A invasão do território, a matança e escravização de indígenas na exploração dos seringais, marcaram o fim do longo Tempo das Malocas na periodização estabelecida no livro Índios no Acre escrito por professores bilingues. O Tempo das Correrias seguido do Tempo do Cativeiro foram de extrema violência. Felizardo Cerqueira “amansava” os índios, picava o braço deles com agulha e passava tinta preta de jenipapo misturada com pólvora, tatuando-os com as letras FC para os outros “patrões” saberem que eram “propriedades” suas.
Nascida no dia 5 de maio de 1998 na aldeia Altamira, filha de Kupi Inu Bake e de Pãteani Banu Bake, Txima é casada, tem três filhas e aos 26 anos está grávida de dois meses de mais uma criança. Reside hoje na aldeia Arco-íris do Alto Rio Tarauacá, na Terra Indígena Seringal Independência do município Jordão.
– Da mesma forma que as pessoas, esses kene vão se casando uns com outros para dar à luz novos kene, como as letras do abecê que se juntam em inúmeras combinações e conseguem parir palavras diferentes. Por isso, comparo o kene com o alfabeto, capaz de criar um número infinito de palavras, cada uma com nome e significado diferente. “O kene é, além de desenho, escrita” – foi o que disse o pesquisador Huni kuĩ Agostinho Muru citado no catálogo, com palavras aqui ligeiramente “enfeitadas”.
Siriani vai tomar banho no igarapé e no meio do caminho encontra a jiboia, com o corpo cheio de desenhos. A jovem fica deslumbrada com o que vê. Ao retornar, a cobra havia se transformado em um homem com o corpo todo pintado com os mesmos kene. Ele pingou um colírio feito com uma planta sagrada nos olhos de Siriani e lhe disse:
– A aranha é a dona do algodão. Ela nos ensinou a tecelagem e, quando vestimos roupa artesanal desenhada com os kene, sentimos sua energia e força – disse Txima.
Um exemplo é o relógio dos Huni kuĩ, no Tempo das Malocas, que marcava as horas ouvindo a floresta: