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Postado em 04/06/2021 11:27

Só a mobilização popular enterrará o bolsonarismo

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 Foto: Felipe Iruatã/Mídia Ninja
Roberto Amaral*
     Consideram-se  justas e consequentes as linhas políticas, e as palavras de ordem delas decorrentes, na medida em que atendem ao dado momento do processo social; este, por definição, é um movimento, um fazer-se e refazer-se, como as ondas do mar, que nunca são as mesmas. Não há, pois, coerência tática quando mantemos vigentes palavras de ordem, que, embora originalmente corretas, se apresentam num determinado momento como inadequadas em face do quadro de realidade mutante. Por consequência, não deve ser vista como contraditória ou incoerente,  por si, a mudança de linha  cuja  correção atende a  exigência de uma nova realidade política. Contrariamente, não mudar, em tal caso, equivaleria a confundir a forma com o conteúdo, a aparência com o real, ter o hábito  pelo monge. A coerência que a História reclama não é de ordem formal, estática, posto que diz respeito à fidelidade de objetivos (e eficiência de meios), a interdependência entre princípios e fins. Em síntese: se muda a conjuntura, necessariamente há de mudar o caráter e o modus da intervenção do sujeito social.
      Ao agente político, individual ou coletivo, cabe, sempre, escolher, tomar decisões, frequentemente em face de diversas alternativas,  nem todas  satisfatórias,  contraditórias ou auto excludentes. Não há fórmulas nem réguas para medir a melhor opção. Em face de qualquer cenário há sempre prós e contras, há sempre riscos. Para decifrar a esfinge nem sempre estão preparadas as estruturas partidárias;  muitas, paquidérmicas, custam a se adaptar  à  nova situação, e, assim, se prendem a palavras de ordem, que, se antes poderiam ser justas, no momento seguinte estão desatualizadas. A concentração de todas as expectativas de avanço do movimento popular nos eventuais  resultados de um processo eleitoral futuro, ainda que relativamente próximo mas cujas condições de disputa são, hoje, aliás, desconhecidas, deixou de ser a estratégia mais correta das forças democráticas, as quais não podem deixar livre o campo para as operações do grande adversário, que, por sinal,  logrou avanços nas pegadas de nosso recuo tático.
     A escalada da extrema-direita — refletida no aguçamento da crise sanitária associada à crise econômica e social e às ameaças ao processo democrático-institucional — mudou a natureza do impasse  e passou a exigir novas formas de luta, e a principal delas é o embate permanente. Essa alteração foi percebida pelos movimentos sociais que se anteciparam aos partidos, e os retiraram do recuo tático, trazendo-os para as ruas, onde as condições de luta são mais favoráveis às forças progressistas. A adesão de grandes parcelas da população, vindo às ruas em cerca de 250 cidades brasileiras no dia 29 de maio, diz do acerto do caminho escolhido, que precisa não ter volta. É o novo caminho, e por algum tempo certamente será o mais efetivo, mas não suprime nenhuma outra forma de ação. Ao contrário, o diferencial  das forças progressistas reside exatamente em poder atuar, concomitantemente, e de forma contínua, nas mais diversas frentes.
De certa maneira se antecipando aos partidos, o movimento social (refiro-me especificamente às frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo)  entendeu que o meio mais consequente de dar combate ao vírus era aprofundar a luta contra o agente de  sua maior disseminação. A palavra de ordem, portanto, passou a ser “Fora Bolsonaro”, a síntese das palavras de ordem do movimento social, fecho da luta de todas as forças políticas que se alinham na oposição, cujo espectro ideológico deve alargar-se no prolongamento dos embates. O ponto de partida é a consciência, hoje compartilhada majoritariamente pela nação, de que o bolsonarismo (a associação do protofascismo com o neoliberalismo) é incompatível com nossos interesses de povo e país. Deter a continuidade desse projeto  é, portanto, a tarefa prioritária. Este é o objetivo guarda-chuva que compreende vários caminhos e muitas variantes, que vão do impeachment à vitória eleitoral de 2022, sem se fixar em nenhuma alternativa, mas lutando por intermédio de todas as vias ensejadas. Qualquer que seja a hipótese por configurar-se, porém, as que podem nos levar à ruptura necessária dependem da mobilização popular. Só ela poderá levar à cassação do mandato do capitão, porá o neoliberalismo na camisa-de-força de que carece, deterá a ação deletéria do Congresso, desconstituindo o pacto de 1988 e destruindo a economia nacional e os direitos dos trabalhadores. Só a mobilização popular evitará novos golpes judiciais e parlamentares como os  que manipularam as eleições de 2018, só ela poderá  assegurar a eleição de um candidato de centro-esquerda em 2022, só ela garantirá a posse desse candidato e a invulnerabilidade de seu mandato, assegurando, no governo, a execução do programa do candidato, o que não ocorreu no frustrado segundo mandato de Dilma Rousseff.
