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sábado, 20 abril, 2024

1964: não esquecemos, Lula

Foto: Arquivo Nacional

Remoer o passado é preservar o futuro.

Tatiana dias*

 Há dez anos, a presidente Dilma Rousseff preparou uma série de eventos para relembrar os 50 anos do golpe militar. A memória, para ela, vítima de tortura, além de assunto de estado, era também uma questão pessoal. “Lembrar e contar faz parte desse processo que iniciamos, de luta do povo, pela volta da liberdade, pela anistia, Constituinte, diretas, inclusão social, Comissão da Verdade”, ela declarou em 2014.

 Seu governo havia instaurado em 2011 a Comissão da Verdade, criada para investigar os crimes cometidos por agentes do estado durante a Ditadura Militar. Em outras palavras: Rousseff, ela mesma perseguida e torturada, resolveu fazer o trabalho que foi varrido para debaixo do tapete com o processo pacificador da anistia.

 Remoer esse passado incomodou muita gente. Principalmente os militares – que, depois, ascenderiam ao poder com Michel Temer após o golpe que destituiu a presidente, e se consolidariam com Bolsonaro no roteiro que você já deve conhecer muito bem.

 Lula, neste governo, chegou com a promessa de defender incondicionalmente os direitos humanos e defender a democracia. No ano passado, o então ministro da Justiça Flávio Dino prometeu inaugurar um museu em homenagem às vítimas da ditadura.

 “Nós devemos ao Brasil e vamos pagar essa dívida com a criação de um Museu da Memória e dos Direitos Humanos”, disse Dino em setembro de 2023, durante uma visita ao Chile, em um evento em memória aos 50 anos do golpe contra Salvador Allende.

 O Museu da Memória brasileiro, inspirado na iniciativa chilena, ficaria em Brasília. Seria coordenado pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, sob Silvio Almeida. A inauguração aconteceria neste ano.

 Mas Lula desistiu. Neste mês de março, mandou cancelar qualquer evento em alusão ao ato. Disse que o golpe de 1964 “faz parte do passado” e quer “tocar o país para frente”.

 O Ministério dos Direitos Humanos não se pronunciou, mas tudo indica que foi pego de surpresa. A pasta de Silvio Almeida tinha planejado um evento em Brasília e uma exposição. O ministério tinha até slogan: “60 anos do golpe 1964-2024 – sem memória não há futuro”, revelou uma reportagem da Folha de S.Paulo.

 Mas o governo optou pelo esquecimento. Até fevereiro, Nilmário Miranda, assessor especial de Defesa da Democracia, Memória e Verdade do ministério, deixava claro: 2024 seria o ano de “contar a verdade sobre os 60 anos do golpe militar”.

 Mas, logo depois de quase sofrer um golpe – que, ao que tudo indica, teve participação de militares do alto escalão – o governo que prometia honrar a memória preferiu se curvar. Defensores de Lula tiveram a coragem de dizer que há necessidade de pacificar as relações com as forças armadas. Lula não peitou os militares antes, e continua seguindo o mesmo tom conciliatório. A verdade é que os militares sempre se meteram na política, onde e quando quiseram.

 “Se tem um mal que até hoje morde duramente nossos calcanhares, mal que nos lasca simbólica e literalmente como sociedade, é nosso antigo gosto por reconciliar o irreconciliável”, escreveu nossa colunista Fabiana Moraes no começo do ano passado, quando ela traçou o caminho: foi essa anistia à barbárie que nos levou ao terrorismo em Brasília.

 A história da Ditadura Militar está aí. E nós publicamos muito sobre ela. Leia o relato da jornalista Tatiana Merlino sobre seu tio, assassinado por Brilhante Ustra. Ou a entrevista dela com Eugênia Gonzaga, ex-presidente da Comissão de Mortos e Desaparecidos. Veja nossas reportagens premiadas sobre o aparato de espionagem da Fiat e sobre a legião de filhos sem pais de Itaipu durante a obra que foi cartão de visitas da ditadura.

 Leia os textos do historiador Lucas Pedretti sobre como a ditadura negou o racismo e os militares abraçaram o centrão no nosso processo de pacificação. E essa entrevista, que mostra como a imprensa tradicional, que hoje gosta de posar como defensora incondicional da democracia, apoiou e validou a ditadura. O Brasil atual é explicado pelo regime militar: e a história, se mal resolvida, volta a se repetir em loop, enquanto não encararmos esse espelho.

 Sabemos o que aconteceu quando Dilma Rousseff tentou remoer esse passado. Mas nós também não esquecemos. Sem memória, não há futuro, como disse a própria mensagem sufocada dentro do governo. Que pena. Era um bom slogan.

*Editora Sênior do Intercept Brasil

 

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