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Entrevistas

Postado em 30/03/2020 6:24

O toque a finados do neoliberalismo?

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por Michael Hudson
entrevistado por Ellen Brown e Walt McRee
Cartoon de Arcadio
O presente texto resulta de uma entrevista dada por Michael Hudson à advogada e ativista social, Ellen Bronw e a Walt McRee, fundador e dirigente do Public Banking Institute, (instituição não lucrativa), disponível em It’s Our Money podcast . Michael Hudson é um dos mais importantes e clarividentes economistas atuais. O interesses das suas afirmações é reforçado pelo facto de que, no que se refere à Reserva Federal dos EUA, à finança e ao neoliberalismo, se aplica ao BCE e ao sistema socioeconómico vigente, ou antes, imposto, na UE.
Walt McRee – A devastação económica global produzida pela especulação originada pelo mercado livre, teve como resultado cidadãos angustiados e espoliados indo para as ruas às centenas de milhares nas cidades de todo o mundo, sendo prosseguida a exploração destrutiva dos recursos do planeta. O culpado é um sistema económico neoliberal envelhecido que produz uma desigualdade social histórica enquanto consolida o poder nas mãos de poucos. O nosso convidado, o conceituado economista Michael Hudson, diz que esse sistema é mais neofeudal do que neoliberal – e que os seus inerentes excessos estão prestes a derrubá-lo. Ellen relata que um exemplo de sua morte pode estar no México, onde o seu novo presidente está a criar novos bancos públicos para ajudar a resolver algumas de desigualdades neoliberais.
Michael Hudson – Há um reconhecimento de que os bancos comerciais se tornaram disfuncionais e que a maioria dos empréstimos dos bancos comerciais são baseados em ativos, inflacionando os preços de imóveis, ações e títulos ou empréstimos para adquirir ou tomar posição em empresas.
A economia de baixo rendimento não foi ajudada pelo sistema financeiro atual. Na cidade de Nova York, são sistematicamente negados vários serviços por agências governamentais federais, governos locais e setor privado, aos residentes de bairros pobres ou comunidades específicas – principalmente negros – uma classe visceralmente odiada pela alta finança. Do topo à base, eles foram muito claros: não iriam emprestar dinheiro para locais com minorias raciais como o Lower East Side. O Chase Manhattan Bank disse-me que o motivo era explicitamente étnico e que eles não queriam lidar com pessoas pobres.
Muitas pessoas nesses bairros costumavam ter bancos de poupança. Havia 135 bancos de poupança mútua na cidade de Nova York com nomes como o Bowery Savings Banks, o Dime Savings Bank, o Immigrant Savings Bank. Como os seus nomes mostram, deveriam servir especificamente os bairros de baixo rendimento. Mas nos anos 80 os bancos comerciais convenceram os bancos de poupança mútua a deixarem-se adquirir. As reservas de capital dos bancos de poupança acabaram por ser saqueadas pela Wall Street. O património dos depositantes foi esbulhado (mantendo os seus depósitos, como garantia). Sheila Bair, ex-presidente da Federal Deposit Insurance Corporation, disse-me que a narrativa de cobertura contada pelos bancos comerciais era que seriam suficientemente grandes e terem mais reservas de capital para concederem empréstimos nos bairros de baixo rendimento. A realidade foi que, em vez disso, simplesmente extraíram receita desses bairros. Grandes partes das maiores cidades da América, de Chicago a Nova York e outras, estão sem bancos devido à transformação de bancos comerciais de prestadores de hipotecas a apenas coletores de receita. Isso deixa como principal recurso nesses bairros os credores do dia do pagamento, que aplicam taxas de juros usurárias. Esses credores tornaram-se novos grandes clientes dos banqueiros de Wall Street, não os pobres que não têm acesso comparável ao crédito.
Além dos bancos de poupança também havia os serviços bancários dos correios. Quando fui trabalhar para a Wall Street na década de 1960, 3% da poupança dos EUA dava-se em poupanças nos correios. A vantagem, é claro, é que os correios estavam em todos os bairros. Então, na verdade, havia um banco comunitário local como bancos de poupança – não como os bancos comunitários de hoje, que são bancos comerciais, emprestando amplamente a especuladores imobiliários para capitalizar apartamentos de aluguer em cooperativas pesadamente hipotecadas, com encargos financeiros muito mais altos. Agora há uma privação de serviços bancários básicos em boa parte da economia, combinada com um sistema bancário comercial cada vez mais disfuncional e predatório.
A questão é: o que acontecerá na próxima vez que houver um colapso bancário? Sheila Bair escreveu após o crash de 2008, que o banco mais corrupto era o Citibank – não apenas corrupto, mas incompetente. Ela queria assumir o controlo. Mas Obama e seu secretário do Tesouro, Tim Geithner, atuaram como lobistas do Citibank desde o início, protegendo-o de ser adquirido.
