25.5 C
Brasília
sábado, 7 fevereiro 2026

Três fatos sequestrados pela mídia brasileira

Por Ângela Carrato, no site Viomundo :

Sequestro 1

A solenidade do Dia da Democracia, comemorada na quinta-feira (01/08) pelo governo federal, para marcar os três anos da derrota da tentativa de golpe de estado no Brasil foi sumariamente boicotada pela mídia corporativa. Boicote que se estendeu às coleções de manifestações populares que aconteceram nas capitais e principais cidades.

Ao contrário dos protestos manipulados contra a então presidente Dilma Rousseff, entre 2013 e 2016, que tiveram nesta mídia uma espécie de porta-voz e espaço para a sua convocação, a comemoração da vitória da democracia foi desconsiderada.

Desconsideração muito grave, num momento em que o ditador que governa os Estados Unidos, Donald Trump, ataca a Venezuela, sequestra o seu presidente, Nicolás Maduro, e segue ameaçando países da América Latina e da Europa, como a Dinamarca.

Razão pela qual a vitória brasileira se reveste da maior importância por ser exemplo para o mundo da resiliência de nossas instituições.

As edições dos “jornalões” brasileiros no 8/1 foram simplesmente patéticas. Nenhuma manchete sobre os dados, nenhum editorial sobre a derrota dos golpistas e nenhum texto dos amestrados colunistas de sempre sobre o assunto.

Depois das cuidadosas investigações da Polícia Federal, dos processos e julgamentos com direito à ampla defesa e das pesadas condenações do núcleo duro golpista, esta mídia tem a cara de pau de ainda tratá-los como simples “vândalos”.

O Globo, por exemplo, publicou uma minúscula chamada no canto esquerdo da capa (área de menor visibilidade para quem entende um mínimo de programação visual), com o seguinte texto: “Três anos depois, prejuízo com o vandalismo no 8/1 ainda não foi ressarcido”.

A Folha de S. Paulo seguiu a mesma linha: “Obras destruídas no 8 de janeiro se transformam em outras peças de arte”. Já O Estado de S. Paulo não publicou nada.

Os “vândalos” não se limitaram a destruir patrimônio público e obras de arte como tentar fazer crer tais publicações. Seus líderes tinham como objetivo derrubar o governo legitimamente eleito e assassinar o presidente Lula, seu vice, Geraldo Alckmin, e o ministro do STF, Alexandre de Moraes, através do sinistro plano “Punhal Verde e Amarelo”.

Se fosse nos Estados Unidos, a “democracia” tão venerada por esta mídia, o ex-presidente Jair Bolsonaro e sua corja de militares golpistas escapariam da pena de morte.

O boicote às comemorações do 01/08 se manteve ao longo do dia e chegou à edição do Jornal Nacional com direito a todas as omissões e manipulações possíveis.

Às 20h15, na chamada que antecedeu o telejornal, a jornalista Renata Vasconcellos, não disse nada sobre o assunto. No telejornal, a cerimônia de 01/08 no Palácio do Planalto foi transmitida a passant, com o objetivo de esconder a audiência que o evento estava superlotado.

A fala do presidente Lula foi exibida como algo prosaico, com a câmera fechada no rosto dele. Já a decisão do presidente de descer a rampa e ir se encontrar com a multidão na frente do Palácio foi apresentada com tal velocidade, que somente a vontade de escondê-la é capaz de explicar.

Como disse o empresário Roberto Marinho, patriarca do grupo Globo, tão importante quanto o que exibo é o que deixo de exibir. Falar a qual podemos afirmar que igualmente importante é a maneira como uma informação é exibida. Quanto mais rápido, menos chance de ser assimilado pelos telespectadores.

É importante assinalar ainda que as manifestações populares que aconteceram em todo o Brasil mereceram apenas uma referência de que foram convocadas “por centros sindicais e sindicatos”, sem uma imagem sequer para ilustrar-las. Mais explícito impossível: o JN fez de tudo para tentar mostrar Lula num evento isolado e distante do povo, quando foi exatamente o contrário que se deu.

O sequestro da notícia pelo JN não terminou aí.

O JN informou que, no evento, o presidente Lula vetou o projeto da dosimetria, que prevê redução de penas para os golpistas presos. Foi dado voz apenas a três notórios parlamentares aliados deles – Sóstenes Cavalcante, Paulinho da Força e Rogério Marinho. O trio anunciou que vai mobilizar o Congresso Nacional para que o veto seja derrubado.

