Por Pedro Rioseco*
Colaboradora da Prensa Latina
A dura realidade os aguardava nas próprias areias de Playa Girón e Playa Larga, quando os fuzis dos milicianos confrontaram desde o primeiro momento a invasão e o metralhamento das populações daquela área da Península de Zapata, parte do Território Livre de Cuba desde 1º de janeiro de 1959.
O julgamento, realizado entre 29 de março e 4 de abril de 1962, ocorreu no Castelo do Príncipe, em Havana, e quase um ano após a proclamada Primeira Grande Derrota do Imperialismo na América, os detalhes da traiçoeira agressão, planejada, financiada e organizada pelo governo dos Estados Unidos desde maio de 1960, foram revelados ao mundo.
Muitos mercenários, ao deporem perante o tribunal, disseram “eles me colocaram a bordo”, “eu vim como cozinheiro” ou “disseram-me que não haveria oposição”, mas ficaram surpresos com a resistência heroica das milícias populares e dos jovens artilheiros, das Forças Armadas Revolucionárias nascente e de sua incipiente Força Aérea, sob o comando do Comandante-em-Chefe Fidel Castro Ruz, que dirigia as batalhas.
Ao tomar conhecimento da invasão em 17 de abril de 1961, todo o povo cubano se mobilizou. Operários e camponeses ocuparam seus lugares nas milícias nascentes, jovens rebeldes tomaram campus escolares e os transformaram em centros de treinamento de armas, e a incipiente Segurança do Estado prendeu os líderes que conspiravam para criar uma quinta coluna atrás das linhas inimigas.
O tribunal que julgou os mercenários foi presidido pelo Comandante Augusto Martínez Sánchez e teve como membros os Comandantes Juan Almeida Bosque, Sergio del Valle Jiménez, Guillermo García Frías e Manuel Piñeiro Lozada.
O Dr. Santiago Cuba, do Supremo Tribunal de Justiça, atuou como promotor; o Capitão Narciso Fernández trabalhou como secretário e o Dr. Santiago Béjar, professor da Universidade de Havana, atuou como advogado de defesa.
Em 17 de maio de 1962, o tribunal proferiu a sentença no Caso 111 contra os mercenários capturados, que foram condenados a pagar uma elevada indenização e, como penas subsidiárias, a até 30 anos de prisão, “com trabalhos forçados até que a indenização seja integralmente paga”.
Os mercenários capturados em Playa Girón e arredores, punidos pelo crime de traição à pátria, também perderam a cidadania cubana.
Os três principais líderes da Brigada Mercenária 2506, José Alfredo Pérez San Román, Erneido Andrés Oliva González e Manuel Artime Buesa, foram condenados a pagar ao país meio milhão de dólares de indemnização cada um.
Os mercenários restantes foram multados em US$ 100.000, US$ 50.000 e US$ 25.000, de acordo com seu nível de responsabilidade na invasão fracassada. O valor total das multas impostas aos 1.181 mercenários julgados chegou a US$ 62,3 milhões.
Desde maio de 1961, apenas algumas semanas após a derrota da invasão fracassada, o então primeiro-ministro do governo revolucionário cubano, Fidel Castro Ruz, havia manifestado sua disposição de devolver todos os prisioneiros aos Estados Unidos, em troca de Washington concordar em compensar materialmente a ilha.
Três dias após a sentença do tribunal, em 20 de maio de 1962, foi formado o Comitê de Prisioneiros, que viajou aos Estados Unidos para negociar a libertação dos membros da Brigada.
O governo de John F. Kennedy, constrangido pelo fracasso da invasão prevista para ocorrer em 72 horas, recusou-se a participar oficialmente do processo, e a negociação foi deixada a cargo do setor privado, que formou o chamado Comitê Roosevelt. Apesar das boas intenções, o comitê não conseguiu encontrar uma solução rápida para o problema.
Em junho de 1962, o Procurador-Geral dos EUA, Robert Kennedy, trouxe o advogado James Donovan para as negociações da chamada Comissão das Famílias dos Prisioneiros.
As negociações sobre a troca de prisioneiros foram interrompidas durante a Crise de Outubro, mas foram retomadas em 18 de dezembro, com os acordos sendo assinados três dias depois.
Esse acordo comprometia os Estados Unidos a pagar, dentro de seis meses, US$ 62,3 milhões em medicamentos e alimentos para crianças, enquanto Cuba libertaria os prisioneiros, que imediatamente começaram a partir para os Estados Unidos.
A Casa Branca não cumpriu seu compromisso porque deixou de pagar dois milhões de dólares, mas, como disse Fidel: “Eles tiveram que aceitar o pagamento da indenização e, pela primeira vez em sua história, o imperialismo pagou uma indenização de guerra.”
*Correspondente-chefe da Prensa Latina na Nicarágua e, simultaneamente, em El Salvador, Guatemala e Honduras por 10 anos; correspondente-chefe na República Dominicana, Equador e Bolívia. Fundou e dirigiu a Editorial Génesis Multimedia, que produziu a Enciclopédia Todo de Cuba e outros 136 títulos. Anteriormente, foi diretor do jornal Sierra Maestra, na antiga província de Oriente; assessor do Ministro da Cultura, Armando Hart; chefe da seção internacional da revista Bohemia, com cobertura internacional em mais de 30 países; e autor do livro Comércio Eletrônico, a Nova Conquista. Dirige a revista Visión da UPEC e é presidente de seu Conselho Consultivo.