Mas imagine o que teria acontecido se o Citibank se tornasse um banco público – ou outros bancos que estão prestes a ter património líquido negativo havendo uma queda no mercado de ações e títulos e imóveis. Imagine o que aconteceria se fossem transformados em bancos públicos. Seriam capazes de fornecer o tipo de crédito que o sistema bancário comercial se recusou a fornecer, crédito a negros, hispânicos e pessoas pobres que acabaram de se alinhar no que está a tornar-se uma dupla economia polarizada financeiramente, uma para os ricos e outra para todos os demais.
Walt McRee – O poder desse domínio, é claro, está no cartel bancário. Eles consideram os bancos públicos uma ameaça. Ao que parece eles odeiam qualquer tipo de competição.
Michael Hudson – Claro que são uma ameaça.
Walt McRee – E mesmo quando dizemos que não vamos perseguir os negócios que eles já fazem, porque não estão a emprestar às pequenas, médias empresas e assim por diante, – queremos apenas ocupar-nos das infraestruturas que vocês não querem financiar, mesmo assim resistim. Como seremos capazes de superar isto?
Michael Hudson – Acho que se teria de dizer que é claro que não se retirariam os negócios deles, porque o banco público da comunidade ou o banco do governo não faria empréstimos a grandes empresas ou aquisições especulativas de produtos derivados. Isto não criaria uma sobrecarga disfuncional no crédito e dívida que se vem a expandir desde 1999, quando o governo Clinton mudou as regras bancárias.
O problema é que os grandes bancos comerciais não querem empréstimos do tipo produtivo que os bancos públicos dariam. Por exemplo, a razão pela qual eles não quiseram estender o crédito para o Lower East Side ou o Hudson Yards, no oeste de Nova York, era porque queriam expulsar os seus residentes, fornecendo dinheiro às grandes empresas do imobiliário que demoliram socialmente esses bairros. A política deles é expulsar o maior número possível de locatários ou proprietários de baixo rendimento e substituí-los, aumentando os alugueres de 50 dólares por mês para 5 000 dólares por mês. Foi o que aconteceu no Lower East Side desde que lá morei até hoje.
Há uma luta do setor improdutivo da economia contra as pessoas que desejam usar o crédito de maneira produtiva que na realidade ajuda a economia. Eu acho que é uma luta entre o bem e o mal, pelo menos entre a economia produtiva e improdutiva, entre a economia para as pessoas e a economia para o 1%.
Ellen Brown – Eu pergunto-me, no entanto, se o Fed vai permitir que os bancos entrem em colapso novamente, com o que fizeram no mercado de derivados. Eles podem intervir a qualquer momento para salvar algum. Não sei se o Congresso tem alguma palavra a dizer. O que acha?
Michael Hudson – Acho que está certa. Conversei com Paul Craig Roberts e discutimos se eles podem continuar a manter vivos esses bancos zumbis. Poderão manter a economia zumbi super endividada, viva pela Reserva Federal manipulando os mercados de ações e títulos a prazo para apoiar os preços? Na verdade, o Fed não precisa comprar ações e títulos além dos 4 milhões de milhões que já foram investidos no Quantitative Easing. Pode simplesmente manipular o mercado a prazo. Isso realmente não custa nada até que o grande acidente ocorra. Então, acho que se deve discutir o que o presidente Trump diz ser o boom que ele criou com o mercado de ações a subir. Isso significa que a economia está ficando mais rica? Estaremos bem com os bancos comerciais da forma como funcionam, para não precisarmos de um banco público?
Acho que é preciso expor o facto de que o que aconteceu é uma intervenção artificial do Estado. O que temos, em nome do apoio ao mercado livre dos bancos, não é um mercado livre. É um mercado altamente centralizado para apoiar a riqueza do setor financeiro predatório contra o resto da economia. A riqueza do sector financeiro assume a forma de crédito para a restante economia, extraindo juros e amortizações, ao mesmo tempo que realiza empréstimos simplesmente para aumentar os preços de ativos de imóveis e títulos financeiros, não colocando novos meios de produção que permitiriam criar empregos. Então tem que se ir além da questão dos bancos públicos e examinar o contexto político. Por fim, a maneira de se defender os bancos públicos é mostrar como a economia funciona e como os bancos públicos podem desempenhar um papel positivo na economia, como esta deveria funcionar.
Ellen Brown – Pode explicar-nos o que quis dizer com empréstimos a prazo?
Michael Hudson – Não se trata de empréstimos a prazo, mas de muitas compras. Em relação à média Dow Jones do mercado de ações, eles lançam ordens de compra para todas as suas ações ou as da S&P 500 num mês, numa semana ou qualquer que seja o prazo, pelo valor X – digamos, 2% sobre a cotação de hoje. Bem, quando a equipa de proteção contra quedas emitir uma garantia de compra, o mercado aumentará os preços de oferta dessas ações até ao que o Fed e o Tesouro prometam pagar por elas. Quando os preços sobem, o Fed não precisa comprar essas ações, porque todos tinham previsto que o Fed as compraria até esses 2% de ganho. Portanto, é uma profecia auto-realizável. Estamos lidando com um governo administrado pelos bancos e com o poder dos credores para aumentar artificialmente os preços dos ativos, pelo crédito. Isso mantém vivo um sistema que se apresenta como criador de prosperidade. Mas não cria prosperidade para os 99%. A banca pública visaria a prosperidade para os 99%, não apenas para o 1%.
Ellen Brown – Estou a escrever sobre Andrés Lopez Obrador, presidente do México, que anunciou em janeiro que construirá 2 700 agências de um banco público nos próximos dois anos. Esperam ter 13 mil agências no final, por isso será o maior banco do país. O raciocínio deles é exatamente o que está a dizer, que os bancos faliram e não atenderam os pobres. O seu mandato é ajudar os pobres, e ele não pode fazer isso se não tiverem serviços bancários.
Michael Hudson – Esse banco é nacional?
Ellen Brown – Sim, em todo o país.
Walt McRee – Sabemos que uma fonte monetária pública é uma utilidade pública. A nossa visão é criar uma rede de bancos públicos locais e estaduais. Isso nos leva à visão de que o que realmente precisamos ter como alvo é a Reserva Federal, para transformá-la numa entidade pública. Isto é loucura ou…
Michael Hudson – Acho que a maneira de levar as pessoas a apoiar isso é entenderem como a Reserva Federal foi criada. Há alguns anos, publiquei um artigo numa revista económica indiana (acho que está no meu site), sobre como o Fed foi criado. Houve uma luta da Wall Street liderada por J.P. Morgan. Os Estados Unidos tiveram um banco central federal até 1913 – o Tesouro. Até 1913, o Tesouro fazia tudo o que o Fed começou a fazer. A ideia de criar a Reserva Federal foi tirar poder ao Tesouro. O Tesouro nem sequer ficou autorizado a participar na Administração como proprietário de ações. A ideia era afastar a tomada de decisões de Washington e da política democrática, isolando o sistema financeiro do sistema político democrático, transferindo o controlo para os centros financeiros privados – Wall Street, Chicago e outros distritos da Reserva Federal, que eram os mesmos distritos em que o Tesouro já havia dividido o país. Lembre-se, essas foram as décadas que antecederam a Primeira Guerra Mundial, quando houve uma revolução social-democrata [1] da Europa para os Estados Unidos. Uma ideia condutora era democratizar o sistema bancário.
Wall Street desenvolveu muito rapidamente uma contra-estratégia. E a contra-estratégia foi o Fed. Nós, ambos, pretendemos reverter a contra-revolução montada contra a economia clássica e a social-democracia. A entidade da qual está falando provavelmente estaria sob a égide do Tesouro. A economia seria colocada novamente na direção em que o mundo estava a mover-se antes da Primeira Guerra Mundial, que destruiu esses esforços.
Pode falar-se em nacionalizar o Fed. Eu sei que as pessoas não gostam da palavra nacionalização. Que tal desprivatizar ou desqualificar o Fed? É preciso apresentar o Fed como tendo roubado políticas económicas e financeiras do domínio público. Tornou-se parte do projeto neoliberal que se formou na Áustria na década de 1930. Você está tentando restaurar a visão económica clássica de crédito produtivo versus improdutivo, trabalho produtivo versus improdutivo e dinheiro público em oposição ao dinheiro privado. Essas distinções foram apagadas pela contra-revolução neoliberal censitária.
Não é que você seja radical, essas pessoas é que fizeram uma revolução radical para afastar o sistema financeiro da democracia. Você procura restaurar a visão clássica de democracia, redemocratizando finanças e bancos.
Walt McRee – Quero agradecer-lhe por dizer isso, Michael, porque a privatização da Reserva Federal é muito mais precisa e poderosa. Lembra-se de trocarmos uma frase quando eu disse “engano institucionalizado”. Mas digamos que antes disso, Stephanie Kelton entra para lá, ou alguém da Moderna Teoria Monetária (MMT) [2] entra num novo governo antes de desprivatizar o Fed. O MMT tem um lugar para se concretizar ou emergir nesse ambiente?
