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Internacional

Postado em 02/07/2021 8:19

Um mar pintado de preto-OTAN*

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© AFP 2021 / Daniel Mihailescu

 Pepe Escobar, Asia Times

Bem-vindos ao mais recente show da OTAN: a operação Sea Breeze [Brisa do Mar] começa hoje e vai até 23 de julho. Como coanfitriões, a 6ª Frota dos EUA e a Marinha da Ucrânia. Protagonista, o “Standing NATO Maritime Group 2”, de quatro a seis destroieres e fragatas, cujo papel é dar à OTAN capacidade para resposta operacional imediata.

The show, em idioma OTANês, não passaria de inocente ação-exibição de “reforço de contenção e defesa”. Os especialistas em OTAN contam que o exercício está “crescendo em popularidade” e atualmente exibe mais de 30 nações “de seis continentes”, 5 mil soldados, 32 embarcações, 40 aeronaves e “18 equipes de mergulho e operações especiais”. Todos dedicados a implementar e aprimorar aquele conceito mágico da OTAN: a “interoperabilidade”.

Agora, espantemos a neblina e vamos direto ao coração da matéria. A OTAN está projetando a impressão de que estaria tomando trechos seletos do Mar Negro em nome da “paz”. Os supremos artigos de fé da OTAN, reiterados no recente congresso, são “a anexação ilegal da Crimeia pela Rússia” e “apoio à soberania da Ucrânia”. Significa que, para a OTAN, a Rússia é inimiga da “paz”. Todo o mais é neblina de guerra híbrida.

A OTAN não só “não reconhece e não reconhecerá a anexação ilegal e ilegítima da Crimeia pela Rússia”, mas, também, denuncia essa “ocupação temporária”. Essa narrativa, redigida em Washington, é recitada por Kiev e virtualmente por toda a União Europeia.

A OTAN apresenta-se como dedicada à “unidade transatlântica”. Geograficamente diz-nos que o Mar Negro não foi anexado ao Atlântico. Mas não há impedimento à boa-vontade da OTAN – a qual, mostram os registros, converteu a Líbia, no norte da África, em terra de ninguém controlada por milícias. Quanto à intersecção de Ásia Central e Sul da Ásia, o coletivo da OTAN foi chutado sem cerimônias por um bando de Pashtuns maltrapilhos com Kalashnikovs pirateadas.’’

Conheçam Bucareste 9

A Casa Branca define seus aliados do flanco oriental da OTAN como Bucareste 9.

Bucareste 9 inclui os membros do Visegrad 4 (República Tcheca, Hungria, Polônia e Eslováquia); o trio Báltico (Estônia, Latvia e Lituânia); e dois vizinhos do Mar Negro (Bulgária e Romênia). Sem Ucrânia – pelo menos até agora.

Quando a Casa Branca refere-se a “fortalecer relações transatlânticas”, fala, sobretudo, de “cooperação mais próxima com nossos nove Aliados nas regiões da Europa Central e do Báltico e do Mar Negro, no pleno âmbito dos desafios”. Tradução: “pleno âmbito de desafios” significa “Rússia”.

Assim sendo, bem-vindos à volta, em grande estilo, ao Intermarium – “entre mares”, principalmente entre o Mar Báltico e o Mar Negro, com o Adriático como palco lateral.

Depois da 1ª Guerra Mundial, o impulso para o que se poderia converter em entente geopolítica incluía os três estados Bálticos, Iugoslávia, Tchecolosváquia, Hungria, Romênia, Belarus e Ucrânia. Esse caldo foi feito na Polônia.

Agora, sob o hegemon e a OTAN, seu braço armado, um Intermarium Báltico-Mar Negro reformatado está sendo promovido, como nova Cortina de Ferro da Guerra Fria 2.0 contra a Rússia. Por isso a incorporação definitiva da Ucrânia à OTAN é tão importante para Washington – porque solidificaria permanentemente o Intermarium.

007 à Monty Python

O episódio anterior de Sea Breeze aconteceu semana passada, num sketch farsesco de “Britânia Reina sobre as Ondas” encenado por Monty Python – com sobretons potencialmente explosivos.

Imagine um homem que espera ônibus num ponto em uma rua de Kent, e que encontra numa lata de lixo um emaranhado de páginas molhadas – quase 50 – de documentos secretos, nos quais se detalham as elaborações do Ministério da Defesa, sobre o deslocamento do destroier Defender, que partiu de Sebastopol, na costa da Crimeia, para ação explícita de provocação,.

Até um jornalista da BBC que viajava incorporado no destroier detonou o noticiário oficial em Londres segundo o qual se trataria de mera “passagem inocente”. De importante, as armas do Defender viajavam plenamente carregadas – no momento em que avançou duas milhas náuticas em águas russas. Moscou divulgou um vídeo documentando a farsa.

E ainda melhora. O emaranhado de páginas molhadas encontrado no Kent mostrou mais que discussões sobre a possível reação russa à “passagem inocente”; também revelou digressões sobre os Britânicos, “encorajados” pelos norte-americanos que deixaram ‘comandos’ no Afeganistão, ao partir, depois da retirada das tropas depois do 11/9.

Parece que aí está prova extra de que o combo anglo-norte-americano-OTAN jamais “deixará” realmente o Afeganistão.

Um vago “elemento do público” fez contacto com a BBC quando inocentemente descobriu os materiais geopoliticamente radioativos. Ninguém sabe se foi vazamento, armadilha, ou erro estúpido. Se o “elemento do público” fosse autêntico ‘sentinela da verdade’, teria procurado Wikileaks, não a BBC.

A “passagem inocente” só aconteceu horas depois de Londres ter assinado um acordo com Kiev para o “reforço das capacidades navais da Ucrânia”.

No front da reação russa, a porta-voz do Ministério de Relações Exteriores Maria Zakharova resumiu bem: “Londres teve ainda outra ação de provocação, seguida de um punhado de mentiras para escondê-la. Já não se fazem agentes 007 como antigamente…”

Enquanto isso, no front do Mediterrâneo, que a OTAN considera seu Mare Nostrum, dois Mig-31k russos de combate – que podem transportar mísseis Khinzal hipersônicos – foram deslocados semana passada para a Síria. O alcance do Khinzal recobre todo o Mediterrâneo de leste a oeste.

Em todo o Sul Global, a “paz global” promovida pela OTAN no porto de Odessa, no Mar Negro, evoca sombras de Líbia cum Afeganistão. Austin Powers, autodenominado Agent Double Oh! Behave! [aproximadamente “Agente Duplo Ah! Se Comporte!”] caberia perfeitamente nos “documentos secretos” da lata de lixo do Kent. “Ah… Se comporte!” aplica-se totalmente a Sea Breeze. Se não, pode acontecer de terem oportunidade para dizerem “alô” a Mr. Kinzhal.*******

* Talvez haja aí um eco de I want it painted, black, dos Rolling Stones, do álbum “Aftermath”, 1966. Esses ‘ecos’ são frequentes nos escritos de Pepe Escobar. Ouve-se aqui [NTs].28/6/2021, Pepe Escobar, Asia Times

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