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quinta-feira, 28 agosto, 2025

Trump, o juro e a tentação do atalho

Reuters

Allan Gallo*

A notícia mais recente a desestabilizar os mercados foi a tentativa do presidente Donald Trump de demitir a diretora do Federal Reserve, Lisa Cook, sob acusações de fraude hipotecária. Trata-se de uma ação inusitada, que já provoca forte reação institucional e amplia os temores sobre a independência do Banco Central norte-americano.

A investida, interpretada como uma manobra para influenciar a política monetária ao conquistar maioria no comitê do Fed, gerou efeitos imediatos: o dólar caiu em relação a outras moedas fortes e os juros de longo prazo subiram, refletindo o aumento do prêmio de risco. O episódio reacende uma questão institucional fundamental e, para muitos, já resolvida: qual deve ser o grau de independência de um banco central?

O mundo desenvolvido tem adotado modelos institucionais que conferem aos bancos centrais algum grau de autonomia ou independência. A razão é simples: a experiência histórica mostra que blindar a política monetária contra ciclos eleitorais e contra o voluntarismo político é, até aqui, a melhor forma conhecida de garantir previsibilidade, estabilidade e ancoragem de expectativas. Mas será que Donald Trump desconhece esse dado da realidade ou simplesmente escolhe ignorá-lo?

A resposta não é direta e exige certo grau de inferência. A seguir, três hipóteses que podem ajudar a explicar o comportamento do presidente americano:

Pressão por juros mais baixos em ano eleitoral

Trump deseja estimular a economia com juros reduzidos, impulsionando crédito, consumo e atividade antes das eleições de novembro. Como o Fed resiste a cortes imediatos, ele tenta impor maioria dentro do FOMC (Comitê Federal de Mercado Aberto, na sigla em inglês) para forçar a redução das taxas.

Visão personalista do poder executivo

Trump opera com uma lógica autoritária e entende que, como presidente eleito, deve ter controle sobre todos os braços do governo, inclusive os independentes. O problema é que isso fere o princípio da separação entre funções técnicas e políticas, basilar em qualquer república funcional.

Reação ao establishment tecnocrático

Para muitos, o Fed representa um bastião da tecnocracia que resiste à vontade popular e bloqueia projetos de governo. Dentro dessa narrativa, “limpar” a instituição de vozes críticas ou autônomas é visto como um ato de justiça política e não como uma ruptura.

É preciso dizer que essas hipóteses não são mutuamente excludentes. Mas, qualquer que seja o diagnóstico, o remédio proposto por Trump está equivocado. Ao sacrificar instituições americanas no altar do curto prazo, o presidente dos EUA cede à tentação do atalho e o resultado já é conhecido: comprometimento da credibilidade do Fed, desancoragem das expectativas de inflação, alta dos juros de longo prazo e maior volatilidade da moeda americana.

*Allan Gallo, professor de Economia na Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM). Pesquisador do Centro Mackenzie de Liberdade Econômica (MackLiber).

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