Michael Hudson – Pode-se deixar os bancos comerciais fazer o que estão fazendo, mas não seria fornecido crédito ao Fed para eles sobrecarregarem a economia com dívida improdutiva. A questão é: se se criar um banco comunitário real num setor bancário público, onde conseguirá o dinheiro para emprestar? Como fornecemos dinheiro para as áreas mais restritas da economia, para realmente financiar investimentos na economia real e necessidades das pessoas, não apenas empréstimos predatórios? O modo como a MMT entra é muito parecido com o plano de Chicago para reservas de 100%. Esses bancos comunitários precisarão de crédito criado pelo Tesouro além dos depósitos que levantam nas suas áreas locais.
Eles precisam de mais dinheiro. A MMT concede crédito a esses bancos em troca das origens dos valores de caráter produtivo, em condições que os mutuários possam pagar, com hipotecas realistas, mesmo para construir habitações. O novo Fed de que estamos a falar será um dos principais depositantes e será o provedor dos depósitos e reservas de capital aos bancos. De momento, forneceu 4 milhões de milhões em crédito Quantitative Easing aos bancos, não para investir na economia, mas apenas para inflacionar o mercado de ações e títulos e tornar a habitação mais cara. Não seria muito melhor conceder crédito aos bancos comunitários que realmente disponibilizariam crédito para fins económicos produtivos – e não empréstimos para aquisição de empresas, ações e especulação de ativos?
Crédito produtivo era o que todos esperavam que os bancos desenvolvessem no final do século XIX. A Alemanha e a Europa Central estavam a liderar o caminho. Foi chamado de sistema bancário europeu, em oposição ao bancário anglo-americano. (Discuto esse contraste em Killing the Host ). Isto foi essencialmente feito seguindo o modelo clássico, tal como todos esperavam que os bancos evoluíssem antes da Primeira Guerra Mundial.
Ellen Brown – Foi sobre isso que escrevi no meu último livro. O Fed é onde se deve obter crédito, para que não se precise pedi-lo de outro lugar. As pessoas acham que isso de recompra é artificial. É re-hipotecar. Uma parte possui as garantias à noite, a outra parte durante o dia. Não passa de ilusão parecer que obtiveram algo que realmente não existe. Então, vamos simplesmente reconhecer que todo dinheiro é apenas crédito. E, como diz, se se tem um bom empréstimo, um bom projeto a ser monetizado, esse é o objetivo de um banco. Isso transformará a produtividade futura em algo que se poderá despender no mercado. E o banco central estará aí para fornecer o crédito.
Michael Hudson – Está certo. A minha maneira de descrevê-lo é olhar a história, mostrar que essa não é uma ideia utópica. Foi o que tornou os bancos alemães e da Europa Central muito mais produtivos nas décadas que antecederam a Primeira Guerra Mundial. Portanto, na verdade, temos exemplos históricos de bons serviços bancários versus maus bancos. Mas os predadores, no final, venceram.
Ellen Brown – Bem, em relação a todo esse processo de recompra, um grande problema que temos com os bancos públicos é a exigência de garantia de 110% na Califórnia. Como é que um banco pode fazer empréstimos se tiver que usar os seus depósitos para comprar títulos – algo seguro e com juros baixos para garantir os depósitos? Parece-me que o que os grandes bancos fazem – e acho que poderíamos fazer – é pegar nesses depósitos e comprar títulos federais a 1,5%, e então usar os títulos como garantia no mercado de recompra, onde eles pagam 1,5%. Por outras palavras, eles pagam 1,5% e ganham 1,5%. Eles recebem o dinheiro de graça. Eu acho que nós poderíamos fazer isso também. Ou apenas alguns jogadores estão autorizados a jogar esse jogo e não podemos entrar?
Michael Hudson – Penso que uma das coisas que você e outros progressistas recomendam é que o Fed pare de pagar aos bancos pelos seus depósitos de reserva. Pare de dar-lhes a oferta gratuita. Pode-se dizer: “Somos contra os maiores beneficiários de assistência social do país. Mas esses não são as pessoas em que se pensa. São os bancos da Wall Street. Esses hipócritas querem limitar a Previdência Social para equilibrar o orçamento. Querem limitar os cuidados médicos e os serviços sociais e tornarem-se os únicos beneficiários da assistência social”.
Cartoon de Fontevila.Ellen Brown – Se nos ergueremos na nossa cátedra e apenas dissermos que isto precisa mudar, nada acontecerá. Poderíamos fazer isso nós próprios e justamente mostrar o que estamos a fazer, em contraste com o que eles fazem…
Michael Hudson – Está a pedir para haver simetria. Mas eles impõem-nos uma grande carga, que não precisam carregar. Lançam os dados a seu favor. A Ellen pretende parar o favoritismo interno. Para apresentar corretamente os bancos dentro do sistema tem de se dizer: “Olhem, essas pessoas estão a tentar manter o seu monopólio”. Pode-se usar a legislação anti-monopólio que está em vigor desde a época de Teddy Roosevelt. Há muito poder legal para dividir os grandes bancos. Poderiam ser tratados como acho que poderiam tratar as empresas farmacêuticas se Bernie Sanders entrasse.