Marinho chegou ao absurdo de dizer que o veto era um ato de “vingança política”, esquecendo-se de que a notificação se deu pela Justiça e todo o devido processo legal foi respeitado.

O sequestro da notícia persistiu na sexta-feira (9).

O Globo, numa chamada de capa sem destaque, noticiou que “Lula barra redução de penas do 01/08, e Congresso prepara derrubada do veto”. A mesma toada se repetiu no Estado de S. Paulo, com a Folha superando os dois com o editorial “Há um tanto de teatro no veto de Lula ao projeto da Dosimetria”.

A qual teatro esta publicação, porta-voz do mercado financeiro, se refere? Lula cumpriu o que anunciou que faria durante entrevista coletiva em dezembro e agiu em estrita sintonia com o que a lei lhe faculta. Se a oposição quer o veto presidencial é outra questão.

Derrubada que não será tão simples assim, uma vez que as praças, ruas e as pesquisas de opinião, mostram que a população brasileira não aceita anistia para golpistas. Fato que está na raiz do JN e todos os demais veículos da mídia corporativa foram omitidos as manifestações populares no 01/08, marcadas exatamente pelo “Sem Anistia”.

Enquanto isso, essa mídia segue dando espaço para o mimimi do presidiário Jair Bolsonaro e de sua família na mesma tentativa de garantir-lhes alguma empatia e desarraigar a Justiça.

Todas estas ações da mídia corporativa brasileira integram a chamada guerra híbrida, também conhecida como guerra cibernética, presente entre nós desde 2013.

Como já tive oportunidade de abordar em outros artigos, a guerra híbrida precede e integra as ações de mudança de regime ou mesmas ações tradicionais de guerra. Ela se constitui na utilização da mídia para construir, junto com grupos e populações, cenários que interessam às potências e aos países imperialistas (Estados Unidos, Inglaterra, Israel), incluindo a destruição de recomendações de líderes políticos que não compactuam com seus interesses.

Sequestro 2

O que está acontecendo na vizinha Venezuela é outro exemplo deste tipo de atuação.

A invasão de um país soberano por força militar dos Estados Unidos, o sequestro de seu presidente e o anúncio de que será julgado por acusações descabidas em solo estrangeiro deveriam ser motivo de repúdio por parte de qualquer veículo de comunicação que se diz democrático e defensor dos direitos humanos.

Foi o oposto disso o que ocorreu.

A mídia corporativa brasileira aplaudiu o ataque dos Estados Unidos à Venezuela e vibrou com o que chamou de “captura do ditador Maduro”. Se tal postura, por si só é gravíssima, a situação ganha contornos sombrios quando se sabe que a maioria da população brasileira ainda tem nesta mídia sua principal fonte de informação.

Guerras híbridas, para serem eficientes, começam bem antes do objetivo almejado. Se no Brasil datam de 2013, na Venezuela chegou em 1998, logo após a vitória eleitoral de Hugo Chávez. Ao longo dos anos de governo bolivariano, em especial a partir de 2013, a Venezuela tem sido alvo de um total de 1.047 avaliações econômicas e financeiras.

Durante a pandemia de covid-19, foi proibido pelos Estados Unidos de comprar vacinas atés e insulina para o tratamento de diabetes.

Em 2019, a Justiça dos Estados Unidos tomou na mão grande cinco refinarias venezuelanas bem como a rede de distribuição de combustíveis, Citgo, braço da estatal petroleira PDVSA, na terra do Tio Sam.

No ano anterior houve uma vez que o Reino Unido, através do Banco da Inglaterra, confiscou uma reserva de 31 toneladas de ouro da Venezuela, valendo bilhões de dólares, por não reconhecer o governo Maduro como legítimo, priorizando o golpista Juan Guaidó.

Se a população brasileira e mundial tivesse conhecimento disso, será que continuaria aplaudindo os Estados Unidos e países da Europa que combatem Maduro? Será que continuariam a chamar Maduro de ditador, por defender o petróleo e os interesses de seu país e de sua população contra as garras do imperialismo ianque e europeu?

Se a guerra híbrida não tivesse conseguido pintar Maduro como “ditador”, sua “captura” teria sido aplaudida?

