“O sol nasceu quando era esperado e desapareceu quando chegou a hora”. (Chachá. Banquete de Lendas. 2017. pg. 1).
– O Amazonas vai tremer quando “A Sultana do Seringal” chegar às livrarias e revelar, tim-tim por tim-tim, quem foi que comeu a esfiha da minha amiga Charufe Nasser. O livro já está no forno com belíssima capa da artista plástica Rita Loureiro.
Foi assim, brincando, que anunciei na coluna Taquiprati (o1/2004), o livro da Charufe, cujo corpo será sepultado nesta segunda-feira (17) no Cemitério São João Batista. Ela morreu na sexta (14), aos 79 anos, no Hospital 28 de agosto, em Manaus e agora percorre os “verdes e floridos campos da Valhalla” em direção ao Salão dos Mortos.
Talvez sua última mensagem de voz gravada no dia do falecimento dentro do hospital tenha sido o pedido de socorro endereçado a seu amigo Mauro Campbell Marques, ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e Corregedor Nacional de Justiça. A voz da Chachá na gravação que o ministro me reenviou é clara e serena ao pedir remoção para outro hospital, onde seria melhor atendida:
– Oi Mauro. É a Charufe, estou aqui no 28 de agosto, tive 3 infartos, tou indo pro Francisca Mendes, talvez tenham que abrir meu peito. Não me abandona, maninho, vê se usa tua influência aí pra ver se me salvam, tá? Eu te amo, um beijo.
Mauro, que é amazonense e foi Secretário Estadual de Justiça, não a abandonou. Buscou parceiros de vida na Secretaria de Saúde, mas era tarde demais diante da extensão do entupimento. Na hora do perigo, ele esteve sempre presente. Há dez anos, acionado por sua mãe, dona Vivi, reparou uma injustiça lavajatista: a prisão de Chachá acusada de comercialização ilegal de tartarugas para seu restaurante, o que não foi comprovado. “Ela é tida por alguns como doida, mas safada e desonesta ela nunca foi” – testemunhou, indignada, dona Vivi.
– Charufe era uma pessoa muito querida, que viveu muito bem a vida. Que Deus a receba e a guarde feliz no paraíso. Fiquei muito triste com a partida dela – disse Mauro sobre a autora do livro A Sultana do seringal”.
Banquete da vida
O livro está repleto de histórias narradas por Chachá, sua vida no seringal Príncipe nos barrancos do rio Juruá, onde nasceu, com reflexões sobre a aventura da existência humana. Numa linguagem literária, ela se refere à herança judaica da família e ao processo de adaptação ao modo de vida da Amazônia. Registra a beleza da floresta, sem deixar de fora a violência das relações de produção nos seringais. Quem lê, sabe que é a voz de uma mulher. É a Chachá. Tal como ela é.
Essa sultana do seringal tem o lirismo e tudo aquilo que poetas precisam para o seu ofício. Adora brincar com as palavras, com aquela sacanagem lúdica que é convite irrecusável para o banquete da vida. No seu outro livro Banquete de Lendas ela brinca, sobretudo, com os temperos, fazendo surpreendentes combinações de peixes e frutas da Amazônia, com domínio absoluto da sintaxe gastronômica. Com Chachá, o verbo se fez peixe e habitou entre nós (Babá e João, 1: 1,14).
Conheci a Chachá em meados da década de 1950, quando ainda existia o guaraná de rolha. Eu ia com frequência à casa da minha avó Maria Elisa, na rua Mons. Coutinho, 380 e ela morava na esquina da Ferreira Pena. Nenhum dos dois lembra de ter interagido, embora recordamos fatos comuns vividos nessa época, ligados a brincadeiras de infância, em frente à casa do dr. Guálter e do Mário Covas.
Já adultos, nos anos 1980, fizemos amizade iniciada em vários encontros na sala de Umberto Calderaro, que ela frequentava, no jornal A Crítica. A Sultana dos seringais colecionava muitos causos que nos divertiam, como a aventura na balsa para Manacapuru, quando o seu carro caiu no rio Solimões com ela dentro, ou o seu encontro com Júlio Iglesias, que para contá-lo teríamos que pedir às crianças para saírem da sala. Calderaro e eu morríamos de rir.
Lentilha e sarapatel
Algumas histórias foram narradas em um jantar na sua casa, no início de 2004, em convite extensivo à minha irmã Helena e ao nosso sobrinho Rodrigo. O tema da conversa inicial era a eleição indireta na Câmara Municipal de Manaus do vereador Luiz Alberto Carijó (PP vixe, vixe), para um mandato tampão de prefeito, em razão da renúncia de Alfredo Nascimento (PL – vixe Maria) nomeado ministro dos Transportes. Chachá discordou do enfoque dado pelo Taquiprati:
– Você não deve criticar o Carijó, que é gente fina. Nos poucos meses em que ele for prefeito, vai cuidar muito bem de Manaus. Traidor foi o Alfredo, nesse sim pode sentar o sarrafo.
Pão Molhado, sobrinho querido, saiu em defesa do tio:
– O Taquiprati tá certo. Alguém tem que criticar de forma independente. Nos jornais de Manaus tem muito puxa-saco.