Walt McRee – Os monopólios estão a ser desafiados pelo setor bancário paralelo. Novas tecnologias de troca de pagamentos parecem estar corroendo essa fonte singular de crédito. Qual é o seu prognóstico para como isso vai evoluir? Os grandes bancos encontrarão uma maneira de o reprimir?
Michael Hudson – Estamos falar de criptomoeda?
Walt McRee – Seria um exemplo, sim.
Michael Hudson – Bem, não se pode impedir as pessoas de jogar. As pessoas pensam que comprar uma criptomoeda é como comprar uma gravura de Andy Warhol. Talvez o preço aumente se um grande número de pessoas quiser. Mas, basicamente, é lixo. É muito especulativo. Certamente não é estável. Sobe e desce. Um dia, pode haver uma erupção solar que apague todos os registos bancários dessas coisas. Mas não há como impedir que as pessoas façam algo que pareça idiotice ou jogo. Portanto, simplesmente, não se lhes dará nenhuma proteção contra perdas. Também vai ser necessário isolar a economia de ter transações em criptografia, essas coisas alternativas de dinheiro que contêm grandes riscos de perda. Não são dinheiro real, porque o governo não aceitará o pagamento em criptomoedas para impostos ou bens e serviços públicos. O governo aceitará apenas formas especificas de dinheiro. Pode-se criar qualquer tipo de troca ou aposta. Se se deseja criar o equivalente a uma pista de corrida de cavalos com apostas, pode-se fazer isso, mas é uma pista financeira. Eu acho que pode haver impostos nas pistas de corrida. Estão desregulamentadas desde há muito. Mas os filmes de Hollywood mostram que há muita criminalidade por aí.
Walt McRee – Estávamos, Ellen, eu e Tyson Slokum, um pouco divertidos imaginando como Max Kaiser gosta do Bitcoin e como ele o vê como o novo ouro.
Michael Hudson – Ele disse-me que muitas pessoas assistem ao seu programa porque estão muito interessados no ouro ou interessadas no Bitcoin. Acho que ele tenta ter uma visão neutra, nas nossas conversas pessoais. Ele não está especialmente interessado no ouro ou no Bitcoin. Mas muitas pessoas querem ter informação sobre isso, então ele tem convidados no seu programa dizendo-lhes: “Aqui está, faça a sua escolha”. Faz parte do novo cenário financeiro especulativo, assim como os pântanos fazem parte do cenário imobiliário da Florida. Então, ele cobre todo esse espectro de opiniões. A Reuters produz os seus shows e o público quer ouvir falar sobre isso. Então ele fala sobre o que eles querem ouvir.
Ellen Brown – Eu acho que ele realmente promove o Bitcoin. Investiu muito aí, foi um dos primeiros, portanto, obviamente, ganhou muito dinheiro. Acho que ele concorda que não pode ser uma moeda nacional. É muito lento, muito caro e ambientalmente hostil. Mas, como você diz, tem sido um bom investimento, assim como obras de arte ou algo que, se as pessoas querem, o valor aumenta. Além disso, existe um grande mercado negro para isso, comércio e coisas que não se deseja que o governo conheça.
Michael Hudson – É um fenómeno real. Ele viu o fenómeno e parece ter ganhado dinheiro, mas quando Steve Keen e eu e outros nos encontrámos com ele o tópico nunca foi discutido. Mas o ouro sim.
Eu pergunto-me para onde foi o ouro da Líbia, por exemplo. Aparentemente, foi todo tirado e eu penso que os EUA o deram ao ISIS. Hillary disse que esse ouro tinha que ir para o ISIS para atuar como a nossa Legião Estrangeira. Nós demos-lhes as armas da Líbia. Parte do ouro deve ter sido levado pela CIA e pelo Departamento de Estado para os seus golpes sujos, para as suas operações secretas. Os Estados Unidos querem impedir que qualquer outro país ou grande possuidor de ouro tenha ouro suficiente para tentar restabelecê-lo como um meio de resolver os défices da balança de pagamentos.
Os EUA têm um grande défice militar; portanto, quanto mais dinheiro gastar no exterior com as suas 800 bases militares, mais ouro perderia. Portanto, os Estados Unidos querem manter o dólar no centro do sistema financeiro mundial. Foi realmente por isso que entraram em guerra com a Líbia, porque a Líbia foi um dos primeiros países a desdolarizar e mover a sua moeda em direção ao ouro. Agora há um grupo de países – Rússia, China, Irã e outros – adicionando ouro às suas reservas em vez de dólares. Estamos a passar por uma desdolarização por todo o mundo para se libertarem da capacidade de os EUA fazer o que fez com o Irão.
Quando o Irã, sob o Xá, pediu empréstimos em dólares, usou o Chase Manhattan Bank como seu agente pagador. Colocou dinheiro suficiente na conta para pagar o serviço da dívida externa. Quando o Xá deixou de governar o Irão, o Departamento de Estado disse ao Chase para recusar-se a entregar aquele dinheiro. Uma vez que Chase se recusou a entregar o pagamento e congelou a conta do Irão, isso significava que o país entrou em incumprimento de toda a dívida externa em dólares. Era responsável por uma enorme quantidade de capital.
Isto foi um aviso para o resto do mundo de que nenhum governo poderia colocar o seu dinheiro com segurança num banco americano ou numa agência bancária americana, ou numa agência britânica que atuariam como subsidiários do Pentágono. Porque se o fizer, o banco pode simplesmente forçá-lo a entrar em incumprimento a qualquer momento, assim como a CIA pode usar armas eletrónicas para destruir o seu sistema de compensação de pagamentos bancários. É por isso que a ameaça de cortar a Rússia, a China e outros países do Swift Interbank Clearing System levou a Rússia a desenvolver o seu próprio sistema de compensação. Com o toque de um botão, pode começar a funcionar sempre que os Estados Unidos tentem retirar a Rússia do sistema de pagamentos SWIFT. Os Estados Unidos estão a fazer com que o mundo inteiro desdolarize muito rapidamente. Agora a questão é: o que vai a Europa escolher. A Alemanha e outros países tornar-se-ão parte do sistema desdolarizado ou permanecerão na área do dólar?
Isto faz parte da luta contra o uso dos chips IT e de comunicação da Huawei. A Huawei não colocou spywares dos EUA no sistema. Os Estados Unidos dizem que, se não puderem ter um sistema telefónico e um sistema de comunicação que possa controlar por spyware um país e usa-lo para destruir a sua economia, os seus serviços públicos, os seus sistemas elétricos, então esse país é nosso inimigo, porque se sentem inseguros sem esse controlo.
Quando o presidente Trump disse que a Huawei era uma ameaça à segurança nacional dos EUA, ele quis dizer que não nos sentimos seguros, a menos que tenhamos o poder de destruir qualquer economia que atue de maneira independente dos Estados Unidos – porque pode fazer algo que nós não gostamos. Este é o conceito mais agressivo de segurança que se poderia imaginar. Portanto, é claro que o resto do mundo vê a sua própria segurança nacional como tendo uma dimensão financeira. Ter dimensão financeira consiste em criar um sistema monetário e financeiro que minimize as conexões com o dólar, exceto na medida necessária para comprar e vender dólares com o objetivo de estabilizar a taxa de câmbio.
Ellen Brown – Fala-se muito, mesmo entre os banqueiros centrais, de que precisamos sair do dólar como moeda de reserva global. Mas parece-me que o ouro também é manipulável. Quero dizer, não é o ideal que eu tinha imaginado, um sistema em que em vez das reservas serem uma coisa, como dólares ou ouro que se podem negociar, seria apenas como uma medida. Seríamos capazes de comparar uma moeda com outra de acordo com o que se poderia comprar com ela. Como se tivéssemos uma cesta de coisas que se usam em todos os países. E agora que isso é relatado, não seria tão difícil obter os números, bastaria comparar e dizer: bem, o seu dólar valerá tantos pesos no México ou o que seja. Esta foi a minha ideia, o que acha?
Michael Hudson – Isso responderia a um dos critérios de dinheiro, que é uma medida de valor, mas não serviria para dinheiro internacional. Você precisa ter alguns meios de restrição. Por outras palavras, suponha que os Estados Unidos continuassem com um défice orçamental militar, como na Guerra do Vietname. Não haveria forma de usar a balança de pagamentos como restrição à política dos países deficitários, que geralmente são os agressores militares. A ideia de sair do ouro era que, sob o padrão-ouro, nenhum país pode dar-se ao luxo de fazer guerra, porque fazendo a guerra, a moeda entraria em colapso.
Em 1976, Herman Kahn e eu fomos ao Tesouro – isto é para responder à sua pergunta. Ele colocou um mapa do mundo e disse: “Estes são os países – Escandinávia, Europa Ocidental, Estados Unidos – que não acreditam no ouro. São todos países social-democratas politicamente estáveis. Eles têm fé no governo. Não olhe para esses outros … aqui está o resto do mundo – Índia, América do Sul, África e grande parte da Ásia. Estas são pessoas que acreditam no ouro. Por que acreditam eles no ouro, mas não na área cultural protestante? Bem, eles não têm fé no governo. Eles não confiam nos governos. Eles querem alguma opção que seja independente do governo. O ouro não serve apenas para subornar os guardas de fronteira se eles estiverem fugindo de algum lugar. Eles querem libertar-se de governos que foram capturados por forças predatórias antidemocráticas”.
