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terça-feira, 26 maio 2026

60 anos de luta: A História do Partido Comunista Revolucionário

Foto: Arquivo público

Por: Wagner França

Em maio de 1966, em meio à escalada repressiva da ditadura militar brasileira, surgia no Recife uma organização política que marcaria profundamente a história da esquerda revolucionária nacional. Fundado por militantes como Manoel Lisboa de Moura e pelo experiente líder camponês Amaro Luiz de Carvalho, o Partido Comunista Revolucionário (PCR) nasceu com a proposta de reafirmar os princípios do marxismo-leninismo e construir uma alternativa revolucionária diante dos rumos que seus fundadores identificavam como desvios no movimento comunista da época.

Seis décadas depois, a trajetória do PCR permanece associada à resistência política, ao enfrentamento da repressão estatal e à defesa da emancipação da classe trabalhadora. Sua história é marcada por perseguições, perdas irreparáveis e, ao mesmo tempo, por uma persistente atuação nos movimentos populares, estudantis e sindicais. Celebrar seus 60 anos significa reconhecer uma organização que atravessou alguns dos períodos mais difíceis da história brasileira sem abdicar de suas convicções fundamentais.

As origens de uma ruptura revolucionária

O nascimento do PCR ocorreu a partir de uma dissidência do Partido Comunista do Brasil (PCdoB). Para seus fundadores, era necessário construir uma organização que mantivesse uma linha revolucionária mais rigorosa e alinhada aos princípios do marxismo-leninismo. Nesse processo, destacou-se a liderança de Manoel Lisboa de Moura, ao lado de Amaro Luiz de Carvalho, Selma Bandeira, Valmir Costa e Ricardo Zarattini.

Ainda em seus primeiros passos, o partido demonstrou preocupação em formular uma estratégia política própria. A chamada “Carta de 12 Pontos aos Comunistas Revolucionários” tornou-se um dos documentos mais importantes de sua fundação. Nela, a classe operária era definida como força dirigente da transformação social, enquanto a revolução socialista aparecia como horizonte estratégico. O documento também analisava o Nordeste brasileiro como uma região central das contradições sociais e econômicas do país, defendendo formas de luta inspiradas em experiências revolucionárias internacionais.

A resistência sob a ditadura

O crescimento do PCR ocorreu durante os anos mais duros do regime militar. O partido consolidou presença em capitais nordestinas e em importantes áreas de concentração de trabalhadores rurais, especialmente nas zonas canavieiras de Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte.

Com o endurecimento do regime após o AI-5, em 1968, a repressão contra as organizações de esquerda atingiu níveis extremos. O PCR foi um dos grupos que sofreram duramente com a violência estatal. Entre 1971 e 1973, importantes dirigentes foram assassinados.

Amaro Luiz de Carvalho, conhecido como “Capivara”, morreu em agosto de 1971 na Casa de Detenção do Recife. Dois anos depois, Manoel Lisboa foi preso, submetido a torturas e assassinado pelos órgãos repressivos da ditadura. Ao seu lado, Emmanuel Bezerra dos Santos e Manoel Aleixo também perderam a vida após enfrentarem violentas sessões de tortura.

Para a militância do PCR, esses nomes representam exemplos de firmeza política e dedicação à causa revolucionária. A memória desses militantes continua sendo um dos pilares simbólicos da organização, que transformou o dia 4 de setembro, data da morte de Manoel Lisboa, no Dia do Heroísmo Revolucionário.

A presença nos movimentos de massa

Apesar das perdas sofridas durante a ditadura, o PCR conseguiu manter atuação política em diferentes espaços de organização popular. Sua participação no movimento estudantil foi particularmente relevante durante o processo de reconstrução da União Nacional dos Estudantes (UNE), no final da década de 1970.

Um dos episódios mais marcantes desse período foi a mobilização pela libertação de Edival Nunes Cajá, dirigente estudantil preso e torturado em 1978. Sua prisão desencadeou uma ampla campanha de solidariedade, incluindo uma greve que mobilizou milhares de estudantes da Universidade Federal de Pernambuco e recebeu apoio de setores progressistas da sociedade civil.

A trajetória de Cajá, posteriormente incorporado à direção nacional do partido, simboliza a continuidade histórica de uma organização que atravessou diferentes gerações sem perder sua identidade política.

Após uma experiência de fusão com o MR-8, considerada insatisfatória por seus militantes, o PCR foi refundado em fevereiro de 1995. O processo marcou a retomada explícita de seus princípios marxistas-leninistas e abriu uma nova etapa de crescimento organizativo.

Nesse contexto, surgiu a União da Juventude Rebelião (UJR), organização juvenil vinculada ao partido. Poucos anos depois, em 1999, foi criado o jornal A Verdade, que se consolidou como principal instrumento de divulgação política e formação ideológica da organização.

A partir de 2004, o PCR passou a integrar a Conferência Internacional de Partidos e Organizações Marxistas-Leninistas (CIPOML), ampliando suas relações com organizações revolucionárias de diferentes países e fortalecendo sua inserção nas articulações internacionais da esquerda anti-imperialista.

Um projeto político que segue em movimento

Ao longo das últimas décadas, o legado político do PCR também se expressou na construção de novos instrumentos de atuação. Entre eles, destaca-se a Unidade Popular (UP), partido legalizado em 2019 e que atua na disputa institucional sem abandonar a defesa de uma transformação estrutural da sociedade brasileira.

A realização do 7º Congresso do PCR, em dezembro de 2025, reuniu delegados de todas as regiões do país e reafirmou a centralidade da luta socialista em sua estratégia política. O encontro ocorreu após um período de intensa participação em greves, campanhas populares e mobilizações contra diferentes formas de exploração e opressão social.

Sessenta anos depois

Poucas organizações políticas brasileiras podem reivindicar uma trajetória de sessenta anos atravessando ditadura, perseguições, crises e transformações profundas da realidade nacional. Mais raro ainda é encontrar uma organização que tenha preservado sua identidade política ao longo de todo esse percurso.

Para seus militantes e simpatizantes, o PCR permanece como uma referência de coerência ideológica, compromisso com a classe trabalhadora e resistência ao imperialismo. Sua história não é vista como uma lembrança distante, mas como parte de um processo político ainda em construção.

Ao completar seis décadas de existência, o Partido Comunista Revolucionário reafirma sua presença na luta social brasileira. Para aqueles que compartilham de seus ideais, celebrar esses 60 anos significa homenagear seus mártires, reconhecer suas contribuições históricas e renovar a convicção de que a transformação revolucionária da sociedade continua sendo uma tarefa do presente e do futuro.

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