Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
Proposta apresentada pela deputada confunde antissionismo com antissemitismo para calar críticas às ações do governo de Benjamin Netanyahu em Israel.
João Filho*
Há uma famosa esquete de humor alemã em que membros do exército nazista, vestidos com uniformes nazistas, ficam indignados por serem chamados de nazistas. “Todo mundo é nazista pra vocês. Quando ficam sem argumento apelam para a boa e velha carta do nazismo”, diz o soldado vestindo uma braçadeira com uma suástica.
É exatamente assim que se comportam os fascistas do século 21. Eles falam como fascistas, agem como fascistas, matam como fascistas, mas não são tratados como tais pela mídia hegemônica internacional.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, são abertamente racistas e estão comandando uma limpeza étnica no Oriente Médio. Juntos estão espalhando o terror pela região, bombardeando áreas residenciais e empilhando cadáveres de inocentes. O objetivo é claro e expresso: eliminar uma civilização da face da Terra. Trump até recuou da ameaça e topou o cessar-fogo proposto pelo Paquistão, mas o psicopata israelense decidiu continuar assassinando inocentes no Líbano.
Israel é um estado etnocrata, cuja Constituição marginaliza os não judeus, especialmente os árabes. Segundo as leis israelenses, “apenas os judeus podem exercer integralmente seu direito natural, cultural, religioso e histórico à autodeterminação”.
Uma lei aprovada em 30 de março deste ano prevê pena de morte apenas para ataques terroristas letais cometidos por palestinos. O exército israelense é um dos mais sanguinários, chegando a ser acusado de torturar crianças palestinas. Há uma infinidade de declarações de autoridades israelenses pregando o extermínio dos palestinos. A faixa de Gaza é o maior campo de concentração da história moderna, com milhões de palestinos cercados e isolados.
A comparação com o nazismo de Adolf Hitler é óbvia e necessária. Se ela te choca, é porque você ainda não entendeu a dimensão da barbárie em curso. Ou é hipócrita o suficiente para não querer enxergar esse paralelo.
É claro que há diferenças, afinal estamos há um século de distância, mas absolutamente todos os principais elementos que caracterizam o fascismo estão presentes no regime de apartheid de Israel.
Não deveria se tratar de opinião, mas de uma mera constatação baseada em princípios básicos da sociologia e da ciência política. Apesar disso, qualquer crítica em que essa comparação elementar é feita logo é taxada de antissemita. Pior que isso: pode virar crime no Brasil.
O projeto de lei 1424/2026, apresentado pela deputada federal Tabata Amaral, do Partido Socialista Brasileiro, o PSB, com o apoio de outros 44 parlamentares de 19 partidos, propõe a criação de uma Política Nacional de Combate ao Antissemitismo. Por princípio, todos estamos de acordo com o projeto, afinal quem poderia ser contra a criminalização do preconceito contra os judeus, não é mesmo? Bom, é aí que mora a pegadinha.
O texto do projeto foi claramente influenciado — para não dizer redigido — pela StandWithUs, uma entidade sionista internacional que tem se dedicado a justificar a matança de Netanyahu no debate público. O seu presidente, o sionista André Lajst, é um dos principais articuladores do projeto de Tabata.
O texto está em sintonia com a principal estratégia dos sionistas para influenciar o debate público: confundir antissionismo com antissemitismo. O objetivo é calar os críticos do regime do facínora Netanyahu. O projeto de Tabata criminaliza especificamente a comparação entre políticas israelenses com regimes nazistas. Este texto, por exemplo, que critica um governo e não um povo, seria enquadrado como antissemita caso a lei de Tabata já estivesse em vigor.
O lobby sionista também é forte na imprensa brasileira. A guerra é quase sempre analisada sob a ótica de Israel e Estados Unidos. As reportagens, ainda que sob o disfarce do politicamente correto, estão calcadas na velha ladainha da luta do mundo ocidental civilizado contra os selvagens terroristas do Oriente Médio.
