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terça-feira, 14 abril 2026

Por que o Voto Não Mudará o Brasil

Crédito: Marcos Corrêa/PR

Por: Wagner França 

Há mais de duas décadas, o jornal A Nova Democracia (AND) sustenta uma análise implacável sobre a natureza do Estado brasileiro. Em seus editoriais, especialmente diante do ciclo eleitoral de 2026, a publicação reafirma um diagnóstico que a história tem confirmado: a democracia burguesa no Brasil é uma farsa institucionalizada, e o caminho para a emancipação popular não passa pelas urnas, mas pela organização direta das massas. Ao criticar o que chama de “falsa polarização” encenada pela velha ordem e propagandeada pelos monopólios da imprensa, o AND não apenas expõe a podridão do sistema, como aponta para a única direção possível: a luta popular e o boicote ativo à “farsa eleitoral”.

A Farsa Histórica do Voto no Brasil

Para além das intenções subjetivas de candidatos e partidos, a história política brasileira demonstra a natureza estruturalmente excludente e fraudulenta de seus processos eleitorais. Durante a República Velha (1889-1930), o poder era rigidamente centrado nas oligarquias estaduais, que mantinham seu domínio através do “voto de cabresto” — o controle coercitivo do voto dos trabalhadores rurais, abertamente comprado e manipulado pelos coronéis.

Posteriormente, o golpe civil-militar de 1964 não apenas instaurou uma ditadura de 21 anos, mas também criou um sistema de eleições indiretas que submetia a escolha do presidente a um colégio eleitoral restrito, verdadeira afronta a qualquer princípio democrático. A chamada “redemocratização”, concluída com a Constituição de 1988, não representou uma ruptura com essa estrutura, mas sim uma transição tutelada que preservou os núcleos do poder econômico e militar. A alternância no poder, nesse contexto, nunca ameaçou os fundamentos do Estado — pelo contrário, serviu para reciclar as elites e perpetuar a exploração.

Essa análise não é nova: Vladimir Lênin, em O Estado e a Revolução, já descrevia a democracia representativa burguesa como uma forma de permitir que “aos oprimidos” decidam, a cada poucos anos, “quais representantes específicos da classe opressora os representarão e os reprimirão”.

A Falência Institucional em Números

A atualidade brasileira escancara a precisão desse diagnóstico. Pesquisa Datafolha de março de 2026 revela que o descrédito nas instituições cresceu em 7 das 8 esferas analisadas. Os partidos políticos lideram a desconfiança, com 52% dos brasileiros declarando não confiar neles. O Congresso Nacional reflete esse desgaste de forma aguda, com níveis recordes de insatisfação, enquanto o descontentamento com o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Poder Judiciário atingiu patamares históricos.

Diante de dados tão contundentes, o AND tem toda razão ao afirmar que o caminho não está em se empenhar em mais um ritual de escolha entre gestores da crise, mas em fortalecer a resistência direta.

A Militarização da Política: O Estado em Uniforme

Paralelamente à farsa eleitoral, o AND denuncia a militarização crescente da política brasileira. Este fenômeno não se limita à presença de militares no governo, mas representa uma reconfiguração do próprio Estado.

Sob o governo de Jair Bolsonaro, a presença de militares em cargos civis no Executivo federal aumentou 193% entre 2013 e 2021. Em 2022, 6.157 militares da ativa e da reserva ocupavam postos civis no governo, um aumento de 59% em relação ao período anterior. Esse fenômeno não foi um desvio pontual, mas a explicitação de uma tendência de longa data. As Forças Armadas, ao longo da história republicana, atuaram reiteradamente como tutores do processo político, seja por meio de golpes diretos, seja pela imposição de limites ao avanço das lutas populares. A condenação recente de Jair Bolsonaro e de outros cinco militares por tentativa de golpe de Estado é a comprovação judicial de que essa ameaça é concreta e persistente.

Conclusão: O Voto é o Dilema, a Organização é o Caminho

Diante desse quadro, a proposta do AND e dos Comitês de Boicote à Farsa Eleitoral (CBFE) — presentes no Rio de Janeiro, São Paulo, Distrito Federal e Paraná — não é um mero sectarismo. É uma estratégia política fundamentada na compreensão materialista de que o poder de classe não se transfere por meio de cédulas eleitorais. O foco excessivo nas urnas para 2026 é uma armadilha que desvia a energia das lutas reais: a luta pela terra, contra a carestia, pela moradia e por salários dignos.

A verdadeira mudança não virá de arranjos nos gabinetes do latifúndio ou de acordos com a “velha política”. Virá da organização popular direta, das greves, das ocupações, da resistência ativa nas ruas. Como aponta o AND, a democracia burguesa é um circo cujo espetáculo muda, mas a exploração continua. A única maneira de sair dessa jaula é recusar-se a aplaudir a apresentação e, em vez disso, derrubar as grades. O futuro não será votado; ele será conquistado.

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