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sexta-feira, 17 abril 2026

Cuba e o sepultamento da ética do jornalismo brasileiro

,Emiliano José

Que tal se a gente trocasse uns dois dedos de prosa sobre jornalismo? Sobre ética jornalística? Que tal pensássemos um pouco sobre a verdade, essa utopia do jornalismo, inalcançável, porém um objetivo do qual nunca devemos desistir? 

Não comecei com o lead, mas com tais perguntas para referir-me a Cuba. Poderia ser Gaza, poderia ser o Irã, poderia ser a Venezuela, alvos dos EUA, um império em óbvia decadência, e por isso, pelo poder militar, extremamente perigoso. 

Especialmente se consideramos o fato de vivermos, deste Hiroshima e Nagasaki, desde as primeiras bombas atômicas lançadas exatamente pelos mesmos EUA, sob o espectro nuclear. Não há exagero: de uma hora pra outra, se apertarem alguns botões, a existência humana na terra deixa de ser possível. 

Quero falar de Cuba e de jornalismo. Todo dia, toda hora lemos, ouvimos, assistimos, notícias sobre as dificuldades de Cuba, mais e mais de janeiro para cá, quando os EUA decidiram intensificar de modo criminoso, e não há outro modo de dizer, o bloqueio contra a Ilha, iniciado logo depois da tomada do poder pelos revolucionários oriundos de Sierra Maestra, liderados por Fidel Castro. 

Cuba resiste. Tem resistido de maneira heroica. O povo cubano é comoventemente patriota, e tal palavra naquela terra tem um significado potente,  verdadeiro, consistente. Não tivesse tal caráter, e a população cubana já estaria sob outro tipo de governo. O milagre cubano, milagre de resistência, é obra dela, a par de ter contado sempre com revolucionários voltados à construção soberana e socialista do país. 

Estive em Cuba poucas vezes, cinco apenas. Ali fiz amigos, dirigente revolucionários, dois deles, posso adiantar, ainda vivos. Um deles, comandante Víctor Dreke, com mais de 90 anos, comandante de tropas na luta na Serra de Escambray contra bandidos a soldo dos EUA, logo após janeiro de 1959, com o propósito de derrubar o governo revolucionário. Lá, ferido. Depois, em Playa Girón, quando os EUA, CIA à frente, resolveram organizar mercenários e invadir a Ilha, pretendendo derrotar a nascente revolução, início dos anos 1960. 

Víctor Dreke depois acompanhou Che ao Congo. Está vivo, estive com ele e a mulher em Cuba, maio passado, e agora, em Salvador, eles dois participando de uma atividade da Universidade Federal da Bahia, defendendo a Ilha e a soberania dela, defendendo a revolução. Exemplo comovente, representação da atitude do povo cubano, cuja têmpera jamais permitiu vacilação, qualquer rendição. 

Outro amigo, Jorge Ferrera, desde muito jovem, revolucionário. Já esteve no Brasil, em missões diplomáticas, sempre na resistência, já foi do Comitê Central, milita até hoje no Comitê de Bairro onde vive. Mora num pequeno apartamento na periferia de Havana, diríamos aqui modelo BNH, tem um Lada 1983, aos pedaços, e nunca admitiu qualquer vacilação em relação à Revolução. Nas últimas vezes das visitas a Cuba, foi ele a me ajudar a percorrer Havana, no velho guerrilheiro, o Lada, cujo motor ainda funciona, não me perguntem pelo resto do carro. 

Por tais amigos, e há muitos outros, fui conhecendo Cuba e o povo do país. Outro revolucionário, Jorge Lezcano, um dos grandes dirigentes dos Comitês de Defesa da Revolução, amigo de Fidel. Dele ouvi uma lição essencial: desde o início, Cuba, para levar à frente a Revolução, teve sempre de levar em consideração a existência do criminoso bloqueio norte-americano, e não houve exceção em nenhum momento no rigor de tal cerco, nenhum, nem mesmo quando Barack Obama foi presidente. 

Tudo em Cuba, sempre, teve de levar em conta o bloqueio criminoso. Quaisquer políticas, condicionadas àquele cerco, agora intensificado por Donald Trump, impedindo desde janeiro de chegar uma gota de petróleo à Ilha, como se fosse dono do mundo. 

Nem se diga, porque falso, tenha Cuba qualquer política a recusar investimento capitalista, salvo, evidente, nas áreas da Saúde, da Educação e, por óbvio, da Defesa. Como o bloqueio penaliza quaisquer empresas que pretendam investir na Ilha, as portas para o investimento estão cerradas – a liberdade capitalista, nessa caso, uma falácia. O império nunca quis admitir um modelo a fugir dos parâmetros cultivados por ele. 

De que modo, e vou seguir perguntando, o nosso jornalismo, o jornalismo empresarial, defensor da livre iniciativa, do capitalismo, revela esse quadro? Como traduz essa realidade cruel, perversa, a tentativa óbvia de levar o povo à fome, como documento oficiais do império já o disseram antes e Trump o diz agora, de modo a, quem sabe, provocar rebeliões e derrubar o governo socialista? 

