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segunda-feira, 27 abril 2026

População vai às urnas psicologicamente insatisfeita

– Com seu baixo poder de compra mesmo com  a economia em crescimento precário

César Fonseca

A questão central na disputa eleitoral é o debate salarial; a população não enfrenta o problema do desemprego; há oferta de vagas para quem quer trabalhar; o x da questão são os salários insatisfatórios, ancorados no mínimo mais baixo vigente na América Latina, segundo a Cepal.

O trabalhador faz, hoje, uma exigência fundamental ao empregador: não quer ser fichado, ou seja, cumprir com as exigências da CLT, que foram esvaziadas pela reforma trabalhista neoliberal fascista dos governos Temer e Bolsonaro.

Elas deixam de ser imprescindíveis, como garantia do futuro, porque o presente é o que importa, em última instância, diante da instabilidade macroeconômica determinada pelos juros altos, que bloqueiam os investimentos produtivos.

Dessa forma, as garantias trabalhistas, no cenário de salário baixo, deixam de ser fundamentais e prioritárias, do ponto de vista do trabalhador, especialmente, do setor terciário; é aqui que existe maior número de vagas de trabalho, o que apresenta, estatisticamente, inexistência de desemprego, maior preocupação da sociedade.

O problema crucial é a baixa remuneração no setor terciário, que cresceu por conta da desindustrialização neoliberal; as taxas de juros elevadas levaram o investidor para a especulação financeira, onde fatura mais se optar por investir na economia real, onde os custos de produção reduzem a taxa de lucro, diante do subconsumismo macroeconômico.

NOVA DIALÉTICA DA RELAÇÃO CAPITAL-TRABALHO

Nesse contexto, o trabalhador dialoga com empregador capitalista nos seguintes termos:

1 – Ele quer trabalhar sem ser fichado;

2 – Acerta uma remuneração por fora, onde não paga custos de contratação, preferindo abrir mão de direitos;

3 – Para topar essa negociação, o trabalhador tem como garantia a remuneração do programa Bolsa Família, no qual está inscrito;

4 – É mais vantagem garantir o somatório da receita do Bolsa Família + a remuneração que acerta por fora com o empregador;

5 – Nesse acerto, o trabalhador tem a chance de, aparentemente,  reduzir a jornada de trabalho, descolando-se do que prega a lei trabalhista, para poder trabalhar em outro emprego, acumulando duas jornadas + a remuneração do bolsa família;

6 – Passa a ganhar, com essa negociação, valor superior ao do salário-mínimo, que deixou de ser útil, do ponto de vista do trabalhador, como suficiente para atender as necessidades essenciais da família;

7 – Trata-se do jeitinho brasileiro: conviver precariamentte com política salarial sob as regras institucionais, de modo a alcançar sobrevivência, minimamente, satisfatória;

8 – Solidifica-se, dessa forma, o denominado trabalho precariado, que estica, na prática, a jornada de trabalho e, consequentemente, a extração de maior mais-valia em favor do capitalista;

9 – Carreiras de tecno-profissionais, como agentes de saúde, por exemplo,  expandem-se, dessa forma, com o profissional trabalhando em dois empregos e se associando a colegas do mesmo ofício para fazer bico de “cuidador” de doentes que precisam de assistência em casa etc;

10 – Há, ainda, profissionais de nível superior que, diante da inexistente oferta das indústrias, que lhe asseguraria emprego sustentável, optam por ser motorista de taxi ou de uber, nas horas vagas, sobrecarregando-se de trabalho, perdendo qualidade de vida, para ter um pouco mais de rendimento;

11 – Nesse cenário de precarização geral do trabalho, sob política salarial imposta pelo setor terciário, na falta de oferta do setor produtivo industrial, onde há agregação de valor-trabalho, a jornada de trabalho é, naturalmente, extensa;

