Brasília, 25 de janeiro de 2022 às 10:25
Selecione o Idioma:

Sem Titulo

Postado em 26/04/2016 10:51

Suíça: Organiza-se a resistência contra a chicana dos banqueiros

.

Valentin Katasonov, Strategic Culture Foundation

Entreouvido na Vila Vudu:

Tradução recebida com um bilhetinho, que dizia:

“Não entendi nada (e, sinceramente, são assuntos que não me interessam muito), mas traduzi porque, se é coisa que NUNCA será comentada pelos ‘comentaristas’ ‘de economia’ da mídia-empresa comercial brasileira, com certeza interessa ao pessoal aqui. Além disso, se é assunto de conspiração entre banqueiros privados e políticos corruptos, com certeza absoluta já aconteceu ou está acontecendo na Câmara de Deputados Cunhas de Brasília-2016.
Abs.” [assina] X
____________________________________

No final do ano passado, a Chancelaria Federal Suíça recebeu uma petição com 110.955 assinaturas, exigindo outro referendum nacional. A exigência vinha patrocinada por ativistas da Iniciativa pró Moeda Soberana [ing. Sovereign Money Initiative[1]]. O objetivo do referendum é proibir que bancos comerciais privados inventem dinheiro e obrigar que se use dinheiro real, tangível.

O sujo jogo da “multiplicação dos dinheiros”

Em economia, quando um banco comercial é autorizado a criar dinheiro ampliando o crédito além das reservas que possua, fala-se nesse caso de “sistema bancário de reservas fracionadas” [ing. fractional-reserve banking]. Por exemplo, os bancos podem aceitar depósitos de 1.000 unidades de qualquer meio de pagamento legal no respectivo sistema jurídico (é o chamado dinheiro “real”, sob a forma de notas e moedas emitidas pelo Banco Central, na maioria das vezes), e, mesmo assim, apoiado nessas reservas reais, o mesmo banco pode emprestar 10 mil unidades do mesmo meio de pagamento. E esse crédito será emitido na forma do que se chama “depósito em dinheiro”, que é, na verdade, uma espécie de conceito abstrato, porque não pode ser usado como notas bancárias reais. Esse evidente duplifalar não acaba bem, é claro, é pode rapidamente levar a uma corrida aos bancos, seguida pelo colapso do próprio banco.

Em manuais de economia, essa fabricação de dinheiro por bancos comerciais privados é chamada “multiplicador de dinheiro” [ing. “money multiplier”], e o valor máximo do “multiplicador” é fixado por um regulador financeiro (quase sempre o banco central), sob a forma de uma reserva mínima exigida (que é a porcentagem de depósitos que tem de ser preservada num fundo especial de reserva). Não por acaso, essas exigências de reservas mínimas já estão sendo abolidas atualmente em muitos países. Houve tempo em que esse fiat mágico que fazia aparecer dinheiro foi visto como contrafação. Hoje é chamado, simplesmente, de “multiplicador de dinheiro”.

Vitória da aliança de banqueiros e políticos corruptos

O sistema bancário de reservas fracionadas foi desenvolvido gradualmente ao longo dos últimos 300 anos. A aliança entre banqueiros e os políticos que banqueiros corrompem triunfou sobre a opinião pública. Essa chicana ficou parcialmente escondida pelo establishment dos bancos centrais,[2] frequentemente chamados de “emprestadores de último recurso”. Os bancos centrais podem lançar uma boia salva-vidas aos bancos comerciais privados sob a forma de empréstimos chamados “emergenciais”, ou “empréstimo-remédio” ou “empréstimo de estabilização”. No século 20, criaram-se agências estatais ou quase-estatais para garantir em depósitos bancários. Mas tanto os “emprestadores de último recurso” como as tais ‘agências’ sempre se mostraram sem serventia, durante as grandes crises bancárias.

No século 20, as pessoas pararam de se preocupar ou de se interessar por saber como o sistema bancário é estruturado, ou de buscar as raízes da fraude bancária. O “momento da revelação” só revela alguma coisa quando já há massiva crise econômica ou financeira ou, claro, bancária.

