Os resultados das eleições de meio de mandato de 26 de outubro na Argentina suscitaram previsões entusiasmadas de que “a Argentina está a caminho do sucesso econômico”, como afirma Nouriel Roubini no Project Syndicate, deixando a questão condicionada à chegada de investimentos maciços no setor produtivo.
O autor chega ao ponto de sugerir um potencial influxo de US$ 70 bilhões no país, baseando seu argumento em um anúncio de campanha eleitoral de um investimento de US$ 25 bilhões da OpenAI, um investimento impossível de garantir e já exagerado em sua magnitude. Ele destaca que as “enormes reservas de recursos naturais do país estavam destinadas a atrair enormes quantidades de investimento estrangeiro direto (IED)”.
O otimismo do professor nova-iorquino está ligado ao swap de US$ 20 bilhões facilitado pelo governo Trump, que aproximará Javier Milei do mercado financeiro global e lhe permitirá renovar os pagamentos da dívida impossível de pagar no curto prazo. Em última análise, trata-se de assistência financeira dos EUA para adiar vencimentos, renovando uma dívida pública claramente impagável, sob o pretexto de futuros investimentos produtivos para consolidar a pilhagem dos recursos comuns da Argentina.
O que Roubini destaca no plano de Milei? Inflação mais baixa e uma taxa de câmbio estável, juntamente com um ajuste fiscal de cinco por cento do PIB. A que custo, professor? Ele parece não se importar com a perda, durante o governo Milei, de 169.240 empregos no setor privado, 101.051 empregos no setor público e 21.645 empregos domésticos, totalizando 291.936 empregos formais; nem com os 87,8 trilhões de pesos em cortes fiscais, incluindo 22,1 trilhões de pesos em obras públicas, 16,2 trilhões de pesos em pensões e 13 trilhões de pesos em programas sociais.
Seu foco parece estar na matemática, sem se aprofundar nos limites das estatísticas oficiais, que são questionadas profissionalmente até mesmo por organizações internacionais, ou no “pecado original” da desvalorização no início do governo, tomando como ponto de partida a taxa de câmbio de 360 pesos por dólar para 800 pesos, base para uma inflação de 25,5% em dezembro de 2023.
Por outro lado, a repressão do conflito social é parte substancial da estratégia dos libertários para conter os protestos sociais, visíveis todas as quartas-feiras nas manifestações de aposentados em frente ao Congresso Nacional, entre outras mobilizações massivas em defesa da educação e da saúde pública, contra o desemprego e em defesa dos direitos sociais violados. O profissional nova-iorquino acaba concordando com o milionário empresário da Big Apple que ocupa a Casa Branca. O capitalismo americano precisa do sucesso do governo Milei para garantir um “modelo” bem-sucedido para o capitalismo em crise, custe o que custar.
É por isso que Roubini está aludindo ao caminho que Brasil, Chile e Colômbia deveriam seguir. Que coincidência que Trump esteja ameaçando e confrontando a Colômbia e o Brasil, e pressionando por um resultado de direita nas próximas eleições chilenas.
A potência pende para a direita.
A realidade é que o poder global expresso na iniciativa do Estado americano, somado à aparente chegada do JP Morgan em nome do sistema bancário transnacional com base em Wall Street e à propaganda de profissionais do sistema, manifestada nos meios de comunicação e redes que moldam a consciência social, favorece a consolidação de processos antipopulares como o argentino.
Claro que, ao mesmo tempo, é preciso salientar que não existe uma alternativa credível, aceite pela população local, para contestar o governo e o poder com o objetivo de satisfazer as necessidades sociais e não a rentabilidade do capital.
A Argentina, a região e o mundo possibilitam um debate que contraria a visão de direita dos gurus internacionais, e talvez a resposta esteja na própria Nova York, após a eleição para prefeito.
O programa defendido por Zohran Mamdani, que envolve o financiamento da resolução de demandas populares por meio de impostos sobre os ricos, pode ser apresentado como um caminho alternativo ao defendido pelos poderes constituídos.
*Julio C. Gambina, cidadão argentino, é doutor em Ciências Sociais pela Universidade de Buenos Aires (UBA); é professor de Economia Política em diversas universidades públicas da Argentina e da região; é presidente da Fundação para Pesquisas Sociais e Políticas (FISYP); dirige o Centro de Estudos da Federação Judiciária Argentina (CEFJA) e a Escola de Formação da Federação dos Trabalhadores da Energia da República Argentina (FeTERA); é membro do Conselho Diretor da Sociedade Latino-Americana e Caribenha de Economia Política e Pensamento Crítico (SEPLA); recebeu o Prêmio de 2021 para a região da América Latina e Caribe da Associação Mundial de Economia Política (WAPE); e é fundador e membro da Associação para a Tributação de Transações Financeiras e Ação Cidadã da Argentina (ATTAC-Argentina).
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