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Postado em 01/12/2021 5:36

Um ano do desaparecimento de Lichita, a criança capturada pelo exército paraguaio

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Mural da campanha “Eran niñas” (“eram crianças”) no ato desta terça-feira (30) em Buenos Aires, em frente à Embaixada do Paraguai. – Fernanda Paixão
BUSCA POR JUSTIÇA

Família tem refúgio político na Argentina, onde reuniram centenas de militantes em frente à embaixada do Paraguai
Fernanda Paixão
Brasil de Fato | Buenos Aires (Argentina) |

Há um ano, a jovem Carmen Elizabeth Oviedo Villalba, conhecida como Lichita, foi vista com vida pela última vez no Paraguai. A família Villalba, perseguida pelo Estado paraguaio por ter integrantes na guerrilha Exército do Povo Paraguaio (EPP), ainda aguarda por respostas. Segundo relatos de testemunhas, Lichita foi capturada pela Força Tarefa Conjunta (FTC) do Exército paraguaio, quando tentava regressar à Argentina por terra, país onde parte de sua família possui refúgio político.

Em conjunto com organizações sociais em Buenos Aires, a família convocou um ato em frente à Embaixada do Paraguai na tarde desta terça-feira (30) em memória à data e em exigência por sua aparição com vida. Centenas de militantes acompanharam o pedido de justiça por Lichita e pelas crianças da família vitimadas pela perseguição do Estado.

Mirian Villalba, tia de Lichita e atualmente refugiada em Buenos Aires, apontou para a responsabilização de Sandra Quiñonez, Procuradora-geral do Paraguai. Mirian é mãe de uma das crianças assassinadas pela FTC, Lilian Mariana, de apenas 11 anos.

“Esta mulher é a responsável pela execução de Lilian e Maria Carmen, do desaparecimento forçado de Lichita”, disse. “Ela não fez absolutamente nada, assim como vários casos que ficaram impunes. Ela é quem autoriza o infanticídio, o desaparecimento, as torturas, as execuções de vários dirigentes camponeses, indígenas, de gente humilde que não tem voz.”

O discurso foi seguido de uma queima simbólica de um boneco que representava a procuradora.

Parto no cárcere

Em setembro de 2020, María Carmen e Lilian Mariana Villalba, argentinas de apenas 11 anos, foram mortas no Paraguai pelo exército, por serem parentes de membros da guerrilha Exército do Povo Paraguaio (EPP). As duas meninas teriam sido capturadas com vida, no dia 2 de setembro de 2020, e assassinadas posteriormente, na localidade de Yby Yaú, região de Concepción, pelas Forças de Tarefas Conjuntas (FTC), em uma operação elogiada pelo presidente paraguaio Mario Abdo Benítez.

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As crianças argentinas tinham viajado para o Paraguai com Laura Villalba, tia de Lichita e mãe de Lilian e Maria, para visitar os familiares que moram no país vizinho, incluindo os pais de Lichita, os presos políticos Carmen Villalba e Alcides Oviedo, detidos há mais de 17 anos na capital paraguaia, Assunção, por pertencerem ao EPP. Lichita e sua irmã gêmea, Tamara Anahí, nasceram na prisão. Alguns anos depois, elas foram viver com a tia na cidade de Porto Rico, na província argentina de Misiones.

“O desenraizamento é muito doloroso, mas estamos acostumados a lutar”, afirmou Mariana Villalba, avó das crianças, ao Brasil de Fato, no marco de um ano do desaparecimento de Lichita. “Tenho 77 anos, sou mãe de oito filhos e sempre resistimos.”


Integrantes da campanha “Eran niñas” protestam em Buenos Aires / Fernada Paixão

Ao lado de sua filha Mirian, contam que ainda esperam justiça também por Laura, detida ilegalmente pelo governo paraguaio, com causas armadas contra ela por terrorismo e homicídio.

“O problema da terra no Paraguai é de longa data”, contou Mirian Villalba. “Existe uma enorme desigualdade, onde 90% das terras estão em mãos de 2%. E não há trabalho, nem apoio à população rural e indígena, apenas repressão e encarceramento.”

Investigação do caso

Atualmente, há diversas denúncias realizadas em instâncias internacionais sobre os casos de violações de direitos humanos envolvendo a família Villalba. Na Argentina, a família é acompanhada pelo Grêmio de Advogados da Argentina, que apresentaram uma denúncia formal ao Comitê de Direitos Humanos das Organizações Unidas.

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Laura Taffetani, integrante do grêmio e advogada especializada em infâncias, destaca a conquista do ingresso de uma equipe antropóloga forense argentina no território para investigar o caso, uma vez que o Estado paraguaio não aparenta estar buscando Lichita ou investigando as denúncias de assassinatos.

“Conseguimos que o governo do Paraguai aceitasse criar uma comissão na qual intervenham países neutros, como Portugal e Espanha. Essa comissão, junto com a equipe de antropólogos forenses argentina, aparentemente entrarão no Paraguai para fazer os estudos”, diz. “Há uma questão importante sobre o tempo corrido dos fatos e a entrada da equipe, o que pode dificultar o caso. Mas temos confiança de que será exitoso”, afirma a advogada, que também esteve presente no ano nesta terça-feira.

“A situação no Paraguai é preocupante. As investigações de assassinato das meninas não avançaram em absoluto. Não há sequer indiciados. No caso de Lichita, não a estão buscando. Por isso suspeitamos que estão com ela”, afirma, ressaltando que as únicas indiciadas em todos os casos de violação de direitos humanos são Mirian e Laura Villalba, sua irmã, por “incumprir os deveres de cuidados com as crianças”. “É difícil de acreditar que as únicas sentadas no banco de acusadas sejam as vítimas e não os algozes”, aponta Taffetani.

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