24.3 C
Brasília
quarta-feira, 22 abril 2026

Colóquio Patria, na trincheira de comunicação do Sul

Havana (Prensa Latina) A 5ª edição do Colóquio Internacional Patria aconteceu com uma declaração de princípios: a comunicação é um reflexo da realidade e um campo de batalha decisivo para a existência de projetos emancipatórios.

Verónica Nuñez

Mesa de Cultura

Em sua quinta edição, consolidou-se como um espaço de convergência reflexiva, mas também emocional, onde os países da América Latina e do Sul Global optaram por construir uma nova forma de comunicação política, declarou a jornalista cubana Karla Picart, membro do comitê organizador, em entrevista exclusiva à Prensa Latina.

O evento não aconteceu em uma data qualquer. Foi realizado entre 16 e 18 de abril e prestou uma homenagem explícita ao 65º aniversário da vitória em Playa Girón, a primeira grande derrota do imperialismo estadunidense no continente, e à proclamação do caráter socialista da Revolução Cubana.

Esse peso simbólico foi destacado por Ricardo Ronquillo, presidente do Sindicato dos Jornalistas de Cuba, que enfatizou que o encontro surge em um contexto de “disputa cognitiva” diretamente proporcional à agressão imperial.

Patria responde à necessidade de articular a mídia pública e privada, projetos e desenvolvimentos de comunicação com uma orientação progressista e de esquerda para confrontar de forma mais eficaz a ofensiva comunicacional da grande mídia hegemônica, disse Ronquillo à Prensa Latina.

DO ESPAÇO PEQUENO À REFERÊNCIA INTERNACIONAL

O colóquio, que aconteceu ao longo de três dias em formato híbrido (presencial e virtual), reuniu 150 convidados, incluindo comunicadores, acadêmicos, desenvolvedores e ativistas de mais de 25 países. A Prensa Latina conversou com alguns dos principais participantes.

“Sei que nós, cubanos, precisamos nos analisar muito, do ponto de vista da comunicação, mas Patria é sempre uma tentativa de mostrar que existe outra maneira de fazer comunicação política sem perder nossa essência”, enfatizou Picart.

Este ano, o evento teve que ser transferido de março devido aos desafios de realizar um evento de tamanha escala, em decorrência das medidas coercitivas implementadas pelo governo do presidente dos EUA, Donald Trump.

Pela terceira vez, a equipe contou com o apoio de dez alunos e dois professores da Faculdade de Comunicação da Universidade de Havana, que desempenharam o papel de recepcionistas, auxiliando os convidados e garantindo o bom funcionamento do programa.

O decano dessa faculdade, Ariel Terrero, reafirmou a importância da participação estudantil como forma de se conectar com duas áreas da realidade: a dos acontecimentos e a da geopolítica, sempre debatida por inúmeros acadêmicos.

Foi uma experiência desafiadora, reconheceu Dajanet Quintana, estudante do segundo ano de jornalismo que participou do colóquio pela primeira vez. “Trocar ideias com outros comunicadores do mundo todo é importante para aprender como eles pensam e como enxergam a realidade.”

“Para um estudante, é um espaço valioso, especialmente para futuros profissionais de comunicação e informação; sempre tentamos aprender com as pessoas que vêm”, comentou a professora María Karla Acosta, membro da comissão.

Acosta reafirmou ainda que os convidados sempre apreciam trocar ideias com os jovens, aprender com eles sobre o que está acontecendo no cenário nacional e conhecer suas opiniões.

Pátria e sua agenda

A evolução quantitativa e qualitativa da Patria era palpável na diversidade de sua agenda; os debates abrangiam hegemonia cultural, tecnopolítica, guerra cognitiva, intervenção digital, sanções, cerco político e solidariedade.

Para além dos diagnósticos, a Patria caracterizou-se pela sua abordagem proativa, com cinco apresentações literárias principais e várias outras no recinto da feira, sete workshops presenciais e seis sessões virtuais, com especialistas da Argentina, Chile, Brasil, México, Rússia, Espanha, Equador, Venezuela e Uruguai, entre outros.

