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segunda-feira, 22 julho, 2024

Uma Espanha com medo de bonecos

José Ribamar Bessa Freire

Españolito que vienes / al mundo te guarde Dios./

una de las dos Españas / ha de helarte el corazón

Antonio Machado – Proverbios y Cantares

Dois jovens titiriteiros espanhóis contratados pela Prefeitura de Madri encenavam sexta-feira (5), numa praça, A bruxa e dom Cristóbal, quando a polícia interrompeu o espetáculo, confiscou os títeres e prendeu os dois que passaram o carnaval atrás das grades, de onde só sairam condicionalmente na tarde da quarta-feira de cinzas. Estão sendo processados por “enaltecer o terrorismo” através do teatro de bonecos. Desta forma, o Poder Judiciário da Espanha nos faz lembrar o FEBEAPÁ – Festival da Besteira que Assola o País, criado no Brasil pelo humorista Stanislaw Ponte Preta.

O FEBEAPÁ colecionava as babaquices da ditadura militar, entre outros um fato similar que ocorreu no Paraná, há cinquenta anos, quando a polícia fechou o Jardim da Infância Pequeno Príncipe, em Curitiba, acusando um casal de titiriteiros – Euclides e Adair – de “ensinar subversão a crianças de três anos”. A ação da polícia, com repercussão nacional, foi ridicularizada por Stanislaw na crônica O Garotinho Subversivo, o que não impediu o fechamento do Teatro de Bonecos Dadá e a condenação do casal a quatro anos de prisão, obrigando-o a buscar o exílio no Chile e no Peru.

Meio século depois, numa Espanha democrática, um juiz se inscreve no FEBEAPÁ ao prender Alfonso Lázaro e Raúl Garcia da Companhia “Títeres desde Abajo” por solicitação da Associação de Vítimas do Terrorismo. É que um membro paranóico desta AVT transformou sua dor em ódio e denunciou  os dois à Polícia por causa de um cartaz que aparece numa cena, no qual se lê “Gora Alka-eta“, um jogo de palavras entre Gora ETA (Viva ETA, em língua basca) e a Al-Qaeda, organização jihadista.

Duas Espanhas

Em qual contexto aparece a “mensagem terrorista”? Ela é exibida pelo próprio boneco que faz o personagem do policial corrupto, na cena em que ele espanca e tortura a protagonista, até fazê-la desmaiar, quando planta o cartaz nas mãos dela. Tira, então, uma foto e forja provas contra sua vítima para incriminá-la. Longe de ser uma apologia ao terrorismo, trata-se de crítica à arbitrariedade polícial. Ou seja, “o que está acontecendo agora com Alfonso e Raul é exatamente aquilo que denunciam na peça” – disse a mulher de um deles. A vida imita a arte.

A prisão dos dois bonequeiros, que usa o antiterrorismo como pretexto para censurar o teatro popular, fez emergir a Espanha bipolar cantada pelo poeta andaluz antifacista, Antonio Machado, acirrando as tensões entre “uma Espanha que morre e outra Espanha que boceja”. Afinal, o ódio, a repressão e o fanatismo religioso exasperados na Guerra Civil Espanhola ainda não foram esquecidos. A lei de anistia, lá como aqui, impediu que os cadáveres de republicanos fuzilados pela ditadura de Franco fossem reconhecidos e sepultados por seus familiares.

A prisão dos dois artistas gerou protestos e manifestaçõe em várias cidades, organizados pela Confederação Nacional do Trabalho (CNT), entidade anarcosindicalista que faz parte da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT) e que considerou a prisão uma “injustiça obscena”. Provocou também intensa polêmica, que pude acompanhar na CNN, tendo de um lado a Espanha conservadora, autoritária e intolerante e, de outro, a Espanha libertária, que anseia por mudanças.

O líder do Podemos, Pablo Iglesias, e a prefeita de Barcelona, Ada Colau protestaram, indignados, contra a prisão e contra a censura. “Sátira não é delito. Na democracia sadia, no estado de direito, é preciso defender toda liberdade de expressão” – declarou a prefeita de Barcelona.

Já a prefeita de Madri, Manuela Carmena, eleita por uma coligação de esquerda, embora contrária à prisão, não suportou as críticas da oposição. Bateu fofo e considerou “erro grave” contratar o espetáculo. Sua secretária de Cultura, Célia Mayer, demitiu os responsáveis pela programação de carnaval, acatando a pressão dos conservadores.

Espanha de luto

Os advogados dos titiriteiros conseguiram liberdade provisória para os dois, porque o juiz, enfim, acabou entendendo que não há risco de fuga dos presos, nem a possibilidade de repetirem o “crime”, uma vez que os bonecos terroristas e o cenário explosivo foram devidamente embargados pela polícia e o contrato com a Prefeitura foi rescindido. Mas eles estão sendo processados, enquadrados no art. 578 do Código Penal e podem pegar até sete anos de prisão. Além disso, tiveram seus passaportes confiscados e devem comparecer diariamente diante do juiz ou numa delegacia de polícia.

– Se for para criminalizar a incitação à violência em peças e filmes, Rambo não pode ser exibido na TV e no cinema – ironizaram os advogados.

A peça censurada se inspirou numa farsa escrita pelo poeta Garcia Lorca para o teatro de bonecos “Los títeres de Cachiporra: Tragicomedia de don Cristóbal y la señá Rosita“. Os títeres de cachiporra compõem um gênero teatral popular no qual o pau come na casa de Noca, à semelhança do teatro de mamulengo do nordeste do Brasil, que distribui porradas de cassetete por todos os lados, como numa catarse coletiva. A irreverência, a sátira, o deboche, os insultos, o palavrão, a porrada, fazem desse gênero um espaço de transgressão e de crítica.

Lorca, que criou em 1931 o teatro ambulante La Barraca, não considerava o teatro de fantoches como uma expressão menor, mas como a forma mais acabada da subversão e da insubordinação. Um boneco, ao contrário de um ator, pode insultar impunemente até seu próprio público. O poeta escreveu quatro textos especificamente para o teatro de chachiporras. Foi assassinado em agosto de 1936, um mês depois do pronunciamento militar que deu origem à Guerra Civil e sepultado em local até hoje desconhecido.

– Que luto para a Espanha por haverem matado um poeta nascido de suas entranhas! Que vergonha no planeta! – chora Violeta Parra na canção “Un río de sangre corre” – atribuindo a morte de Lorca à “maldita canalha do carnaval”, a mesma que agora ataca covardemente dois jovens artistas populares alimentando o FEBEAPÁ. Que vergonha no planeta!

P.S. 1 – Que eu saiba, o fato que comove a Espanha não foi registrado pela mídia brasileira. No entanto, por ter atuado durante mais de um ano no Teatro de Bonecos Dada, no Peru, me sinto pertecente a tribo dos titiriteiros. Tudo que diz respeito a esta facção, me toca profundamente. Vitória na guerra, irmão!

P.S. 2 – Fotos pirateadas da mídia espanhola e das redes sociais.

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