Foto: X (Antigo Twitter)
Por: Wagner França
A informação de que um jovem capitão de 38 anos, cercado por potências que ainda guardam as marcas da colonização, tornou-se a principal vitrine política da África não é apenas um dado geopolíssico; é o sintoma de uma transformação profunda que ecoa desde as savanas do Sahel até as salas de debate do Sul Global. Ibrahim Traoré, que assumiu o comando de Burquina Fasso em setembro de 2022, não é um mero líder militar sucessor de uma série de golpes de Estado. Ele é, como apontam analistas e movimentos sociais, a materialização contemporânea de um ideário pan-africanista que muitos acreditavam soterrado sob décadas de neocolonialismo e ditaduras alinhadas ao Ocidente . Longe de ser um episódio isolado, a trajetória de Traoré e o processo em curso em seu país representam uma resposta radical e organizada à falência dos modelos de “democracia liberal” impostos pela França e seus aliados, que por anos mantiveram a região sob exploração e insegurança.
Para compreender a ascensão e a popularidade do capitão, é necessário resgatar o contexto deixado pelo arquivo fornecido. A instabilidade institucional de Burquina Fasso, que só teve sua primeira constituição federal nos anos 1990, foi palco de uma revolução interrompida: a de Thomas Sankara, o “Che Guevara africano”. Traoré, que estudou geologia e conhecia profundamente as riquezas e as carências do interior do país, reivindica explicitamente a herança de Sankara. Ele não apenas reabilitou a memória do líder revolucionário assassinado em 1987 com apoio francês, como tem buscado aplicar na prática o “sankarismo prático” que os livros de história haviam tentado enterrar . Ao contrário dos governos anteriores, que se limitavam a reproduzir a lógica de submissão às ex-potências coloniais, Traoré demonstrou que a ruptura não pode ser apenas retórica.
O governo de Traoré implementou um conjunto de medidas que reconfiguram a relação do país com o mercado global e com seus antigos colonizadores. A expulsão das tropas francesas e o fim das operações militares que, na prática, não garantiam segurança à população, foi um ato de coragem que refletiu o sentimento das ruas . No campo econômico, a nacionalização de minas de ouro pertencentes a empresas estrangeiras—listadas em Londres—e a criação de uma refinaria própria representam a retomada do controle sobre as riquezas nacionais, algo inédito desde a independência formal . Utilizando a receita gerada pela valorização do ouro, o governo conseguiu amortizar dívidas internas e, mais importante, lançar uma “Ofensiva Agrícola Nacional” sem precedentes. Pela primeira vez, máquinas agrícolas como tratores estão sendo distribuídas em larga escala para os camponeses, que representam cerca de 80% da população . Essa política não visa apenas a autossuficiência alimentar—um passo fundamental contra a fome e a dependência—mas também transforma os camponeses no alicerce político da revolução, deslocando o eixo de poder das elites urbanas alinhadas ao imperialismo para o interior produtivo do país.
Os avanços na segurança e na infraestrutura demonstram que a soberania política está gerando resultados tangíveis. Quando Traoré assumiu, o Estado controlava apenas 60% do território, com vastas áreas dominadas por grupos terroristas que, conforme denunciado por líderes locais, são instrumentalizados pelo imperialismo para desestabilizar a região . Em um esforço conjunto com Mali e Níger, por meio da Aliança dos Estados do Sahel (AES), os três países romperam com a Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), acusada de servir aos interesses ocidentais. A criação de uma força militar conjunta e a recuperação de quase 75% do território até o final de 2025 são marcos que contradizem as narrativas ocidentais de fracasso . A população colabora ativamente nesse processo, seja por meio de vigílias cidadãs para proteger a capital de atentados, seja contribuindo com fundos voluntários que já arrecadaram centenas de bilhões de francos CFA para sustentar a luta
A reorientação geopolítica de Burquina Fasso é outro ponto que merece defesa técnica diante das críticas infundadas. Enquanto a França manteve uma relação predatória por meio da “Françafrique”, impondo moedas coloniais como o franco CFA e intervindo militarmente para proteger interesses econômicos, a nova política externa de Traoré busca parcerias baseadas no respeito mútuo. Como afirmou Luc Damiba, conselheiro do primeiro-ministro, “o que a Rússia faz, a França não fazia” . Isso não significa substituição de um imperialismo por outro. As relações com a China, Rússia e Turquia são tratadas como acordos comerciais soberanos: Burquina Fasso compra armamentos e máquinas, mas mantém o controle sobre seus recursos e dita as regras. Mesmo mineradoras russas, como a Nordgold, são obrigadas a cumprir a exigência de participação estatal de 15% nas operações . Trata-se, portanto, de um exercício de maturidade política em um mundo multipolar, onde o país se recusa a ser o quintal de qualquer potência.
O mais recente e ambicioso passo desse processo é o Plano Nacional de Desenvolvimento para 2026-2030, orçado em 64 bilhões de dólares—um dos maiores programas econômicos já vistos no Sahel . O que torna este plano revolucionário não é apenas sua magnitude, mas sua fonte de financiamento: dois terços dos recursos virão internamente, por meio de empresas estatais e programas de participação acionária cidadã, rompendo com a dependência histórica do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial . As metas são claras e ambiciosas: reduzir a pobreza de 42% para 35%, aumentar a expectativa de vida de 61 para 68 anos, expandir a capacidade de geração elétrica em mais de 250% e, crucialmente, retomar o controle total do território nacional. Este documento, que já foi aprovado pelo comitê de supervisão, representa um verdadeiro pacto nacional para a transformação estrutural da economia e a consolidação da paz .
É claro que os desafios são imensos. O terrorismo ainda é uma ameaça real, e a transição política iniciada em 2022 ainda está em curso. No entanto, é preciso rejeitar a simplificação apressada que rotula o governo de Traoré como uma ditadura militar. Como observa o pesquisador Eden Pereira Lopes da Silva, Burquina Fasso está em um momento de construção de novas instituições políticas, e o atual processo conta com um suporte popular massivo, especialmente entre os jovens que representam quase 70% da população . A existência de uma Assembleia Legislativa de Transição que inclui sindicatos, organizações camponesas e representantes de pessoas com deficiência demonstra um esforço de inclusão que contrasta com a exclusão promovida pelos regimes anteriores .
Diante dos fatos, a trajetória de Ibrahim Traoré emerge não apenas como um capítulo da história de Burquina Fasso, mas como um farol para o continente africano e para todos aqueles que lutam contra a exploração neocolonial. Ao aliar um discurso anti-imperialista consistente com políticas econômicas concretas de redistribuição de renda, soberania mineral e desenvolvimento agrícola, o jovem capitão está reescrevendo o destino de seu país. As acusações de autoritarismo que partem da grande mídia ocidental não raramente ocultam o desconforto das ex-metrópoles diante da perda de seus privilégios. O que se vê em Uagadugu, capital que já foi sinônimo de submissão, é a afirmação de que a África pode sim liderar seu próprio desenvolvimento, sem tutelas e sem complexos. E nesse movimento, Ibrahim Traoré, o filho que promete fazer melhor que o pai Sankara, carrega nas costas a esperança de um Sahel livre e soberano.