Pesqueira, Pernambuco – Foto: Divulgação
Wagner França
Há uma dinâmica silenciosa, mas crescente, que merece atenção internacional: em diversas regiões do Brasil, lideranças políticas vêm utilizando estratégias de criminalização e manipulação da opinião pública para avançar sobre territórios indígenas e comunidades tradicionais. O fenômeno é local, mas a lógica é global: ataques simbólicos e políticos contra minorias se tornaram método eleitoral — e estão se espalhando pelas pequenas cidades com a mesma força que já se viu nas capitais.
O que está em curso é mais que polarização: é a fabricação deliberada de inimigos públicos para consolidar projetos de poder. E esse movimento se expressa sobretudo nas regiões onde grupos indígenas possuem demarcações, influência cultural ou direitos consolidados — áreas historicamente cobiçadas por setores imobiliários, políticos locais e grupos econômicos emergentes.
Neste contexto, o Agreste pernambucano tornou-se um laboratório exemplar. Em Pesqueira, a disputa política recente evidenciou como a presença do povo Xukuru — símbolo de organização coletiva e resistência histórica — foi transformada em alvo estratégico. Narrativas de suspeita, manipulação de dados e instrumentalização de casos sensíveis foram usadas para alimentar um clima de conflito e desconfiança.
Um episódio em particular merece atenção: a divulgação de informações sigilosas sobre um caso de violência sexual envolvendo uma criança indígena, ato protagonizado por um candidato local, ex-delegado e ex-prefeito de cidade vizinha. O episódio não se limita a uma infração eleitoral ou violação de sigilo; ele expõe uma tática política que começa a se repetir em diferentes regiões do país: usar o sofrimento de populações vulneráveis como combustível para campanhas eleitorais, convertendo tragédias humanas em espetáculo público.
Esse tipo de ação não é exceção — é tendência. E não está restrito a Pernambuco. Casos semelhantes vêm sendo observados no Mato Grosso do Sul, no Amazonas, no Paraná e no Maranhão, com variações conforme o contexto local: em alguns lugares, o inimigo é o indígena; em outros, o quilombola; em outros ainda, o sem-terra. A fórmula, no entanto, é reconhecível: apropriação da linguagem da segurança pública + uso midiático de dados sensíveis + construção de um inimigo social.
Essa estratégia encontra terreno fértil onde os serviços públicos falham e o Estado chega tarde. Cidades pequenas, com crise de emprego, escolas frágeis, pouco acesso à justiça e sensação difusa de abandono, tornam-se nichos ideais para quem sabe capitalizar a frustração. A criminalização do “outro” torna-se atalho eleitoral.
Nesse ponto, o Brasil repete padrões já observados em outras partes do mundo:
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Nos Estados Unidos, comunidades latino-americanas e indígenas são frequentemente alvo de narrativas de insegurança para justificar políticas xenófobas.
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Na Índia, o governo utiliza discursos religiosos para deslegitimar minorias muçulmanas em regiões estratégicas.
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Em diferentes países africanos, grupos étnicos específicos são tratados como “obstáculos ao progresso” para facilitar acordos econômicos com empresas estrangeiras.


