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quarta-feira, 7 janeiro, 2026

Maduro lutou por “Lula livre”; Lula tem o dever de retribuir e exigir liberdade para Maduro

Eduardo Vasco

Em 31 de agosto de 2016, o Senado Federal confirmava o impeachment de Dilma Rousseff, cassando seu mandato e consolidando o golpe de Estado contra o PT. Sem titubear, naquele mesmo dia, o presidente Nicolás Maduro prestou “toda a solidariedade a Dilma e ao povo do Brasil”, condenou o “golpe oligárquico da direita” e apontou: “quem luta vence!”. Imediatamente, a Venezuela chamou de volta o seu embaixador no Brasil e congelou as relações com o novo regime golpista, “em resguardo da legalidade internacional e solidária com o povo do Brasil”.

Compreendendo e denunciando o caráter imperialista do golpe contra Dilma, o governo Maduro ainda disse que aquilo era parte de uma “investida oligárquica e imperial contra os processos populares, progressistas, nacionalistas e de esquerda, cujo único fim é restaurar os modelos neoliberais de exclusão social e expropriação de nossas riquezas naturais que trouxeram consigo pobreza e atraso para nossos povos e acabar com os modelos de democracia genuína e de integração da região alcançados pelos presidentes Hugo Chávez, Néstor Kirchner, Lula, Evo Morales, Tabaré Vázquez e Rafael Correa”.

O chavismo sabia das consequências de denunciar e atuar contra aquela ação do imperialismo. O embaixador brasileiro também foi chamado de volta por José Serra, inserido como ministro do Exterior de Temer, e daí em diante os governos Temer e Bolsonaro serviram de ponta de lança dos Estados Unidos na tentativa de derrubar Maduro, inclusive pela invasão “humanitária” de 2019.

Mas o governo venezuelano, liderado por Maduro, não recuou e foi um dos mais ativos defensores de Dilma e do PT. Ainda naquele posicionamento inicial no dia do impeachment, Caracas prometeu que iniciaria “um conjunto de consultas para apoiar o povo desta nação irmã”. De fato, nos anos seguintes o povo venezuelano se mobilizou, com todo o suporte do PSUV e do governo Maduro, em apoio ao PT – não só contra o golpe, mas também contra a prisão de Lula.

Mesmo antes de Lula se entregar à PF, enquanto trabalhadores e militantes tentavam impedir, no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, que a Polícia Filial da CIA sequestrasse Lula (o que ocorreu no dia seguinte), Maduro se dirigiu ao povo venezuelano em um ato público: “Lula livre! Parem com a perseguição contra Lula da Silva!” Assim como no golpe contra Dilma, ele culpou as “elites oligárquicas do Brasil”, as chamou de “neofascistas”, disse que “desataram uma perseguição criminosa” contra Lula e tachou a sentença de prisão de “canalhice vexaminosa”.

Poucos meses depois, Maduro fez uso da palavra durante o 24º Fórum de São Paulo para denunciar novamente a prisão de Lula: “Vemos com dor, mas não com renúncia, o martírio de Lula, a perseguição a Lula, que está sendo escondido numa masmorra para impedir sua ação política, porque sabem que Lula livre ganhará uma eleição presidencial no Brasil. Basta!” A Agência PT caracterizou aquele discurso de Maduro de “contundente”, além de informar que o líder venezuelano teceu elogios especiais a Lula.

Em outro grande evento internacional, Maduro posou com uma faixa denunciando que Lula era um preso político e fazendo o famoso L de “Lula livre”. Foi durante a Assembleia Internacional dos Povos, em Caracas, ao lado de João Pedro Stédile (foto). Todas as atividades organizadas na Venezuela, com movimentos e partidos internacionais, deram espaço especial para a campanha pela liberdade do líder petista.

Quando completou-se um ano da prisão ilegal de Lula, Maduro se pronunciou nas redes sociais com uma foto do presidente brasileiro nos braços do povo, no ABC, utilizando a hashtag #LulaLivre. Ele também declarou: “Um ano depois da prisão injusta do nosso irmão

Lula, uno-me às vozes livres do mundo que clamam por justiça e pelo fim da perseguição. Vamos povo brasileiro! Força e coragem para continuar na luta pela dignidade da Pátria Grande.”

Maduro não se limitou às notas de repúdio nem a denúncias inúteis na ONU (embora tenha utilizado todos os espaços para falar da prisão de Lula). Finalmente, ao se conquistar a tão batalhada liberdade de Lula, Maduro comemorou com sorrisos, aplausos e vários gritos de “Viva Lula”, enquanto assistia à sua libertação direto do Palácio de Miraflores. “O povo venezuelano está feliz e saúda a liberdade de Lula”, declarou Maduro na ocasião.

Agora é a vez de Lula retribuir toda a solidariedade militante, todos os esforços feitos pessoalmente por Maduro, pelo governo, pelo PSUV e pelo povo venezuelano. Já basta toda a sabotagem realizada pelos agentes imperialistas e pelas sucursais do aparato propagandístico dos EUA dentro do Brasil, que levaram Lula a capitulações vergonhosas como o não reconhecimento da vitória incontestável nas eleições de 2024 e o veto à entrada da Venezuela no BRICS. Já basta de “neutralidade” entre a maior potência imperialista do mundo e um país vizinho e indefeso, entre um agressor criminoso e um povo agredido.

Lula tem a obrigação política e moral de exigir claramente a liberdade imediata de Maduro, da mesma forma contundente que Maduro exigiu sua liberdade. Chega de covardia ao ponto de sequer mencionar os EUA e Trump como responsáveis pelo sequestro (que Lula chamou de “captura”, como se Maduro fosse um bandido). É inadmissível que o governo Lula fique na mão dos EUA e não haja até às últimas consequências para soltar Maduro. O nome disso é traição política – a Maduro, aos venezuelanos e à militância brasileira.

Maduro teve a coragem de desafiar o imperialismo ao lutar pela liberdade de Lula, mesmo que seu país seja incomparavelmente mais frágil que o Brasil. Maduro até rompeu com o regime golpista e capacho dos EUA, para defender Dilma, Lula e o PT. Maduro defendeu a soberania do Brasil, arriscando a soberania do seu próprio país, incessantemente agredido pelo imperialismo. Porque Maduro sempre soube que defender a soberania do Brasil é o mesmo que defender a soberania da Venezuela.

Lula defenderá a soberania da Venezuela, e, portanto, a do Brasil?

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