Cobrança: Aroeira/247
Por Jair de Souza
Um dos temas mais veiculados nos meios de comunicação nos últimos dias refere-se a uma suposta insanidade mental que estaria acometendo o atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Não há dúvidas de que a gestão do atual mandatário da potência estadunidense está se caracterizando pela execução de crimes abomináveis contra os povos de outras nações, assim como contra a população de seu próprio país. Porém, acredito que atribuir a culpa principal por todas essas perversidades à insanidade mental de seu dirigente máximo é muito mais uma rota de fuga das verdadeiras causas do que uma preocupação real na busca de eliminar os problemas.
Além do mais, a imposição da ideia de que as horrendas atrocidades que estão sendo perpetradas são devidas a deficiências no funcionamento mental do comandante do sistema podem ser algo muito útil quando se quer isentar o próprio sistema de quaisquer responsabilidades. Não nos esqueçamos de que isto já ocorreu com outra conhecida figura histórica, menos de um século atrás. Após a fragorosa derrota da máquina de guerra da Alemanha nazista pelas forças lideradas pela União Soviética, muitos daqueles que até então tinham prestado apoio total às empreitadas de Hitler, de repente, passaram a acusá-lo de ser megalomaniaco e únicos prejudicados por tudo de maligno que o nazismo havia causado.
Para deixar claro que acabou de ser aqui, basta rever a história e prestar atenção e comparar o papel desempenhado por grandes corporações, como Siemens, Krupp, Volkswagen, etc., durante o período em que o poder nazista se impunha com as posições por eles empregados depois da derrota acachapante sofrida. Assim, enquanto o vento soprava a favor, todo o grande capital germânico estava alinhado unissonamente a seu Führer, mas quando este e seu projeto foram derrotados e suas pretensões supremacistas impedidas de seguir adiante, as grandes corporações, através de seus meios de comunicação, trataram de se desvencilhar de todos os vínculos evidentes com o sistema. Em consequência, todas as desgraças causadas foram atribuídas à loucura de Hitler.
Entretanto, em vez de acreditar que sistemas intrincados e poderosos são levados a adotar práticas tão monstruosamente cruéis por influência e determinação exclusivas de uma só pessoa é, simplesmente, inverter a ordem dos fatores. Nem Hitler nem Mussolini, por mais loucos, megalomaníacos ou ditatoriais que fossem, impediram os rumores da Alemanha e da Itália se não tivessem contato com o apoio de grupos de forças significativas. Se eles ousassem tomar medidas que contrariassem os interesses de todos os grupos de poder não permaneceriam nem um dia no comando de seus países. E por que a coisa seria diferente no caso de Trump e dos Estados Unidos?
O certo é entender que são as forças reais existentes que requerem que o comando do sistema seja exercido por alguém que esteja disposto a levar adiante os projetos de seu interesse. Por isso, nesta etapa em que os conglomerados capitalistas dos Estados Unidos estão perdendo terreno para concorrentes de outras nações, especialmente para a China, já que as “demências” de Donald Trump parecem muito a calhar em seu intuito de impedir a consumação de sua perda de hegemonia.
Como o setor mais agressivo do grande capital estadunidense na atualidade é composto pelos megaconglomerados da comunicação digital (as conhecidas bigtechs), são eles que parecem dar o mais significativo aval às ações “intempestivas” trumpistas, visto que são os que mais têm a ganhar com a persistência do clima de belicosidade. É que sua associação íntima com a indústria armamentista torna a guerra um negócio altamente lucrativo para eles.
Em outro momento, as forças dominantes do grande capital gringo viam suas perspectivas de realização de negócios mais bem representadas em uma figura que aparentava ter alto grau de senilidade. E era assim porque, independentemente da circunstância, os centros de decisão em tudo o que dizia respeito aos seus interesses estavam firmemente sob seu controle.
Pelo que tentamos expor até aqui, é a insanidade do sistema do imperialismo capitalista que provoca as grandes tragédias que estamos padecendo. Portanto, não faz sentido protestar contra o desequilíbrio mental de Donald Trump, se não tivermos claro de que figuras como ele são produtos dos próprios sistemas em que estão inseridos. Em consequência, se quisermos de fato impedir que tamanhas “loucuras” continuem concomitantes, precisamos nos empenhar numa luta para pôr fim ao sistema que depende de tal “insanidade” para existir. Em outras palavras, a luta principal deve ser travada contra o imperialismo.