Ele disse que se devia tentar pensar no que seria uma alternativa ao dólar que as pessoas entendessem. Durante milhares de anos, as pessoas decidiram por ouro e prata (podemos acrescentar platina e paládio), que têm sido o melhor meio de liquidação e, portanto, de restrição monetária internacional. O ouro não deve ser usado como dinheiro. Não deve ser usado como um meio de pagamento normal. Deve ser usado é como restrição da balança de pagamentos, da capacidade dos países de enfrentarem défices crónicos que são principalmente de caráter militar. Por isso, chamei à nossa apresentação de “Gold: the Peaceful Metal”. Escusado será dizer que o Tesouro não aceitou isso, porque disseram que tínhamos acabado de explicar como o superimperialismo funciona via dólar. Eles não voltaram ao ouro. Perdemos esse argumento.
Ellen Brown – Não será a razão pela qual saímos do padrão ouro, simplesmente porque não há ouro suficiente e acabamos aproveitando-o, e…
Michael Hudson – Não, há muito ouro. Não havia ouro suficiente para pagar o défice militar. Todos os meses os dólares que gastávamos no Vietname eram entregues aos bancos da Indochina que eram franceses, entregavam os dólares a Paris e o general De Gaulle trocava esses dólares por ouro. Tivemos que pagar em ouro pelo défice militar, que era a fonte absoluta dos défices da balança de pagamentos dos EUA nas décadas de 50, 60 e 70. Os Estados Unidos saíram do ouro para que pudessem dar-se ao luxo de fazer guerras sem a restrição de perder o controlo sobre o sistema monetário internacional.
Ellen Brown – Procurámos ouro no mercado interno mas não funcionou. Quero dizer, foi necessário usar frações dos empréstimos de reserva…
Michael Hudson – Sim, é claro que o ouro não funciona no mercado interno. Certamente não é um suprimento de dinheiro doméstico apropriado. Estou a falar apenas de acordos entre bancos centrais internacionalmente.
Ellen Brown – Disse que não deve ser negociado. Mas, se não, como se define a balança de pagamentos?
Michael Hudson – Pode ser negociado. Existe um mercado. A Ellen disse, corretamente, que os preços do ouro são manipulados. Bem, neste momento, os EUA e os bancos centrais estão manipulando o seu preço para mantê-lo baixo, da mesma maneira que estão manipulando o mercado de ações e títulos comprando antecipadamente. No caso do ouro, eles estão vendendo antecipadamente. Se continuarem a vender ouro a um preço muito baixo, as pessoas verão que, se podem comprar ouro a um preço mais baixo amanhã, por que deveriam comprá-lo a um preço mais alto hoje? Portanto, sim, o ouro é manipulado hoje em dia pelos EUA – especialmente pela equipa de proteção contra quedas que atua a nível internacional para manter o preço do ouro baixo desencorajando outros países e populações de comprá-lo como proteção contra o colapso do sistema financeiro.
Então, voltamos ao facto de o sistema financeiro não funcionar corretamente. Num sistema financeiro funcional, não seria necessária uma referência doméstica ao ouro. Temos um sistema financeiro doméstico que funciona bem sem ouro. Ouro é o que se tem quando o sistema financeiro se torna disfuncional e há um colapso.
Ellen Brown – Bem, quase parece que nesse caso se precisa de algum tipo de regulador global. Mas isso é como um governo mundial, uma aberração contra a qual todos lutamos.
Michael Hudson – Certamente que não queremos um governo mundial. No momento, todos os planos para um governo mundial são neoliberais. Eles visam essencialmente limitar, quebrar a regulamentação governamental democrática dos negócios das grandes empresas e monopólios. A ideia de um governo mundial é destruir a capacidade de qualquer governo democrático fazer as suas próprias leis no interesse do trabalho e da sociedade. Haveria um governo paralelo da riqueza, o governo dos grandes proprietários. É o que a Universidade de Chicago chama de regime de Direito e Economia. E isto é fascismo à escala internacional.
Há um livro maravilhoso de Quinn Slobodian de 2008, Globalists: The End of Empire and the Birth of Neoliberalism , mostrando como esses planos foram desenvolvidos pelos fascistas na década de 1930 e pelos promotores fascistas da Universidade de Chicago. Os promotores fascistas eram pessoas como Hayek e von Mises e os economistas de Genebra da Liga das Nações. Quando dizem que são anti-governo, eles são realmente anti-democracia. Eles pretendem um governo com punho de ferro por grandes empresas, grandes mineiras e grandes do petróleo – e acima de tudo, por grandes bancos. Essa é a razão pela qual as pessoas não confiam num governo internacional. Seria um punho de ferro internacional fascista, a maneira como as manobras das classes financeiras, classes rentistas e neocons organizam as coisas.