Como a farsa envolvida nas razões do ataque à Venezuela começa a ruir, quem está em maus lençóis é a mídia corporativa brasileira, que consegue ser mais subserviente e canal do que um semelhante estadunidense.

Enquanto as edições do The New York Times e The Washington Post estampavam manchetes mostrando que Trump recuperou a principal denúncia contra Maduro, a de que chefiava o cartel de narcotráfico Les Soles, a mídia daqui faz cara de paisagem.

Cara de paisagem que se explica, porque foi ela, valendo-se de reportagens mentirosas produzidas sob os auspícios de veículos estrangeiros, que atestavam a existência deste “cartel perigoso”.

Como agora os jornais e suas emissoras de TV e rádio diriam ao seu respeitável público que era tudo mentira?

Que seus correspondentes nos Estados Unidos e Europa se limitam a divulgar boletins oficiais da Casa Branca e do número 10 da Downing Street, coração executivo do governo inglês?

Como iriam expor sua subserviência aos interesses estrangeiros, logo eles que se apresentam como infalíveis e portadores de “informações isentas e objetivas”?

Por isso, a mídia corporativa agora se empenha em entreter a opinião pública com a novela sobre “Quem traiu Nicolás Maduro”, de forma irônica que ela se referiu ao historiador Manuel Domingos Neto. Um dos principais especialistas brasileiros em defesa nacional e profundo conhecedor dos golpes imperialistas dos Estados Unidos na América Latina, ele está atento ao protagonismo desta mídia nas guerras híbridas.

Desde que o mundo é mundo, em todas as guerras sempre houve traidores. Nunca faltou quem vendeu ou detalhou seus por dinheiro. No caso da Venezuela, a grana oferecida pelos Estados Unidos para informantes sobre Maduro era alta: US$ 50 milhões.

Mesmo assim, esta mídia deveria ter um mínimo de cuidado antes de divulgar informações peremptórias, desencontradas e sem lastro na realidade. É o caso de “líderes chavistas entregaram a cabeça de Maduro”, de “Maduro ter feito acordo com Trump envolveu a própria captura” de que “a captura aconteceu sem qualquer resistência”, de que “o povo venezuelano comemorou esta captura” e “a vice-presidente que sobreviveu interinamente, Delcy Rodrigues, já se curvou às determinações de Trump”.

Uma mentira acaba puxando outra e é isso que esta mídia tem feito.

Para tanto omite de seu público que 32 cubanos que integravam a guarda pessoal de Maduro foram mortos. Que no total, até agora, 60 venezuelanos foram mortos pelas forças dos Estados Unidos durante os bombardeios em Caracas e outras regiões da Venezuela. Nenhuma palavra sobre multidões foram tomadas nas ruas em defesa de Maduro e na revolução bolivariana em Caracas e em diversas partes do mundo, inclusive nos Estados Unidos. E, talvez a mais grave de todas as mentiras: as afirmações de que Delcy e a cúpula chavista foram acertadas com Trump.

Delcy e a liderança bolivariana têm agido com a cautela que a situação exige, diante do poder descomunal que enfrentam. Já as mentiras e fanfarronices de Trump começaram a aparecer.

A prisão de Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, pode se converter num tremendo desgaste para a já baixa avaliação do governo Trump. Com o recuo na principal acusação, as que sobram são ainda mais pífias: portar armas e integrar rede de corrupção na Venezuela.

Qual dirigente de um país soberano não tem direito a portar armas? Desde quando os Estados Unidos têm competência para julgar questões internas de países soberanos?

Para piorar a já péssima situação desta mídia, vale ressaltar que não se viu um único editorial indignado com as ameaças de Trump à Colômbia, México, Cuba e à América Latina, que ele e seu secretário de Estado, Marco Rubio, tratam como “quintal dos Estados Unidos”.

Antes de mudar de assunto, gostaria de assinalar que também sentimos falta das “valorosas feministas brasileiras”. Quem se lembra que ficou indignado e recebeu ampla cobertura da mídia para atacar o presidente Lula, quando ele se referiu à ministra Gleisi Hoffmann como “bonita”, o que ela teve efeito? Essas mesmas feministas não abriram o bico quando a primeira-dama da Venezuela, na reunião perante a Justiça de Nova York, apresentou um enorme hematoma em um dos olhos, lesões pelo corpo e algumas costelas quebradas, de acordo com relato da mídia estadunidense.

