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domingo, 24 maio 2026

Violência marca o cotidiano na República Dominicana

Santo Domingo (Prensa Latina) A violência parece estar avançando com uma normalidade preocupante na República Dominicana; homicídios, feminicídios e agressões fazem parte de uma rotina que reflete uma deterioração progressiva da convivência social e uma crescente sensação de insegurança.

Por Mariela Pérez Valenzuela

Correspondente-chefe na República Dominicana

Em apenas um dia, os relatórios oficiais mostram a magnitude do problema: uma mulher condenada por atacar uma menina com um bisturi em uma escola em Azua; um homem condenado por mutilar outro com um facão; um homem acusado de assassinar sua companheira em Santo Domingo Este; um policial acusado de matar seu parceiro e tentar executar um parente.

Os casos surgem um após o outro, quase sem pausa, até se tornarem parte integrante do cenário nacional.

A situação se torna mais grave quando se observa que os eventos não se limitam mais a cenários ligados ao crime organizado ou à delinquência comum.

As agressões ocorrem dentro de casa, em centros educacionais, em bairros e em relacionamentos amorosos, evidenciando uma crise social muito mais profunda e complexa.

FEMINICÍDIOS ALERTARAM

Os recentes assassinatos de mulheres em Santo Domingo Leste reacenderam o alarme.

O assassinato de Esmeralda Moronta na semana passada provocou indignação nacional, pois a vítima havia comparecido horas antes a uma unidade especializada do Ministério Público para denunciar intimidações e solicitar proteção contra seu ex-companheiro.

Pouco tempo depois, a mulher de 33 anos, mãe de duas crianças, foi perseguida e morta a tiros em uma mercearia no bairro de Alma Rosa.

Após o crime, a Procuradora-Geral Yeni Berenice Reynoso ordenou uma investigação para apurar se a Unidade Integrada de Atendimento à Violência de Gênero esgotou todos os protocolos de proteção estabelecidos para casos de alto risco.

A medida destacou a preocupação institucional com possíveis falhas nos mecanismos de prevenção e resposta.

No entanto, antes que o país tivesse terminado de processar esse evento, outro crime foi relatado em Santo Domingo Leste.

Indhira Carolina Beltré, de 33 anos, teria sido assassinada por Camilo Rodríguez, com quem mantinha um relacionamento, no bairro de La Toronja. O incidente ocorreu menos de 72 horas após o assassinato de Moronta e deixou duas jovens órfãs mais uma vez.

Para a jornalista e ativista afro-dominicana Maribel Núñez, o problema tem raízes culturais profundas associadas ao machismo estrutural que continua a marcar as relações entre homens e mulheres na sociedade dominicana.

Núñez disse à Prensa Latina que muitas mulheres são criadas sob padrões culturais que as reduzem ao seu gênero e as ensinam a depender economicamente de um homem, enquanto os homens são ensinados ao papel de provedores, embora atualmente mais da metade dos lares do país sejam sustentados e administrados por eles.

Ela argumentou que esse modelo patriarcal alimenta situações de violência e limita a construção de relacionamentos baseados no respeito e na igualdade.

Ele também argumentou que o Estado não possui uma política educacional para abordar o problema em profundidade.

Segundo a proeminente ativista de direitos humanos, as tentativas de implementar programas de educação com foco em gênero, visando promover a justiça social nas salas de aula, encontraram resistência por parte de setores conservadores com influência política e social.

A proximidade entre os dois eventos aprofundou o debate sobre a eficácia das políticas de prevenção e a necessidade de reforçar a proteção das mulheres que enfrentam ameaças ou ataques.

Houve também uma crescente percepção de que a violência sexista continua a se espalhar, apesar de algumas campanhas institucionais, ordens de restrição e unidades especializadas.

Até maio deste ano, 30 mulheres foram assassinadas por parceiros ou ex-parceiros, em comparação com 22 casos registrados no mesmo período de 2025, o que confirma a tendência crescente da violência de gênero.

O fato mais alarmante é que 86% das vítimas não haviam apresentado queixa prévia contra o agressor, o que dificulta a intervenção precoce das autoridades.

“Muitas mulheres não denunciam o abuso porque temem represálias, nem sempre confiam que as autoridades realmente as protegerão ou acham que nada acontecerá. A dependência econômica e a pressão social também desempenham um papel importante”, disse uma vizinha entrevistada informalmente pela Prensa Latina.