12 – Pragmaticamente, para o trabalhador, pode até ser aprovada, no Congresso, lei de redução da jornada para 5 x 2, em que, teoricamente, teria dois dias de descanso na semana; porém, como precisa de maior remuneração para sustentar-se, acaba, na prática, cumprindo longa jornada, talvez, até, mais que a 6 x 1, ou 7 x 0, rompendo-se o final de semana, como precariado, mesmo que diminua, no sábado ou domingo, o ritmo de trabalho;

13 – Portanto, o modelo neoliberal em vigor, intensificado depois das anti-reformas trabalhistas, nos governos Temer e Bolsonaro, manteve ou até elevou a massa salarial, refletida, naturalmente, em PIB crescente, mas afetou, duramente, a qualidade de vida do trabalhador, na ausência de projeto de desenvolvimento em que a industrialização tornasse prioridade essencial.

PSICOLOGIA SOCIAL DIANTE DAS URNAS

É em tal ambiente econômico e político, no qual a inflação e o emprego estão sob controle, em meio a rendimentos salariais precarizados, mas, estabilizados, que a população irá às urnas em outubro sob impacto psicológico instável; a insatisfação social se encontra latente, na hora da escolha dos candidatos que se apresentam.

As opções, praticamente, estão dadas:

1 – A ultradireita fascista, com Flávio Bolsonaro, do PL, oculta suas intensões, no campo do trabalho, porque, de fato, sua opção ultraneoliberal piora, ainda mais a vida dos trabalhadores ativos e inativos.

2 – Romeu Zema, do Novo, deixa claro: sua política salarial fica por conta da livre negociação entre capital e trabalho, entre trabalhador, que não tem os meios de produção, e os capitalistas, donos dos meios de produção, agindo conforme seus interesses, que são os de manter elevada, sempre que possível, sua taxa de lucro constante ou em elevação, mesmo diante de retrações econômicas; com esse pensamento conservador e reacionário, a propensão de Zema é jogar o prejuízo nas costas do trabalhador, sem nenhuma diferenciação em relação a opção Flávio Bolsonaro.

3 – Ronaldo Caiado, do PSD, idem: sua prioridade, no campo trabalhista é a mesma Zema/Bolsonaro, com o trabalhador jogado na jaula dos leões.

OPÇÃO LULA

Resta a proposta Lula; o presidente petista está garantindo reajuste do salário-mínimo pela inflação, embora, sob pressão dos neoliberais, tenha retrocedido na conquista maior que alcançou como líder político-sindicalista, de assegurar, junto com a correção pela inflação, o acumulado do PIB nos dois últimos anos, o que promovia valorização da escala salarial, de maneira generalizada.

O retrocesso histórico da esquerda, nesse aspecto da questão salarial, tem explicação estrutural: a desindustrialização nacional.

Tal status quo prossegue, desde a Era FHC, que acertou a macroeconomia sob os ditames do Consenso de Washington: metas inflacionária, câmbio flutuante e superavit primário.

Graças a esse tripé neoliberal, que bloqueou a industrialização, porque promove juros altos, o emprego valorizado pela industria minguou, agora, agravado pelas incertezas da guerra trumpista, cuja duração é incógnita.

Diante desse contexto, para o trabalhador, é mais vantajosa a combinação de optar pelo programa social(bolsa família) + o que se denominou empreendorismo, com o trabalhador optando pela pejotização, para fugir da institucionalidade determinada pela CLT.

O novo normal, em termo global, no capitalismo em crise, é, portanto, dado pela instabilidade financeira generalizada, explosiva, mediante o endividamento público americano, para continuar sustentando guerras como arma fundamental da macroeconomia imperialista.

Para a periferia capitalista dependente, sujeita à dialética imperialista de guerra, vigora o que denominou o grande escritor socialista americano, Jack London: o Tacão de Ferro imperial sobre o qual dominam os oligopólios.

É nesse ambiente de incerteza que transcorre, neste momento, o 8º Congresso Nacional do Partido dos Trabalhadores.

Como diria Machado de Assis: a confusão/incerteza é geral.

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