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sábado, 25 abril 2026

A indústria argentina está falhando

Buenos Aires (Prensa Latina) O fechamento da fábrica Fate, com 80 anos de história na fabricação de pneus no distrito de San Fernando, em Buenos Aires, e o da fábrica de alfajores La Paila, em Córdoba, refletem uma acentuada deterioração da produção e do emprego na Argentina, que alguns chamam de “industricídio”.

Por Martin Hacthoun

Correspondente-chefe na Argentina

E o pior é que essa tendência pode piorar: “Isso é só o começo”, alerta o setor, que prevê um 2026 com mais casos como os de Fate e La Paila, adverte Ariel Maciel, editor de Economia Política do jornal Perfil, em um comentário.

Em fevereiro, Stellantis, Tres Arroyos, Metalfor, Corona, Paty, Verónica, Marengo, La Anónima, La Paila e Galeno ART também fecharam, enquanto outras estão em estado muito sensível.

A histórica fábrica de tratores Pauny, em Las Varillas, Córdoba, cujos habitantes votaram em Javier Milei, entrou em crise, e a fábrica de cerveja Corona planeja demitir metade de seus funcionários devido à queda no consumo.

Essa é uma realidade que não pode ser ignorada hoje. O fechamento da fábrica da Fate em 18 de fevereiro deixou 920 trabalhadores desempregados e impactou severamente uma ampla gama de empresas e fornecedores.

Imediatamente, o governo determinou um período de 15 dias de conciliação obrigatória para um acordo entre empregadores e trabalhadores, a fim de evitar que esse impasse prejudicasse ainda mais o clima enquanto a polêmica reforma trabalhista era debatida no Congresso.

Outro exemplo do “genocídio industrial” gerado pela política econômica do governo de Javier Milei é a crise na Granja Tres Arroyos, a maior planta de processamento de carne da Argentina, que está à beira da falência devido à importação excessiva de frango do Brasil, permitida pelo Poder Executivo.

Há relatos de 450 trabalhadores demitidos em março. Seu proprietário, Joaquín de Grazia, defendeu publicamente o modelo da Milei e, neste momento, “enfrenta o precipício”, observa um artigo da revista online LaPolíticaOnLine.

A crise no setor começou a mostrar sua dimensão estrutural no modelo econômico de Milei e já está impactando empresários que até recentemente celebravam o projeto libertário com grande entusiasmo, como Joaquín de Grazia, acrescenta a publicação.

A granja Tres Arroyos atravessa dias críticos devido à importação descontrolada de frangos do Brasil, que em 2025 se aproximou de 20.000 toneladas, um aumento de mais de 300% em relação ao ano anterior.

Além da inundação de frangos brasileiros, a publicação indica que a empresa também sofreu com o fechamento das exportações de aves para o mercado europeu devido às restrições sanitárias impostas após o ressurgimento da gripe aviária. Isso agravou a situação financeira em um setor onde as exportações são essenciais para equilibrar os custos.

A LPO cita outro caso alarmante no setor avícola: o destino da Cresta Roja, empresa que vem enfrentando dificuldades há mais de uma década. Adquirida pela Tres Arroyos e posteriormente assumida pela família Peña, do grupo La Anónima, muito próxima do ex-presidente de direita Mauricio Macri, a Cresta Roja não conseguiu reverter a situação. Em 2024, houve novas demissões em sua unidade Esteban Echeverría, e agora cogita-se o fechamento definitivo da fábrica.

Mais de 21.000 empresas fecharam desde que Javier Milei assumiu a presidência em dezembro de 2023, o que causou a perda de 250.000 a 300.000 empregos formais, dependendo da fonte consultada.

Em mais uma escalada da disputa entre o presidente e a vice-presidente, Victoria Villarruel, que atuava como assessora executiva durante a viagem de Milei a Washington, criticou o modelo econômico oficial e opinou que “sem produção nacional não há política governamental”.

“Mas o problema não é o que aconteceu até agora, e sim o que está por vir.” Essa é a grande preocupação do setor industrial, que vê a icônica fábrica de pneus argentina como o futuro imediato de seus negócios, destacou Maciel.

“O caso FATE é notório porque envolve uma grande empresa. Mas haverá mais casos FATE, mais empresas de médio e pequeno porte que não conseguirão mais lidar com a concorrência desleal e uma crise do consumidor”, afirmou ele.

O encerramento da Galeno ART, uma seguradora de indenização trabalhista, reacendeu as preocupações, pois não só deixou 600 funcionários e agentes desempregados, como também o Grupo Galeno, que possui agências em diversas cidades do país, está impossibilitado de prestar assistência a esses trabalhadores desempregados.

Jorge Sola, um dos líderes da CGT e secretário-geral do sindicato dos Seguradores, alertou que a reforma trabalhista promovida pelo governo de Javier Milei está gerando muita preocupação no setor, pois não resolve o problema, mas – temem eles – provocará um aumento ainda maior de litígios.

Além do aspecto econômico, a comunidade empresarial está preocupada com o crescente conflito social e prevê um colapso ainda maior no emprego, o que “poderia ser um grande obstáculo para o programa econômico e político de Javier Milei, como aconteceu com Carlos Menem no final da década de 1990”, como lembrou outro líder industrial citado pelo jornal Perfil.

Um estudo do Centro de Pesquisa Financeira (CIF) da Universidade Torcuato Di Tella conclui que a economia argentina tem 99% de probabilidade de entrar em recessão. O Índice de Indicadores Antecedentes (LI), compilado pela instituição para antecipar mudanças nos ciclos econômicos, indica que a atividade econômica não apresentará a recuperação esperada.

Os especialistas alertam que o desempenho de setores altamente relevantes para a atividade econômica e o emprego, como o setor manufatureiro, a construção civil e o comércio, continua em declínio; e os salários também estão estagnados, acompanhados pela perda de empregos formais.

Portanto, prevê-se uma maior estagnação da procura, o que levará a um nível de atividade mais baixo.

Em uma análise dos últimos relatórios de comércio exterior, o jornal Página12 detectou um agravamento da crise no setor industrial, com queda acentuada nas importações de insumos e maquinário, enquanto as de bens de consumo se multiplicam.

As importações ligadas ao investimento produtivo registraram uma queda alarmante em janeiro. As compras de bens intermediários, ou seja, insumos para a fabricação de produtos, despencaram 18,8% em comparação com o mesmo mês de 2015. As compras de peças e acessórios tiveram um desempenho ainda pior, com queda de 36,5%. As importações de máquinas e equipamentos diminuíram 14%, segundo o jornal.

Esses números prenunciam um agravamento do processo de desindustrialização que assola o país. Mesmo um dólar desvalorizado já não é suficiente para convencer os fabricantes a arriscar capital na produção, num cenário de mercado interno em retração, enquanto as divisas estrangeiras são cada vez mais gastas em importações de bens de consumo, em plataformas como Shein, Temu e Amazon, e em automóveis, explica o Página12.

E compare: a aquisição de veículos no exterior subiu 106,8% em comparação com janeiro do ano passado, enquanto a produção nacional de automóveis caiu 30,1% em relação ao mesmo mês.

A crise levou o grupo Stellantis, fabricante dos veículos Peugeot e Citroën, a suspender a produção até março. Como resultado, os trabalhadores da fábrica de Martín Coronado receberão apenas 70% de seus salários até a retomada da produção. Isso, claro, se a Stellantis decidir reabrir.

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