O Distrito Nacional e a província de Santo Domingo registraram 41% dos incidentes, com cinco e quatro casos, respectivamente. A maioria das vítimas tinha entre 18 e 35 anos, a mesma faixa etária predominante entre os agressores.

Em 12 desses casos, o agressor era o parceiro romântico e, em oito, o ex-parceiro, sendo que facas e armas de fogo estavam entre os métodos mais comumente utilizados.

O relatório também revelou que, nos primeiros três meses do ano, foram registradas mais de 17.000 denúncias de violência de gênero, violência doméstica e crimes sexuais no país.

As autoridades emitiram cerca de 7.700 ordens de proteção provisórias, embora apenas 2.234 tenham se tornado medidas formais aprovadas pelos tribunais, de acordo com dados oficiais.

Os dados refletem a persistência da violência contra as mulheres e os desafios enfrentados pelo sistema de saúde, especialmente porque a maioria das vítimas nunca denunciou formalmente seus agressores.

A PREOCUPACIONAL NORMALIZAÇÃO DA AGRESSIVIDADE

Mas o problema vai além dos feminicídios. Analistas e especialistas alertam que a República Dominicana enfrenta uma preocupante normalização de reações hostis. Conflitos cotidianos terminam em ataques mortais, discussões familiares rapidamente se transformam em violência e a intolerância parece estar ganhando terreno em diversos setores da sociedade.

O fácil acesso a armas de fogo e facas, a deterioração da saúde mental, o abuso de substâncias, o estresse econômico e a falta de mecanismos eficazes de mediação também estão entre os fatores que alimentam essa crise.

A isso se soma o impacto de ambientes sociais onde a brutalidade é frequentemente reproduzida como uma forma comum de resolver conflitos.

O Procurador-Geral da República alertou recentemente que o sistema de justiça enfrenta limitações estruturais para conter a crescente insegurança que afeta o país e afirmou que a solução fundamental deve ser construída a partir da família, das escolas e do tecido social.

As declarações do magistrado reabrem um debate que vem sendo discutido há anos na República Dominicana: o verdadeiro alcance das instituições judiciais diante da deterioração da convivência social e do aumento de comportamentos disruptivos que afetam as comunidades.

Reynoso reiterou também sua proposta de promover um Pacto de Estado contra a violência e o crime, uma iniciativa que busca envolver todos os setores e permanecer para além dos períodos governamentais e ciclos eleitorais.

“Chamamos isso de Pacto de Estado porque toda a sociedade precisa participar: associações de bairro, igrejas, escolas e todos os setores representativos”, explicou o magistrado.

O promotor insistiu que o compromisso em lidar com essas manifestações deve ser colocado acima de diferenças políticas ou partidárias.

“Não importa quem seja o presidente ou qual partido esteja no poder; o importante é que, como país, definamos o tipo de cidadãos que queremos formar”, disse ele.

VIOLÊNCIA COM IMPACTO SOCIAL

Por trás de cada processo judicial, existem famílias destruídas, crianças marcadas por traumas e comunidades vivendo com medo e incerteza.

Cada morte motivada por questões de gênero deixa crianças órfãs; cada homicídio impacta bairros inteiros; cada ataque alimenta a percepção de incerteza que afeta o cotidiano de milhares de pessoas.

As respostas não podem se limitar apenas a condenações judiciais após a ocorrência de tragédias. O país precisa fortalecer a prevenção, expandir o atendimento em saúde mental, aprimorar o controle de armas, reforçar a educação em valores e desenvolver políticas públicas capazes de agir antes que os conflitos se transformem em violência extrema.

É também urgente restaurar a confiança pública nas instituições responsáveis ​​pela defesa daqueles que estão ameaçados e pela garantia da segurança.

Quando uma mulher denuncia um abuso e, posteriormente, perde a vida, ou quando as disputas se repetem quase diariamente, o sentimento de vulnerabilidade coletiva aumenta.

A República Dominicana enfrenta hoje um desafio que vai além das esferas policial e judicial. Trata-se de uma crise social que exige respostas abrangentes e sustentadas do Estado, das famílias, das escolas e da população em geral.

Enquanto a violência continuar a fazer vítimas dia após dia, o país permanecerá preso em uma espiral de dor, medo e incerteza.

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