Haja feminismo seletivo!

Sequestro 3

Outro exemplo emblemático de guerra híbrida ou guerra cibernética é o caso da liquidação do banco Máster, da propriedade do picareta e do trambiqueiro Daniel Vorcaro. Desde que foi oficializada pelo Banco Central, esta certíssima liquidação vem sendo alvo de questionamentos pela mídia corporativa brasileira.

Tentei-se, num primeiro momento, minimizar o impacto do calote de R$ 12 bilhões que Vorcaro deu em seus correntistas, para concentrar-se, em tempo integral, numa suposta ilegalidade que esta mídia defendeu que teria poder para colocar abaixo da República. Por República leia-se o governo Lula e o ministro Alexandre de Moraes.

A jogada, como agora se sabe, foi a seguinte: um dos colunistas amestrados do Grupo Globo denunciou, se valendo apenas de fontes em off, que Alexandre de Moraes teria interferido junto ao BC para salvar o Mestre. A única prova apresentada foi um contrato sem assinatura entre o escritório da esposa de Moraes e este banco, encontrado pela PF no celular de Vorcaro.

A denúncia de O Globo, como sempre, foi seguida por muitos veículos da mídia corporativa, não faltando até quem exigisse o impeachment de Moraes. Tamanha fúria baseada apenas em suposições e convicções tinha razão de ser. Se as suspeitas prosperassem, o ministro teria a sua autoridade contestada inclusive no que se referisse ao julgamento e reportagens dos golpistas de 8/1.

Nesta altura do campeonato, não há dúvidas sobre a quem interessava desmoralizar Moraes e enfraquecer o governo Lula: os golpistas de sempre dentro e fora do Congresso Nacional.

Os ataques só cessaram, quando o procurador-geral da República, Paulo Gonet, disse o óbvio: não cabe interferência pública no contrato entre particulares. Dito de outra forma, que a mídia tratou de comprovar que Moraes usou de sua influência para evitar a liquidação do banco Máster.

Foi aí que esta mídia ficou em apuros e mudou de assunto. Como comprovar tal influência, se ela é negada por Moraes e pelo presidente do BC, Gabriel Galípolo? Mais ainda: a liquidação já ocorreu e quem vem tentando reverter são exatamente os integrantes do Centrão no Congresso Nacional, com suporte da própria mídia.

Ao contrário de apurar como uma picareta como Vorcaro conseguir enganar tanta gente e por tanto tempo, esta mídia passou a dar força à absurda tentativa do ministro Jonathan de Jesus, do TCU, de questionar a autoridade do BC para liquidar o banco. Esta mesma mídia que, sintomaticamente, fez vistas grossas aos interesses de Jonathan de Jesus, ex-deputado estadual no Amapá, sobre o assunto.

Ligado ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre, Jesus deve estar preocupado com o prejuízo que o indicado por Alcolumbre para o fundo de pensão dos funcionários de seu estado dará a estas pessoas pelas aplicações temerárias feitas no Máster.

No entanto, foi a cantilena contra a liquidação do Máster que a mídia corporativa se transformou em manchete em 01/08. No dia seguinte, a Folha de S. Paulo, seguindo às riscas orientações da cartilha da guerra híbrida, no item como confundir pessoas, publicou manchete que tentava jogar no colo do governo federal o rombo do banco de Vorcaro: “Os cofres públicos têm que cobrem o rombo de fundos de previdência com Máster”.

No caso, a manchete correta deveria ser: “Ministério da Previdência afirma que estados e municípios terão que cobrir prejuízos do banco Máster em seus fundos de pensão”. Os estados e municípios em questão são todos administrados por políticos de extrema direita, a exemplo de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Amapá, o que explica a omissão de seus nomes nas manchetes da mídia golpista.

Para aumentar a vergonha, se esta mídia teve vergonha, a autoridade monetária dos Estados Unidos convocou a liquidação do Máster e bloqueou os seus ativos lá.

O desafio para a mídia corporativa agora é encontrar novos assuntos que possam ser sequestrados para atacar o governo Lula, pois não resta dúvida de que os ataques estão apenas começando num ano eleitoral que promete ser duríssimo.

*Ângela Carrato é jornalista, professora do Departamento de Comunicação Social da UFMG e membro do Conselho Deliberativo da ABI.

ÚLTIMAS NOTÍCIAS