Exemplo desse repentino insight/revelação aconteceu nos anos 1930s, quando o ocidente viu-se mergulhada na pior crise econômica da história do capitalismo. Em 1933, um grupo de destacados economistas liderados por Irving Fisher começou a redigir um ensaio que adiante viria a ser conhecido como Chicago Plan. A versão final do ensaio apareceu em 1936. Ali se identificavam as causas da crise econômica (a Grande Depressão). O sistema bancário de reservas fracionadas era aponado como culpado primário, porque inundara a economia com quantidade enorme de dinheiro ‘inventado’ (“fiat money”). Esse dinheiro não era depósito legal e fora lançado como crédito, o que havia criado uma pirâmide de dívida.

Esse absoluta falta de contenção entre os credores privados aparecia em contraste com as regras para emissão de papel moeda legal pelos bancos centrais. O que podia ser emitido era ainda limitado ao tamanho do lastro-ouro. E é verdade que, antes de a crise se instalar, alguns países europeus (especialmente Grã-Bretanha e França) haviam restaurado o padrão-ouro do pré-guerra, que não fora abolido nos EUA nem durante a 1ª Guerra Mundial. O Plano Chicago concluía que, em primeiro lugar e sobretudo, os bancos privados deviam retornar imediatamente a um sistema de reservas bancárias plenas [ing. full-reserve banking system] e manter disponíveis 100% dos depósitos.

Mas as recomendações do Plano Chicago foram ignoradas. Até nos EUA, onde o presidente Franklin Roosevelt conseguira conter os apetites dos banqueiros de Wall Street, o sistema bancário de plena reserva voltou à vida. Os banqueiros norte-americanos já eram mais poderosos que o presidente.

Poucos economistas ainda lembravam do sistema bancário de reserva plena depois da 2ª Guerra Mundial. Referências àquele sistema foram apagadas dos manuais de economia e a norma passou a chamar-se “multiplicadores de dinheiro”. Dentre os economistas ocidentais, só a escola austríaca de Economia foi, parece, responsável por manter viva a memória do sistema bancário de reserva plena, e Murray Rothbard foi porta-voz especialmente empenhado na causa.

O retorno do Plano Chicago

Em amplitude e devastação, a crise financeira de 2007-2009 foi comparável à Grande Depressão do século 20. E então, repentinamente, reapareceu a lembrança do Plano Chicago de Fisher. Em agosto de 2012, dois economistas do FMI, Jaromir Benes e Michael Kumhof, publicaram artigo intitulado “The Chicago Plan Revisited” [O Plano Chicago revisitado]. No artigo, os autores afirmam, corretamente, que a restauração de exigir reserva de 100% dos depósitos tornaria possível reviver dramaticamente a economia mundial. E adeus causas de inflação, pastagens onde se alimentam “bolhas” nos mercados imobiliário e financeiro, e adeus pirâmides geradas pela dívida pública e privada. Mas em 2012 o mundo já recuperara posição de relativa estabilidade financeira e econômica, e só uns poucos especialistas em finanças tomaram conhecimento da brochura publicada pelos economistas do FMI.

2015, porém, já foi completamente outra história. Novamente, se acumulavam nuvens de tempestade sobre a economia global. A segunda onda de crise financeira global crescia ameaçadora no horizonte. Economistas de vários países começaram a dedicar mais tempo ao estudo do sistema bancário de reserva plena. Em março do ano passado, documento intitulado “Reforma Monetária: Sistema Monetário Melhor para a Islândia” foi redigido por Frosti Sigurjónsson economista islandês, por ordem do primeiro-ministro. Há fontes que dizem que a Islândia está-se preparando para uma reforma monetária que incluirá abolir o sistema bancário de reservas fracionadas (segundo outras fontes, haverá aumento dramático na exigência de reservas).

Suíços contra o dinheiro “cinzento”[3]

Evento recente, diretamente relacionado à restauração de sistema monetário normal, é o referendum que está sendo organizado na Suíça. Em grande medida, os resultados do referendum dependerão de como será formulada a pergunta à qual os votantes responderão. Claro que já é impressionante que mais de 100 mil suíços, naquele pequeno país tenham firmado a petição requerendo que o referendum acontecesse.

Contudo, dado que há muitas décadas o sistema de reserva é assunto tabu, que não se estuda nem se discute, é difícil imaginar o que passará pela cabeça de alguns poucos milhões de suíços sobre a questão real em discussão. Se se examinam alguns artigos da mídia suíça, como amostra de o que esperar do referendum, é muito claro que nem os jornalistas conseguem entender perfeitamente a questão. Por exemplo, alguns supõem que o referendum envolve escolher entre papel-moeda e/ou sistema de ‘dinheiro virtual’, chamado “sem dinheiro”. Outros creem que se trate de lastrear a moeda circulante com montanhas de ouro ou de commodities.

