– A resistência antissionista no Médio Oriente constitui o principal obstáculo que os EUA e Israel encontram na sua ofensiva global, e também a única força que conseguiu bloquear o seu avanço de forma significativa.
Mario Aguiriano [*]
A série de vitórias que o movimento anticolonial do Iémen, conhecido como “Ansarallah” (ou, mais habitualmente, “os houthis”), alcançou na semana passada na sua luta contra o jugo saudita constitui uma das grandes proezas anticoloniais do nosso século, ao mesmo tempo que um novo episódio na guerra que continua a alastrar-se por todo o Médio Oriente.
A combinação da ofensiva iemenita com os ataques das milícias xiitas no Iraque colocou a Casa de Saud contra as cordas, sitiada em várias frentes, e infligiu um duro golpe ao imperialismo na região. Assim, enquanto as forças do Iémen tomavam a estratégica ilha de Perim e a cidade portuária de Mocha, conquistando de facto o controlo sobre o estreito de Bab-el-Mandeb, os seus aliados iraquianos bombardeavam o principal oleoduto saudita, forçando o encerramento da artéria mais importante da sua indústria petrolífera. Ambos os factos, somados ao encerramento contínuo do Estreito de Ormuz, minam os alicerces da petromonarquia saudita, ao mesmo tempo que exercem pressão para o aumento dos preços do combustível, já em alta, empurrando o mundo para a beira de uma crise económica em grande escala que tem um único responsável: o imperialismo genocida que tem as suas sedes principais em Washington, Telavive e Riade. E tudo isto está a acontecer perante o silêncio de uns meios de comunicação oligárquicos para quem, há meses que a guerra no Médio Oriente não passa de um subenredo menor. Assim, as populações ocidentais lembram hoje o Coyote dos desenhos animados, a correr cegamente para um abismo que não é menos real por mais que nos recusemos a olhar para baixo.
Perante uma Arábia Saudita encurralada, uns EUA incapazes de reabrir o Estreito de Ormuz e o preço do barril de Brent a 107 dólares (eram 66 dólares em janeiro deste ano, antes do início da nova ofensiva imperialista na região), tudo indica que o imperialismo se prepara para novos ataques e que os meios de comunicação em breve voltarão a colocar o tema no debate público. O que está em jogo é praticamente tudo: na verdade, o facto de Trump parecer enfrentar uma derrota nas próximas eleições intercalares e de os seus planos para as manipular terem avançado lentamente deve-se muito mais à resistência antissionista no Médio Oriente do que a qualquer coisa que os vergonhosos Democratas tenham feito. Mais ainda: atualmente, está resistência constitui o principal obstáculo que os EUA e Israel encontraram na sua ofensiva global, e também a única força que conseguiu bloquear o seu avanço de forma significativa.
Assim, o fracasso do imperialismo no Médio Oriente está a abrir a porta a mudanças cujo peso poderá ser histórico — como prova a atual crise da Arábia Saudita, na qual convém centrar-nos brevemente. Mais do que um país propriamente dito, a Arábia Saudita é algo como uma refinaria de petróleo que cresceu desmesuradamente. O seu Estado é património pessoal dos maiores proprietários de petróleo, a Casa de Saud (a Arábia Saudita é, de facto, juntamente com o minúsculo Liechtenstein, o único Estado do mundo que leva o nome da sua Casa Real), principal aliado do imperialismo ocidental no mundo árabe há muitas décadas. A riqueza petrolífera permitiu que esta casta dirigente absolutista, governante de um imenso deserto, se dotasse de forças armadas modernas, comprasse a aquiescência de uma pequena camada de súbditos altamente subsidiados e pudesse subordinar massas proletárias migrantes (boa parte delas provenientes do próprio Iémen) que subsistem em condições de semiescravatura. A ideologia oficial do país, resultado do pacto entre a Casa de Saud e uma casta de clérigos fundamentalistas que representavam os interesses das elites locais, é uma variante singularmente reacionária do Islão sunita conhecida como “waabismo” — que constitui a matriz ideológica tanto da Al-Qaeda como do ISIS. A partir da década de 70, a Casa de Saud utilizou as suas enormes receitas petrolíferas e a legitimidade simbólica que lhe confere o controlo sobre Meca e Medina para tentar converter o waabismo na ideologia hegemónica da região, na sequência da crise do pan-arabismo secular, abalado pela derrota na Guerra do Yom Kippur. Washington e Tel Aviv viram com satisfação estes acontecimentos, pois o waabismo, obcecado com a caça aos hereges no seio do mundo islâmico (ateus, xiitas, sunitas moderados, etc), constitui uma garantia de discórdia interna e um obstáculo objetivo à unidade das massas árabes contra o imperialismo predatório.