Um marco significativo foi a inauguração da sede permanente do colóquio em Havana, anunciada durante esta edição, que consolida a capital cubana como um centro de comunicação alternativa na América Latina e em outras regiões do mundo.

O contexto global em que ocorreu foi descrito com precisão por Rosa Miriam Elizalde, uma de suas principais organizadoras: “Condenamos o uso de arquiteturas algorítmicas, bloqueios, campanhas de guerra psicológica, restrições de informação e estratégias de dominação informacional”.

A declaração repercutiu em um país que sofre simultaneamente o bloqueio econômico mais longo da história e uma campanha sistemática amplificada pelos principais monopólios da mídia.

“A pátria tem importância fundamental nesta era de agressão imperial, desprezo pelo direito internacional e mentiras que servem de base para atos de invasão e agressão; o colóquio nos permite unir forças e fortalecer nossas posições na necessária e essencial batalha cultural”, declarou o ex-representante da Bolívia nas Nações Unidas, Sacha Llorenti.

O PAPEL DA PÁTRIA PARA CUBA, A REGIÃO E O MUNDO

O que representa o Colóquio Internacional Patria após cinco edições?

Em primeiro lugar, para Cuba, constitui um espaço para a articulação e atualização do ecossistema nacional de comunicação.

Num país sujeito a uma guerra midiática implacável, a Patria permite que jornalistas, cineastas, acadêmicos e ativistas cubanos troquem conhecimentos, acessem ferramentas tecnológicas de ponta e, sobretudo, recuperem a certeza de que seu trabalho diário faz parte de uma batalha global pela soberania narrativa.

A professora María Karla Acosta opinou que, embora alguns considerassem que não era o momento ideal para realizá-lo, o Colóquio Patria é necessário em qualquer época.

É um espaço onde velhos amigos se reencontram, estratégias conjuntas são desenvolvidas e as vozes das necessidades do povo se unem, enfatizou ele.

Para a América Latina e o Caribe, a Patria está se consolidando como um ponto de encontro para a comunicação contra-hegemônica, em uma região onde a direita aperfeiçoou o uso da desinformação e da guerra midiática para desestabilizar governos progressistas.

O colóquio anual proporciona um espaço para coordenar estratégias, compartilhar experiências bem-sucedidas e construir uma agenda de informação comum que não dependa de grandes monopólios.

Esses eventos reúnem a imprensa progressista do mundo, expressões de pensamento e iniciativas midiáticas que contribuem para a criação de uma certa contra-hegemonia, disse Luis Emilio Aybar, diretor do Instituto Cubano de Pesquisa Cultural Juan Marinello, a esta agência.

A cultura é um processo transversal que permeia os processos de comunicação e educação; a mídia desempenha um papel importante na socialização e no desenvolvimento de ideologias, participação política, comunitária e institucional, acrescentou o especialista cubano.

Em escala global, diante de uma ordem comunicacional dominada pela hegemonia, o colóquio demonstra que é possível construir redes alternativas baseadas na solidariedade, no pensamento crítico e no compromisso com a verdade.

“Pátria é um chamado”, enfatizou Llorenti. “As datas escolhidas são simbólicas porque estamos num momento em que, além de apoiar a luta pela verdade nas trincheiras da comunicação, isso não está separado da luta direta, da defesa armada de nossas nações, de nossas soberanias.”

Não queremos guerra, mas o império está impondo essa lógica aos nossos países e temos que estar preparados em todos os sentidos, concluiu o político boliviano.

A escolha de comemorar o 65º aniversário da vitória em Playa Girón representou outra chave para a sua compreensão. Hoje, quando os tanques foram substituídos por trolls, algoritmos e notícias falsas virais, o desafio permanece o mesmo: contar a nossa própria história antes que outros a escrevam, e Patria ergueu-se pela quinta vez como um bastião nessa batalha simbólica.

ÚLTIMAS NOTÍCIAS