      Não está implícita, nem de longe, na aparente reviravolta tática — a mobilização popular pela esquerda ainda em meio à pandemia –,  a adesão ao negacionismo. Longe disso, a volta responsável às ruas, abandonadas desde 2013, é a primeira consequência da opção pelo combate sem tréguas ao bolsonarismo como tarefa prioritária das forças populares. Os meios são impostos pelas condições em que se trava a  luta: a intolerância da grande mídia (as últimas ilusões de imparcialidade caíram por terra com a indecorosa cobertura dos jornalões e emissoras de TV às passeatas do 29 de maio); a fragilidade da oposição no Congresso, esmagada pelo rolo compressor do centrão; o aparelhamento das forças de segurança pelo golpismo; o poder judiciário e o ministério público como agentes da classe dominante, da qual são egressos seus membros; e o apoio dos fardados, guarda pretoriana do poder.  A oposição, enfim, enfrenta a casa-grande, e o que ela representa de atraso e sujeição ao capital financeiro monopolizado. Esse combate, em face das provocações do capitão e sua choldra, estava a exigir a volta às ruas das grandes massas, embora permanecessem de pé as recomendações quanto ao uso de máscaras e as restrições às aglomerações, que os manifestantes buscaram observar como puderam.
    Esses atos, com os riscos implícitos, jamais ignorados pelos seus organizadores, não resultam, portanto, de uma opção idealista, ou irresponsável, ou voluntarista, mas simplesmente respondem a exigências da atual  etapa da luta, que está longe de seu cume. Os agentes da política não fazem necessariamente o que desejam; o papel das vontades individuais, e mesmo coletivas, cede espaço às condicionantes do processo histórico. No quadro de hoje, respeitadas todas as contingências, não há alternativa fora do acirramento da oposição ao bolsonarismo. Cabe aos partidos, de mãos dadas com o movimento social, conduzir o processo político. Praz aos céus que estejam todos à altura do desafio.
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Guerreiro que se vai – Ombreava-se entre os melhores de sua geração, mas sobre todos destacava-se pela coragem; era bravo, briguento e ao mesmo tempo extremamente leal aos seus amigos. Fez escola no jornalismo brasileiro como repórter, editor, copydesk (chistoso, dizia poder resumir a Bíblia em uma lauda), formou centenas de jornalistas por onde atuou, no Rio de Janeiro, em Recife, em São Paulo, em Nova York, em diários como o Jornal do Commercio, Diário Carioca, O Globo, Gazeta Mercantil, Última Hora e revistas como Isto é, Realidade e tantas outras, e mais recentemente, atuou na falecida TVE, no Rio.  Dirigiu a sucursal  da Última Hora em Pernambuco, nos idos de Miguel Arraes, a quem permaneceu solidário até o último momento, conheceu a prisão, a tortura, o desemprego, o desterro dentro do país, sem jamais lamentar-se, sem jamais ter de fazer mea culpa, sem jamais deixar de lutar. E tudo isso, sem se afastar do jornalismo, sua razão de ser. Ao tempo em que dirigia títulos da Abril, editava panfletos subversivos, denunciando a censura. Com o peso dos anos trocou as redações pelo ensino de comunicação, e manteve na internet uma página de comentários. Éramos amigos desde 1961, quando cheguei ao Rio como vice-presidente da UNE e ele repórter da Última Hora, cobrindo a crise da renúncia de Jânio. Na minha passagem pelo Ministério da Ciência e Tecnologia contei com sua colaboração inteligente, e, até pouco tempo, almoçávamos frequentemente com Elysio Pires, companheiro seu  se não me engano desde a Nacional de Direito, no Otto, velho e bom restaurante alemão da Tijuca, assim um pouco mais próximo da Usina, onde se escondia. Quando chegava para nosso bate papo, Milton já havia lido praticamente tudo o que de relevante havia sido produzido pela imprensa internacional. Num encontro de uns dois anos passados, em minha casa, encantou meu filho Pedro Amaral com a narração de fatos marcantes de sua longa, brilhante, mas atribulada vida. Prometeu-nos escrever suas memórias. Certamente será a única matéria que o grande repórter ficará devendo ao editor.

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Roberto Amaral é escritor e ex-ministro de Ciência e Tecnologia

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