Recentemente, os suíços votaram em referendum sobre aumentar ou não as reservas de ouro do banco central do país. Muitos cidadãos da república Alpina rejeitaram a ideia de que haveria qualquer necessidade de aumentar as tais reservas. Mas, nos comentários sobre o referendum “do ouro”, muitos especialistas registraram que os cidadãos absolutamente não tinham ideia do que significava “aumentar reservas”. E muitos temem que ignorância equivalente se repita agora, no novo referendum.

Por isso também, vale repetir e reforçar a questão crucial de todo esse assunto: implica proibir que bancos privados ‘inventem’ dinheiro. O direito de emitir moeda caberá integralmente ao Banco Central, que emite dinheiro em formato de papel-moeda. Bancos comerciais voltarão a ser intermediários financeiros no sentido tradicional, que meramente capta dinheiro em contas dos clientes e desembolsa o mesmo dinheiro na economia, sob a forma de empréstimos e investimentos. Desse modo, todo o controle sobre a circulação da moeda ficará concentrado nas mãos do banco central. Os riscos de que ocorram vários tipos de desequilíbrios econômicos cairão significativamente, porque os bancos privados já não terão meios para criar seus próprios fundos.

Claro que alguns problemas inevitavelmente surgirão, no caso de volta ao sistema bancário de reserva plena. Por exemplo: o que fazer com a oferta monstro de dinheiro criado pelos bancos comerciais? Em alguns países, a oferta de dinheiro “cinzento” é várias vezes maior que a oferta de moeda legal emitida pelos bancos centrais. E esse dinheiro “cinzento” não pode ser apagado de repente, porque é ele que faz andar as economias de praticamente todos os países do mundo hoje.

Além disso, a proposta reforma monetária suíça está na contramão da tendência prevalente de, não só os bancos comerciais, mas também os bancos centrais engordarem sempre mais a oferta de dinheiro. Programas como o “alívio quantitativo” do Fed-EUA servem precisamente para aumentar muito a oferta de dinheiro – e estão ativados pelo Banco Federal Reserve dos EUA, Banco da Inglaterra, Banco do Japão e Banco Central EuropeuBank of Japan, and ECB.

É necessária uma reforma monetária cuidadosa, gradual, que minimize o risco de falências e picos de desemprego. E é preciso não esquecer que qualquer reforma monetária radical em todos os casos será ataque frontal contra os oligarcas das finanças globais, hoje completamente empenhados em deslocar o papel moeda, para substituí-lo por sistemas de moedas ‘virtuais’. Afinal, todos os sistemas de moeda ‘eletrônica’ baseiam-se nesse mesmo dinheiro “cinzento” que os patrocinadores do referendum suíço querem combater.*****

[1] A Associação Suíça para Modernização Monetária [ing. Swiss Association for Monetary Modernization] trabalha para resolver os pontos mais graves de disfunção do sistema monetário hoje dominante e propõe reforma geral. Dia 3/6/2015 a associação lançou oficialmente a Iniciativa para Moeda Soberana. O objetivo do trabalho é dar à autoridade monetária estatal o poder exclusivo para criar dinheiro, seja papel moeda seja via contas corrrentes. Os bancos comerciais serão proibidos de criar contas correntes e contas poupança [orig. account money] e impedidos de fazer empréstimos de fundos que tenham recebido dos próprios clientes” [in The Sovereign Money Initiative in Switzerland, aqui traduzido (NTs)].
[2] Ver também “Geopolítica do Sistema de Banco Central”, Blog do Alok, em http://blogdoalok.blogspot.com.br/2016/04/geopolitica-do-sistema-de-banco-central.html [NTs].
[3] Dinheiro cinzento [ing. Gray Money] – Dinheiro obtido por evasão fiscal. Por exemplo: deduções ilícitas, fundos escondidos em banco de paraíso fiscal. Esse dinheiro cinzento é semelhante, mas significativamente diferente, do “dinheiro sujo”, que é renda de empresa criminosa, como tráfico de drogas (de http://financial-dictionary.thefreedictionary.com/Gray+Money [NTs].

Comentários: