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Postado em 21/01/2016 10:43

“Mundo está à beira de onda de calotes épicos”

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Veterano do Bank for International Settlements (BIS):

Ambrose Evans-Pritchard (de Davos), Information Clearing House

O sistema financeiro tornou-se perigosamente instável e está à beira de uma avalanche de falências que testarão a estabilidade social e política – alertou destacado especialista em teoria monetária.

“A situação é pior do que em 2007. Nossa munição macroeconômica para combater desastres está essencialmente esgotada,” – disse William White, diretor do comitê revisor da Organização para Cooperação Econômica e Desenvolvimento [Organisation for Economic Co-operation and Development, OECD] com sede na Suíça e ex-economista chefe do Banco Internacional de Compensações Financeiras [Bank for International Settlements, BIS].

“As dívidas continuaram a aumentar ao longo dos últimos oito anos e alcançaram níveis tais em todos os cantos do mundo, que já se tornaram causa potencial de dano grave”, disse White.

“Ficará claro na próxima recessão que muitas daquelas dívidas jamais serão pagas, nem no principal nem nos juros, e isso criará desconforto para os muitos que pensam que seriam proprietários de patrimônio que valeria alguma coisa” – White disse aoThe Telegraph, às vésperas do Fórum Econômico Mundial em Davos.

“A única dúvida é se somos capazes de olhar a realidade cara a cara e enfrentar de modo ordeiro o que vem por aí, ou se o enfrentamento acontecerá em desordem. Debt jubilees já acontecem há 5 mil anos, desde os sumerianos.”*

A próxima tarefa que espera as autoridades globais é como administrar o fim da dívida – e portanto um reordenamento massivo de vencedores e derrotados na sociedade – sem desencadear uma tempestade política.

Mr. White disse que os credores da Europa são os que, provavelmente, enfrentarão maiores cortes. Os bancos europeus já admitiram $1 trilhão de empréstimos que não serão pagos: expuseram-se muito pesadamente a mercados emergentes e quase com certeza rolaram ainda mais dívidas ruins que nunca confessaram.

O sistema bancário europeu pode ter de ser recapitalizado numa escala jamais imaginada, e novas regras de ‘resgate’ de bancos significam que qualquer banco que receba depósitos acima da garantia de €100 mil, terá de ajudar a pagar pelo próprio resgate.

São alertas que têm ressonância especial, porque Mr. White foi uma das raras vozes na fraternidade da banqueiragem central que disse em claro e bom som entre 2005 e 2008 que a finança ocidental subia a caminho de tombar de cada vez mais alto, e que a economia global era suscetível de crise violenta.

Mr. White disse que o estímulo que advém do alívio quantitativo [ing. quantitative easing] e juros zero criado pelos grandes bancos centrais depois da crise do Lehman já vazou para todo o leste da Ásia e mercados emergentes, inflando várias bolhas de crédito e uma avançada nos empréstimos em dólares que foram difíceis de controlar nem mundo onde o fluxo de capitais é livre.

O resultado é que aqueles países foram agora também arrastados para o atoleiro. Combinadas a dívida pública e a dívida privada alcançam hoje jamais vistos 185% do PIB em mercados emergentes e 265% do PIB nos países do clube OECD, ambos já superando em 35% o máximo a que chegaram esses números no último ciclo de crédito em 2007.

“Mercados emergentes foram parte da solução, depois da crise Lehman. Agora, são parte do problema também” – disse Mr. White.

Mr. White, que é também o principal autor de recente relatório do G30 sobre o futuro dos bancos centrais depois da crise, disse que é impossível saber qual será o gatilho que deflagrará a próxima crise, porque o sistema global perdeu a âncora e está inerentemente à mercê da quebradeira.

Uma desvalorização chinesa tem, claramente, risco de gerar metástases. “Todos os grandes países estão engajados na guerra das moedas, mesmo que insistam que o ‘alívio quantitativo’ nada teria a ver com depreciação competitiva. Todos até aqui vêm jogando o mesmo jogo, exceto a China – até agora – e esse é jogo de soma zero: o vencedor leva tudo. A China poderia realmente aumentar a aposta.”

Mr. White disse que políticas de alívio quantitativo e de dinheiro fácil praticadas pelo Federal Reserve dos EUA e seus pares tiveram o efeito de jogar o gasto ainda mais para o futuro, o que se conhece como [lit.] “alisamento intertemporal” [orig. “inter-temporal smoothing”]. Com o tempo a coisa vira vício tóxico e depois perde toda a potência. No fim, o futuro pega você. “Por definição, significa que você não pode gastar o dinheiro amanhã” – disse ele.

