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domingo, 26 julho 2026

Tarifaço acirra contradições do capitalismo americano e aumenta impopularidade de Trump

Foto Brasil 247

César Fonseca

Os déficits – e não os superávits – comerciais sempre foram a forma de os impérios acumularem riquezas e explorarem a periferia capitalista, expandindo domínio imperial, como tenta, agora, o presidente Donald Trump aprofundá-lo, na América Latina, por meio da Doutrina Monroe, rebatizada de Donroe.

Detentores da hegemonia monetária, os impérios liquidam déficits mediante emissão monetária para gerar superavit financeiros, acompanhados de senhoriagem, como ensina a história do capitalismo.

Não interessava, por exemplo, no século 19, ao império britânico realizar superavit comercial com as colônias, se, com a libra valorizada, poderia pagar importações baratas, enquanto vendiam caro produtos industrializados.

Acumulava, dessa forma, superavit em contas correntes do balanço de pagamentos, enquanto os países coloniais acumulavam déficits nas contas externas, tornando-se vulneráveis no plano cambial, acumulando dívidas, historicamente, impagáveis, aprofundando dependências.

Com isso, assaltavam os países, assaltando patrimônios nacionais.

É o que Keynes, concordando com Adam Smith, chamava de “superavit de importações “, em “As consequências econômicas da paz”(Ed. UnB).

Os Estados Unidos fizeram a mesma coisa, depois de Bretton Woods, no pós-segunda guerra, quando o dólar substitui a libra esterlina e passa a dar as cartas no cenário global.

Para recuperar economias destruídas na segunda guerra, como Japão, França e Alemanha, Washington financia industrialização nesses países para fornecer mercadoria barata aos Estados Unidos, mantendo inflação baixa, graças aos superávits financeiros, realizados pela emissão da moeda hegemônica, que continuou bancando guerras.

A acumulação capitalista primitiva, como ensina Marx, no capítulo 24 dO Capital, quando trata da dívida pública, decorre dos déficits comerciais dos impérios, liquidados por emissões monetárias.

A moeda hegemônica sempre serviu para executar duas funções:

1 – Superávit financeiro, liquidando déficits comerciais, formadores da acumulação capitalista, na medida em que gerava deterioração nas relações de trocas, e;

2 – Acumulação de dívida pública, para expandir domínio territorial, via guerras imperialistas.

Moeda hegemônica é arma de guerra, como dizia Colbert, mago das Finanças de Luis 14, e não instrumento monetário, como dizem os neoliberais, como ocorria no cenário capitalista anterior à revolução industrial, com o Mercantilismo, sob governos absolutistas.

CAPITALISMO SE REALIZA NA GUERRA

Em 1936, quando, ainda, se faziam sentir os efeitos da crise de 1929, Keynes disse ao presidente Roosevelt:

“Penso ser incompatível com o desenvolvimento capitalista que o governo eleve seus gastos na escala necessária capaz fazer valer a minha tese – a do pleno emprego[sob economia de mercado] -, exceto em condições de guerra; se os Estados Unidos se INSENSIBILIZAREM para a preparação das armas[déficit público], aprenderão a conhecer sua força.”(Lauro Campos, em “A crise da ideologia keynesiana”, Ed Campus e Boitempo)

O imperialismo tem a moeda como arma de guerra, que se realiza por meio de déficits comerciais bancados por dívida pública, que geram superávits financeiros.

Querer produzir superavit comercial, via protecionismo tarifário, como deseja Donald Trump, para combater déficit comercial, é não entender a natureza imperialista do sistema capitalista, como ensina Lenin, em “Imperialismo, etapa superior do capitalismo”(1916).

A cabeça mercantilista trumpista é incompatível com a expansão da guerra, por exemplo, com o Irã, nos termos do capitalismo industrial americano, que já perdeu competitividade para China, a fim de gerar superavit comercial como forma de combate ao déficit de comércio, que desindustrializa os Estados Unidos.

A guerra requer emissão monetária, a fim de produzir superavit financeiro para, através da dívida pública, bancar déficit comercial.

Trump caiu na real de que o seu mercantilismo é inútil, ao pedir ao Congresso americano orçamento militar extra de 400 bilhões de dólares.

Sem emissão monetária para bancar importações baratas das colônias, impondo-lhes senhoriagem, que impeçam industrializações periféricas, o império, ou seja, o capitalismo cêntrico, sofre pressão inflacionária irresistível.

O tarifaço, por isso, esconde a sua natureza essencial: guerra comercial, ancorada na Doutrina Monroe.

O tarifaço trumpista é organicamente inflacionário, incompatível com processo democrático eleitoral.

IMPASSE DA DÍVIDA EXPRESSO NAS BIGTECS

A crise do modelo imperialista hiperinflacionário, escamoteado pela dívida pública incontrolável, é, portanto, dada, contraditoriamente, pela limitação do próprio endividamento público imperial, que joga o mercado financeiro em instabilidade permanente.

Nesse sentido, corre perigo de colapso a natureza atual dos gastos públicos americanos no mais novo processo de acumulação capitalista que são as bigtecs.

O estado imperialista, além de continuar financiando as indispensáveis guerras, que estão gerando inflação do petróleo, está sendo obrigado a gastar, sem, ainda, ter retorno lucrativo, na IA, nova fronteira tecnológica, pagando juro especulativo, expandindo incontrolavelmente dívida pública com emissão monetária – inflação disfarçada de dívida pública.

Perde competitividade nessa corrida para a China que banca IA grátis, democratizada para todos, conferindo caráter revolucionário a essa nova disputa imperialista entre os dois gigantes.

Os chineses podem fazer isso, porque usam bancos públicos para emitir moeda estatal a custo zero em comparação à emissão americana inflacionária, que paga juro especulativo à banca privada, financeirizando, especulativamente, a economia global, limitando expansão do capitalismo neoliberal.

A corrida às IAs e a expansão da guerra, que ampliam pressões inflacionarias, encobertas pelo endividamento público, fragilizam o sistema monetário imperialista, ancorado no dólar, baleado pelo excesso de endividamento americano, tornando-o vulnerável frente ao modelo socialista chinês, comandado pelo partido comunista.

COMUNISMO, DE NOVO, O GRANDE INIMIGO

Não é à toa que Trump volta a acusar o comunismo como principal inimigo dos Estados Unidos.

Nesse contexto, o tarifaço trumpista mercantilista não passa de cortina de fumaça para esconder a decadência acelerada do império americano, com sua moeda abalada pelos déficits comerciais e, principalmente, pela dívida pública, agora, chamada a bancar bigtecs, ainda, incapazes de cobrir os custos de sua expansão mediante valorização adequadas das suas ações, sob domínio especulativo.

Trump só tem a perder, se o presidente Lula, sob discurso de defesa da soberania nacional, lança mão da reciprocidade para rechaçar o protecionismo imperialista.

O tarifaço, que atinge 60 países em todo o mundo, acirra as contradições inflacionárias nos Estados Unidos e apressa a queda de popularidade do imperador, nas próximas eleições, em novembro.

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