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Cultura

Postado em 11/12/2020 1:08

Triste conto de natal triste

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Silas Corrêa Leite*

ANGELUS

Deitada na tosca cama velha de arame e capim, relendo pela milésima vez a mesma fotonovela antiga, Ione parece não prestar atenção no quiproquó que vem da cozinha. A mãe, anciã, em conversa fiada com a vizinha berebenta. O pai afina a clarineta de um amigo que toca na banda da Prefeitura.

Ione queria poder passear em todas as ruas do mundo, com o mais belo vestido branco, o mais belo chapéu de nuvens, cercada de borboletas de prata. Mas resta-se ali, sozinha e enfebre. Alma nau despedaçada por dentro. Em sua intimidade.

Já fez seu turno diário, ao lado do pai, como a repetir a cruz por anos que parecem séculos.

Já andou pelas principais ruas periféricas de Itararé, recolhendo, medrosamente, os minguados tostões cada vez mais raros, os olhares de reprovação social e o atiço de cães de guris xucros, broncos.

Pela janela do quartinho da paredemeia, vê passar em rápido caracol de movimentos, um colibri azul-marinho com penacho amarelo e rubro. O pai sola, com dificuldades, um início de “Noite de Paz… Noite de Amor”: música de fim de ano. É Natal. A música doce parece bater do pier do pisado coração.

A mãe fala de bolinhos de chuva e receitas caseiras de cuque. Ione tem toda a tristeza do mundo no olhar e nos ombros. A vergonha aberta para todas as janelas da cidade, foi ali canalizada para seu olhar de quase menina-moça. Alquebrada em sua vaidade, Ione sente-se constrangida e chora escondido.

QUERIA SER DANÇARINA

Queria um dia poder esquiar na neve. Ter ao seu lado os familiares todos, ricos e sadios. Importantes. Pai e mãe na mesma contradança de sua felicidade. Mas resta-se ali, com sua sina. Seu destino de cusarruim…

Agora o pai força uma valsa que tinha trazido de longe, da Europa. O amigo de seu velho genitor batuca num tampo de móvel usado, um trambolho rústico qualquer. A mãe ralha com um cachorro rueiro. A vizinha parece ter ido embora. É quase hora do Angelus.

Não podia estudar, viajar sozinha, conhecer todos os oceanos e continentes. Não podia ser ela mesma, como queria e sonhava.

Gostaria de ter um sapatinho fino, azul, para ir à missa de domingo como as gurias vizinhas que a evitam.

Ione pensa na triste vida de pobre. E cisma.

Nesse enviesado de olhar, Ione é desperta pela mãe, que toda cândida vem cobrar:

– Filhinha… vem jantar, vem… Seu pai já tomou Comital e daqui a pouco vai precisar de você para tirar a prótese da perna.

Amanhã vai ter muito trabalho, vocês vão pedir adjutório no bairro de Santa Cruz.

Você precisa deitar cedo.

 

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*Silas Corrêa Leite, Professor, Geografia História, Jornalista Comunitário e diplomado conselheiro em Direitos Humanos e Cidadania – SP, Brasil. De Itararé-SP.  Prêmio Lygia Fagundes Telles Para Prof. Escritor, Governo de SP; Prêmio Literal, Fundação Petrobrás, Curadoria Heloisa Buarque de Hollanda; Prêmio Biblioteca Mário de Andrade de Poesia, Secretária Municipal de Cultura de SP/Marilena Chauí; vencedor do Primeiro Salão Nacional de Causos de Pescadores, promovido pela USP. Autor de vários livros, entre eles Porta-Lapsos, Poemas, Campo de Trigo Com Corvos, Contos, Desvairados Inutensílios, Poemas, romances: GOTO, A Lenda do Reino do Barqueiro Noturno do Rio Itararé; TIBETE, De quando você não quer mais ser gente; O Marceneiro, A última tentativa de Cristo; GUTE-GUTE, Barriga experimental de repertório, O lixeiro e o presidente, etc. Estudou Geografia, é Especialista em Educação pela Universidade Mackenzie.  Colabora em mais de 800 sites, até na América Espanhola, Europa, Ásia e África. Seu Estatuto de Poeta foi vertido para o espanhol, inglês, francês e russo. Entrevistado nos Programas Momento Cultural, de Márcia Peltier, na Rede BAND de Televisão, e Metrópolis e Provocações (Antonio Abujamra), TV Cultura de SP. O autor está em quase todas as redes sociais. Contatos: [email protected] O autor está presente em todas

 

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