Um reflexo de “assimetria” começou quando o Fed injetou estímulo demais para evitar uma corrida depois do crash de 1987. Desde então, as autoridades passaram a deixar que cada estouro seguisse o próprio curso – supondo que, adiante, poderiam sanear tudo em segurança – ao mesmo tempo em que passaram a responder com a mesma ação, a todos os choques. A crítica que o Banco Internacional de Compensações Financeiras faz é que isso levou a um viés de aliviamento perpétuo, com taxas de juros despencando abaixo, até, de sua “taxa de juros Wickselliana“, com cada ciclo de crédito.

O erro complicou-se nos anos 1990s, quando China e Europa oriental repentinamente uniram-se à economia global, inundando o mundo com exportações baratas num “choque positivo de oferta”. Preços de bens manufaturados em queda mascararam a inflação rampante de patrimônio [orig. asset inflation] que se formava. “Os políticos e propositores de políticas foram seduzidos pela inação, por causa de um conjunto de crenças reconfortantes, as quais, como hoje se vê, eram todas falsas. Acreditaram que, se a inflação estivesse sob controle, tudo ia bem” – disseMr. White.

No retrospecto, bancos centrais deviam ter deixado que a deflação benigna dessa fase (temporária) da globalização seguisse seu curso. Ao inflar essas bolhas de dívida, eles, em vez disso, incubaram o que pode vir a se comprovar como variante muito mais maligna, uma deflação de dívida “Fisherista” clássica à moda dos anos 1930s.

Mr. White disse que o Fed está agora numa enrascada horrível, tentando arrancar-se ele mesmo do ‘alívio quantitativo’ e pôr novamente o barco no prumo. “É uma armadilha de dívida. As coisas estão tão ruins que não há resposta certa. Se eles sobem o juro, será sórdido. Se não sobem, estão piorando as coisas”.

Não há saída fácil. Mas Mr. White disse que seria bom começo se os governos parassem de depender dos bancos centrais para fazer o serviço sujo. Todos devem retornar à primazia fiscal – se quiserem, podem chamar de procedimento keynesiano –, e lançar um ataque relâmpago de investimento na infraestrutura que se paga, ele mesmo, mediante maior crescimento.

“É sempre perigoso confiam em bancos centrais para resolver um problema de solvência, quando eles só sabem lidar com problemas de liquidez. É receita para desordem. Agora, estamos chegando ao limite” – concluiu Mr. White.*****



* Jubileu é palavra que tem complexo sentido bíblico para sumerianos e judeus: “jubileu é tempo de liberdade e celebração, quando todos receberão de volta a propriedade original e os escravos voltarão para suas famílias” (Levítico 25:10) (mas a Bíblia não esclarece quem sairá, hoje, de onde estiver: se os israelenses ocupantes, se os palestinos ocupados).

Jubileu da Dívida, como a expressão é usada hoje pode ser definido como ‘alívio quantitativo para o público externo’. Resume-se a um procedimento pelo qual o banco central passa a criar dinheiro novo mediante a compra da dívida soberana do governo: o banco central define um número arbitrário, escreve aquele número num cheque e deposita na conta bancária de cada indivíduo na nação. Devedores têm de usar o dinheiro assim criado para pagar o que devem. Os que nada devam podem usar o dinheiro como maná que lhe caiu repentinamente nas contas bancárias para “investir” onde lhes dê na telha. Esse, como se diz, é o único meio possível para ‘dar um restart‘ no “crescimento” econômico e finalmente tirar das manchetes o fantasma de crise financeira sem fim. É o último dos remédios de tipo “imprima-para-ver-se-cola”. (…) O problema é que, dado que todos ‘recebem’ meios para pagar, todos têm de pagar. É a chamada “armadilha da desalavancagem (…), derradeira tentativa de fingir que seria possível imprimir a própria prosperidade, mas só se o truque for feito do jeito “certo”  (The Modern Debt Jubilee, 19/8/2012,Zero Hedge)

Essa nota tornou-se necessária – nos parece –, porque o autor fala de alívio quantitativo para o público externo e de sumerianos numa mesma frase, tentando fazer-crer que, se a coisa já era feita há 5 mil anos pelos sumerianos, pode facilmente ser feita por qualquer Fed Reserve no século 21. E porque a ideia, nessa complexa intersecção, já está no ar há alguns anos. Noutra acepção muitíssimo diferente, a ideia de um Debt Jubilee – como simples perdão de dívidas – está também no centro da campanha iniciada pelo rock star Bono-U2, para perdão das dívidas de países pobres. [NTs].  

Tradução: Vila Vudu

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