espanha, França ao Irã? Por algo houve pronunciamentos no Irã e na China, denunciando a criação do coronavirus em laboratórios nos EUA. E por algo, as forças militares da Otan preparam-se para exercitações militares de 20 de abril a julho, através da operação “Europe Defender 20”, usando suas bases militares na Europa. Em plena pandemia de coronavirus declarada pela OMS, anunciaram inicialmente 20 mil soldados dos EUA (posteriormente, Trump recuou e reduziu o contingente) desembarcando em 7 aeroportos europeus somando-se aos 10 mil já existentes, além dos 7 mil dos outros países da Otan. Junto a isso, a Otan importará 14 mil meios militares, tanques, helicópteros e munições. Porém, a Itália e a Noruega já se negaram a participar das operações “Defender 20” da Otan. Ao contrário, o governo italiano é obrigado a mobilizar soldados na proteção civil diante da catástrofe social. O presidente da Sérbia, Aleksandar Vucik , critica a “solidariedade europeia como conto de fadas”, elogia a China e lhe pede socorro.
O fato é que a crise mundial econômica-social do capitalismo chega à beira do lançamento de uma guerra fatal. Como já previsto pelo dirigente teórico trotskista, J. Posadas, ela será inevitável por questão de sua sobrevivência como sistema; e ela poderia ser atômica, sem previsão de quando, nem como, nem onde. O pior é que a guerra bacteriológica, pode ser tão destrutiva quanto a atômica, sem que o ator político seja um sujeito visível contra o qual combater, como na guerra convencional, ou na de Hiroshima e Nagasaki. Só a história o dirá. Agora, trata-se de unir todas as forças da humanidade, exigindo políticas públicas nos países, contra as privatizações, exigindo uma intervenção plena e urgente de um Estado de bem estar social e revolucionário para superar este dramático charco do coronavirus.
A Argentina está dando um voto de confiança ao governo da Frente de Todos, de Alberto e Cristina, onde o povo deve ser protagonista e não vítima do seu destino.  A Argentina se lança a dar um exemplo para a América Latina, a avançar rumo a um Estado popular, educando o povo a ser consciente e solidário com os que sofrem e necessitam. Uma das boas medidas que deixa o covid-19 é que não deixa dúvidas ao FMI: a dívida externa é impagável.  Se o coronavirus surgiu para matar, confinar, intimidar e dividir os povos, será derrotado e produzirá um efeito contrário: será o fim do capitalismo, pelo menos na consciência humana. Quatorze dias de confinamento domiciliar deverão produzir uma reflexão profunda nos seres humanos; passou da hora de optar entre dois modelos de sociedade contrapostos: a do mercado, ou a do Estado. A China demonstrou na batalha contra o coronavirus, sua superioridade como sistema. Cuba envia médicos cubanos, interferon-Alfa-2B e remédios contra o covid-19 a vários países. Boris Johnson da Inglaterra deixa solto o virus para “aumentar a imunidade” do seu povo, enquanto Cuba, esta ilha socialista solidária, é o único país que abre os portos ao Cruzeiro Britânico, recebe e medica seus passageiros e tripulantes ingleses. Os EUA mantém o bloqueio criminoso à Venezuela e o FMI nega-lhe empréstimos para combater a epidemia. A história ainda não desvendou a origem exata do covid-19, mas a humanidade já constatou quem são os seus inimigos O mundo não será o mesmo depois do charco do coronavirus. Mas não será um mundo de paz, as classes existem e a política será necessária.

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