O papo continuou, enquanto Chachá servia a tartarugada depois de exibir o selo de procedência. Argumento daqui objeção dali, foi aí que Pão Molhado já inebriado com o delicioso sarapatel, lambendo os beiços, relativizou:
– Tudo bem, efetivamente (ele enfatizou o advérbio de afirmação) não podemos condenar antes de ver a atuação do novo prefeito. Concordo que o Carijó pode fazer uma boa administração.
No terceiro prato, deu uma vacilada e substituiu o pode pelo vai. Na sobremesa de cupuaçu, arriou os quatro pneus, abandonou seu tio e se rendeu definitivamente ao argumento de peso da culinária da anfitriã. Eu o perdoei. Ora, se Esaú vendeu a Jacó o direito de herança em troca de insosso prato de lentilhas (Gênesis 25:34), imaginem o PãoMolhado diante do sarapatel escandalosamente delicioso da Chachá, que derruba até poste. “Carijó será o melhor prefeito de Manaus” – ele disse ao se despedir dela. O espírito é forte, mas a carne é fraca (Babá, 1-20-24). Já no carro ele completou:
– Tio, ela tem muitos argumentos. (O maior deles foi o sarapatel, mas isso ele calou)
A macaxeira do Bush
Com o tempo, a Sultana se tornou personagem da coluna Taquiprati. Uma delas – Cheiro de macaxeira: Bush esnobou Manaus? – revela o papel da Chachá em um fato daquele momento: o cancelamento da visita programada do presidente George Bush à Manaus, em 2007, para propor a criação de usinas de etanol fabricado a partir da mandioca. Na nossa versão, três mulheres botaram Bush pra correr: Vanessa Graziottin, Marilene Corrêa e Chachá, que deu o tiro de misericórdia:
– Égua! Ninguém mais vai comer macaxeira, farinha e tapioca, nem tomar tacacá na nossa terra? Tudo vai virar gasolina?
Desbocada, fez gesto obsceno e mandou recado pro Bush com um grito em inglês que veio das profundezas da nossa infância:
– Manioc? Hold your wood and smell, son of bitch.
O que traduzido ao amazonês significa:
– Macaxeira? Pega no teu pau e cheira.
Chachá só fez adaptar a frase do Macaxeira, apelido de um louco de rua, que tinha a mania de organizar o trânsito da cidade. Quando jovem, Charufe, de bicicleta, furou o sinal da Ferreira Pena. Ele apitou. Ela gritou:
– Macaxeira!
A resposta dele foi a que Chachá deu para Bush. Essa história está registrada na crônica Bombalá e os loucos foliões (2010).
Palavrão, em sua boca, tinha feitio de oração. Um dia, ela me telefonou, informando que o deputado Wanderley Dallas (PMDB vixe vixe) fez um projeto para declarar, em 2015, o amazonês patrimônio cultural imaterial do Amazonas. Ele destacou as palavras piroca, xibiu, fofobira, pinguelo, baitola, toba, pimba, cabaço e furunfar. No Taquiprati A piroca é nossa sugeri que o deputado consultasse a futura tese de doutorado de Chachá, na qual ela relaciona essas palavras do seu dicionário, consciente que sem fofobira, a pimba é inútil e ninguém furunfa.
Textos cítricos
Chachá ria com sua performance tal como era recriada nas crônicas. Em Crucifixo de Pedra: cantada ou assédio? ela chora aos borbotões, ouvindo a música “El crucifijo de piedra” na calçada do Teatro Amazonas. Na arte de ser Manoel Octávio, a sultana dos seringais compete a paixão de Maomé pela jovem Aicha, “esplendorosamente bela na explosão dos seus 14 anos”. Sua imagem de Iara poderosa saindo das águas de um lago aparece na cuia bordada de Santarém em “O Tacacá de Bolsonaro”.
Chachá protagoniza algumas outras crônicas, muitas delas mordazes com sátiras a pessoas do seu círculo de amizades, quase todos políticos, que me chamaram de “corrosivo”. Ela preferiu termos mais culinários. Escreveu na apresentação de seu livro que meus textos eram “cítricos” e até apimentados. Mas sempre entendeu que não se tratava de aversão ou ódio pessoal e sim de críticas à atuação de agentes públicos, como pontificava Millôr Fernandes: “Jornalismo é oposição. O resto é armazém de secos e molhados”.
Eis o que eu queria dizer. Charufe guardou a sabedoria da convivência com o diferente, que vigorava na época do guaraná de rolha. Nunca deixou que divergências políticas ou ideológicas maculassem suas amizades. Vai fazer uma falta danada nesse mundo no qual se cultiva o ódio, se espanca e se mata alguém por pensar diferente. Saudades da nossa Sultana dos seringais, de seus comentários desbocados, de sua alegria, de sua arte da amizade, do seu desprendimento e de sua “loucura” e – Pão Molhado tem razão – de seus irrespondíveis argumentos culinários.
P.S. Referências:
1. Charufe Nasser e Liduína Moura. Banquete de lendas: mitos e sabores do Amazonas. Manaus. Grafisa. 2017
2. Charufe Nasser:A Sultana do Seringal. Manaus. Valer. 2006
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