É esse conceito que move o sionismo alinhado ao regime de Netanyahu. A figura mais requisitada pelo grupo Globo, por exemplo, é justamente o presidente da StandWithUs. Ele é figurinha carimbada na programação e apresentado sempre como uma figura isenta. Em suas aparições na imprensa, Lajst executa com maestria um malabarismo retórico para justificar o assassinato em massa promovido pelo governo isralense.
O projeto de Tabata quer impedir a sociedade brasileira de nomear a atrocidade enquanto ela acontece. A proibição de analogias históricas não reprime o antissemitismo e serve exclusivamente ao propósito de blindar o sionismo. É o triunfo da narrativa sobre os fatos. Impedir que sejam feitos paralelos com regimes supremacistas do passado não é uma questão de rigor histórico, mas um método de sobrevivência do fascismo moderno.
Quantos milhões de inocentes mortos são necessários para que tenhamos o direito de comparar o supremacista israelense com o supremacista alemão? A história não perdoará quem preferiu censurar palavras a denunciar o maior projeto político de extermínio da história contemporânea.
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Viralatismo na Globo
Nesta semana, a mídia brasileira esteve com o complexo de vira-latas mais atiçado que o usual. Especialmente o grupo Globo, que tem feito a cobertura da missão Artemis II com o ufanismo de uma emissora americana.
Enquanto o governo americano prometia extinguir uma civilização, a Globo fez uma reportagem fofinha sobre as mudanças no sistema de pagamento do metrô de Nova York, como se isso fosse relevante para uma audiência brasileira.
Graças a Globo, o brasileiro pode dormir tranquilo sabendo que o nova-iorquino pode pagar a passagem aproximando o cartão de crédito na catraca — algo que já existe nos metrôs do Rio de Janeiro, São Paulo e já está sendo implementado em outras capitais.
Outros jornalistas estavam tão deslumbrados com os americanos na lua, que até deixaram escapar os seus pensamentos mais primitivos. “Um homem, um negro e uma mulher“, disse a jornalista da Globo News ao elencar os participantes da missão.
O comentário absurdo, que trata o homem branco como o padrão, não só passou batido por todos os comentaristas presentes, como um deles achou importante apontar: “E tem um canadense ali no meio também”.
O show de horrores de um candidato a presidente
O pré-candidato à presidência da República do partido Missão, Renan Santos, teve algumas de suas conversas em um grupo de apoiadores do Instagram vazadas. No escurinho da rede social, ele relatava o uso de cogumelos psicodélicos, promovia autores fascistas, objetificava mulheres e desfilava homofobia.
Nada contra o consumo de cogumelos, pelo contrário, acho até que Renan deveria consumir mais. O problema é todo o resto, que é o esgoto do pensamento humano.
Em uma das conversas, um rapaz escreve: “Na minha escola tinha um garota bem bonitinha – loira, olhos azuis, feições boas, etc – namorando um negão feio pra caralho”. Outro responde: “Isso me dá raiva, sem brincadeira. Me dá nojo”. Um terceiro manda fotos de mulheres e o candidato a presidente do MBL, sem fazer qualquer censura ao machismo e racismo explícitos, decide iniciar um concurso: “Qual é a melhor?”
Em outro momento, Renan escreveu: “Grupos políticos saudáveis têm que ter seus gays. E tem que ser gay que anda com hétero. Não essa segregação ridícula de hoje. Mas existem muitas dificuldades. Gays são muito pouco afeitos a lealdades”. Renan quer usar gays como token político, mas desde que se encaixe nos padrões estipulados por ele.
Isso foi só um aperitivo do que o reacionário fala no privado. Há muitas outros trechos cabeludos.
Para quem não se lembra, o Missão é aquele partido fundado pelo MBL, que conseguiu parte das assinaturas necessárias para a sua criação fingindo estar fazendo um abaixo-assinado para salvar a Amazônia. O MBL é aquele grupelho de jovens liberais cuja maior liderança eleita defende o direito dos nazistas alemães se organizarem em partidos políticos mesmo depois do Holocausto. É o mesmo grupo do qual um jovem judeu decidiu se desfiliar por causa da tolerância ao nazismo.
É, não dá pra negar que o Missão tem um candidato que honra suas tradições.
*Jornalista do Intercept Brasil