É aqui que reside o verdadeiro papel do Estado saudita, não só no plano ideológico, mas também no económico, político e militar: garantir, na medida do possível, a hegemonia do imperialismo ocidental, apoiando outras autocracias aliadas e subjugando e dividindo os seus povos para maior glória de uma elite autocrática e corrupta, do império americano e da colónia sionista.
Assim, não é exagero afirmar que a destruição da autocracia saudita é uma condição necessária para que a ordem política global possa avançar numa direção emancipatória ao longo deste século. A queda da Casa de Saud eliminaria grande parte do terreno que sustenta outros aliados do imperialismo ocidental, como as classes dirigentes do Egito, do Líbano e da Jordânia, mergulharia as pequenas autocracias do Golfo numa crise sem provável retorno, afundaria a influência do waabismo, minaria o sistema do petrodólar, pilar da hegemonia norte-americana a nível mundial, e aliviaria de forma decisiva o jugo que hoje oprime as massas oprimidas da região, criando um terreno fértil para o regresso das ideias do socialismo e do pan-arabismo secular e anti-imperialista. Um cenário semelhante poderia significar o início do fim do sionismo e do domínio ocidental sobre a região e, ao mesmo tempo, um avanço para a luta de classes contra as forças burguesas de qualquer tendência em todo o Médio Oriente.
Enquanto o pacifismo imperialista ocidental, capaz até de se disfarçar de “internacionalismo”, gostaria de convidar as massas iemenitas a assinar a paz com a Arábia Saudita e a submeter-se ao jugo colonial, a tradição bolchevique recorda-nos que, nas suas guerras contra o imperialismo, os países oprimidos podem desempenhar um papel progressista, mesmo que sejam liderados por forças burguesas, religiosas, etc. A vitória destas forças não bloqueia a luta de classes, mas permite que está se expresse e se desenvolva em toda a sua plenitude. Seria importante, neste sentido, que as forças comunistas do Ocidente tomassem consciência destes factos, assumissem que o sionismo e a paz são incompatíveis e abandonassem um discurso que as coloca numa proximidade inquietante com o governo espanhol.
Na sua condenação do avanço do Ansarallah e no seu apoio à Arábia Saudita, combinados com um apelo vago à “paz” entre vítimas e carrascos, o governo espanhol, por seu lado, voltou a demonstrar o que é evidente: a Espanha é um membro integrante do bloco imperialista ocidental, e o “pacifismo” sanchista pouco mais é do que um imperialismo com uma falsa máscara humana. É necessário, nesse sentido, desenvolver uma política que os derrote, à escala do nosso bloco e preparar-nos para direcionar contra os verdadeiros culpados — os nossos Estados e a sua classe dominante — o descontentamento, o desespero e a raiva que uma crise, que poderá estar iminente, traria consigo.
21/Setembro/2026
[*Jornalista.
Ver também:
Os custos globais de frete explodem à medida que as interrupções de Ormuz estendem-se às principais rotas comerciais, Tvestana Parakova
A história em movimento: BRICS, Iêmen, Ormuz, China, Pepe Escobar
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