Por que o nosso jornalista esconde isso tudo? Por que sonega da população brasileira tais informações? Não é próprio do jornalismo abordar todos os ângulos? Como descuidar de um crime tão à vista de todos nós?  Fui chamado a escrever sobre isso à vista da publicação de matéria da UOL Flash sob o título “Manifestantes invadem sede do Partido Comunista de Cuba em meio a apagão”. 

Perguntei ao meu amigo Jorge Ferrera o que estava acontecendo, minha obrigação de tentar cercar o assunto. Correto, verdadeiro, Ferrera me disse: isso foi ação de um comitê municipal, de Morón, na província de Ciego de Ávila. 

Acontece, ele acrescentará, que a Cuba não chega um único navio de combustível desde janeiro deste ano. Decorrência disso, ocorrem apagões diários porque falta à Ilha petróleo para gerar eletricidade. Isso, no entanto, é obra do acaso, de alguma falta de capacidade do governo de Cuba? Ou é um claro resultado do agravamento do bloqueio criminoso, e não há outro jeito de dizê-lo, vou insistir, praticado pelo senhor da guerra, Donald Trump?

Vamos nos entender, e o jornalismo sempre há de procurar conhecer a realidade: a maior parte da energia produzida em Cuba acontece com termoelétricas, estas, muito antigas, e tal antiguidade, decorrente também do bloqueio de quase 70 anos, leva ao consumo de muito petróleo. Tudo vai levando, e não é possível esconder, a uma situação dramática, desejada pelo império, provocada por ele. 

A ideia de soberania, aqui e acolá lembrada por liberais, não é, sequer minimamente, respeitada pelo império. Nunca foi, desde que os EUA se tornaram o centro do imperialismo. Com
Trump, isso foi levado ao paroxismo. 

Todo e qualquer respeito ao direito internacional foi ao chão. A ONU, inteiramente desconsiderada. Os países sem bomba atômica, desrespeitados como sempre o foram, mas agora de um modo ainda mais obsceno, como se os EUA não obedecessem mais a quaisquer regras, como de fato não obedecem, a humanidade caminhando ao sabor dos exclusivos interesses do império, tentando enfrentar a brutal crise em que está envolvido de armas na mão, um novo e trágico faroeste, apenas os bandidos atuando. 

O império quer sufocar Cuba. Não aceita a existência daquela Revolução. Nunca aceitou. É exemplo a ser extinto. Outra tentativa de genocídio, tal e qual Gaza, onde a aliança dos EUA com o sionismo matou mais de 70 mil pessoas, maioria crianças e mulheres. Tal e qual o Irã, onde assassinam 170 crianças, conscientemente. A humanidade há de reagir. Como os EUA se sentem no direito de invadir um país e levar preso o presidente de uma  nação soberana, como foi feito com a Venezuela?

Volto: o nosso jornalismo consegue revelar a situação de Cuba? Consegue mostrar o que os EUA estão fazendo com aquele pequeno país? Mostrar que o império impede até o desenvolvimento do capitalismo na Ilha, ao vetar investimentos de quaisquer empresas? 

Jorge Ferrera me dizia: paralelo a esse quadro dramático, especialmente quanto à energia, desenvolve-se uma intensa campanha midiática, chamando o povo a rebelar-se, a protestar contra o governo cubano, uma campanha oriunda principalmente de Miami. Tal campanha faz  questão de ocultar diz um indignado Ferrera serem os problemas econômicos e sociais de Cuba produtos do bloqueio executado pelos EUA há 67 anos, e sobre tal bloqueio, nenhuma palavra. Como aqui, com nosso jornalismo. 

Ressalta: até agora, o protesto noticiado pelo UOL Flash é um fato isolado. Como outros, e ele é honesto, que acontecem em outras regiões do país, provocados pelas reais dificuldades enfrentadas pela população, provocadas, vamos insistir, pelo bloqueio criminoso. 

Criticam Cuba, noticiam os problemas da Ilha, como se fossem de geração espontânea, como se decorrentes de falhas governamentais. Por que então não nos deixam em paz, deixem que nos relacionemos com o mundo todo, livremente? E então veríamos da capacidade nossa de produzir mais e melhores condições de vida do nosso povo, tudo isso dito recentemente pelo presidente Miguel Díaz-Canel. 

Eu, daqui de meu canto, jornalista, professor durante 25 anos da Universidade Federal da Bahia, volto ao início: está na hora de nosso jornalismo tomar vergonha na cara, revelar a natureza criminosa da agressão a Cuba, mostrar que nada das dificuldades da Ilha são de geração espontânea. Como em Gaza, como no Irã, como em tantos países do mundo, o império está promovendo um massacre. E o jornalismo não devia ser cúmplice disso. Não deveria. Sob pena de sepultar a ética, sepultar a verdade, deixar de lado a nossa mais bela utopia.

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