Ellen Brown – Concordo totalmente. É muito assustador. Queremos soberania para todas as pequenas nações, e até para as nossas pequenas cidades, Estados e assim por diante. Mas como se conseguirá que todos trabalhem juntos? Por exemplo, a Venezuela tem o problema da dívida, como qualquer país que está fortemente endividado com estrangeiros, fundos abutres ou qualquer outra coisa. Não existe um tribunal reconhecido universalmente onde se possa ir. Parece que, em algum nível, precisamos de algum tipo de esforço de colaboração em que todos concordemos com as regras.
Michael Hudson – Absolutamente certo. Claro que os Estados Unidos não reconheceriam nenhum tribunal internacional. Então, novamente, teríamos o resto do mundo pertencente ao tribunal e os Estados Unidos ficando de fora e não reconhecendo o tribunal. O meu [livro] Super-Imperialism: The Economic Strategy of American Empire (1968 & 2003) descreve a história dessa política.
Mas está certa: deveria haver um tribunal que reconhecesse coisas como dívidas odiosas para os governos. O problema da Venezuela é que, sob os ditadores que os americanos instalaram por assassinato e à força, a Venezuela comprometeu as suas reservas de petróleo como garantia para os seus títulos internacionais. Isto dá um direito adquirido aos credores para coloca-la em incumprimento e saquear as reservas de petróleo e os investimentos feitos nos Estados Unidos, adquiridos pelos distribuidores de petróleo. Então, sim, é preciso um conjunto de regras internacionais para anular dívidas incobráveis. Isto significa uma alternativa ao FMI. É preciso um anti-FMI. Em vez de agir em nome dos credores que impõem austeridade aos países, deve criar-se uma organização representando a sociedade. E o interesse da sociedade é crescer. Em vez de promover a austeridade como o FMI, promoveria a prosperidade. Em vez de financiar a dolarização do governo dos EUA e dar o controlo mundial aos EUA, faria parte do grupo de desdolarização.
Então, teríamos um grupo de nações pró-crescimento da economia mundial, usando financiamento para crescimento e desenvolvimento com crédito produtivo. Temos os Estados Unidos fornecendo crédito predatório, austeridade, cortando na Segurança Social, cortando o Medicare e tendo uma economia polarizada que está encolhendo e acabará parecendo a Grécia ou a Argentina. O resto do mundo seguiria políticas financeiras mais produtivas e menos oligárquicas. Este deveria ser o nosso sonho global. Mas tem havido pouca preparação para isso. Os neoliberais do setor financeiro reuniram um grupo de lobby quase conspirativo em Direito e Economia para promoverem as regras da Parceria Transpacífico e da OMC impedindo os governos de imporem multas antipoluição, regular monopólios ou fechar paraísos fiscais. Se você multar uma empresa de petróleo por poluir, o governo é obrigado, de acordo com essa lei internacional, a pagar às empresas de petróleo o que elas teriam ganho se continuassem envenenando o meio ambiente. Isto é…
Ellen Brown – Chocante.
Michael Hudson – Definitivamente. É uma forma de morte internacional.
Ellen Brown – Concordo totalmente.
A primeira parte desta entrevista encontra-se aqui .
NT
[1) O que quer que a social-democracia tenha feito ou defendido então (Lenine e Rosa Luxemburgo escreveram sobre isso) nada tem que ver com a social-democracia atual (seja de direita ou dita de esquerda) que defende e pratica o neoliberalismo e apoia o poder da finança privada. Quando muito limita-se a propor medidas cosméticas de propaganda, deixando intocável o essencial.
[2] O MMT é uma teoria macroeconómica que considera que a emissão de moeda deve constituir um monopólio público. O governo deve também usar a política fiscal para alcançar o pleno emprego, criando dinheiro novo para financiar as compras e os investimentos do sector público..
O original encontra-se em www.informationclearinghouse.info/54045.htm . Tradução de DVC.
[*] Presidente do Instituto para o Estudo de Tendências Económicas de Longo Prazo (ISLET), analista financeiro de Wall Street, professor de pesquisa de economia da Universidade de Missouri, Kansas City e autor de J is for Junk Economics  (2017),  Killing the Host  (2015),  The Bubble and Beyond  (2012), Super-Imperialism: The Economic Strategy of American Empire (1968 & 2003), Trade, Development and Foreign Debt (1992 & 2009), Finance as Warfare (2015), The Myth of Aid (1971) e outros.
O original encontra-se em www.informationclearinghouse.info/54045.htm Tradução de DVC.
Esta entrevista encontra-se em https://resistir.info

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