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sexta-feira, 30 janeiro, 2026

Será que a mão de ferro é a causa subjacente da crise de segurança na Guatemala?

Cidade da Guatemala (Prensa Latina) Uma nova crise de segurança na Guatemala, causada por três rebeliões em prisões, levou a especulações de que redes políticas estejam por trás dela, com o objetivo de estabelecer uma postura linha-dura como tema de campanha para 2027.

Por Zeus Naya

Correspondente-chefe na Guatemala

Na sequência de exigências de detentos que eram líderes da gangue Barrio 18, principalmente da prisão Renovación I, no departamento de Escuintla, nos dias 17 e 18 de janeiro, ocorreu o assassinato de 10 policiais nas ruas da capital.

Outros cinco policiais uniformizados também ficaram feridos em serviço durante ataques supostamente dirigidos (coordenados) a partir desses centros de detenção, muitos dos quais buscavam criar uma situação de ingovernabilidade.

Embora as reivindicações dos membros da gangue indicassem péssimas condições prisionais (um deles chegou a exigir ar-condicionado, entre outras coisas), um vídeo vazou incitando a derrubada do presidente guatemalteco Bernardo Arévalo por meio de um golpe de Estado.

Diante dessa situação, o presidente convocou seu Conselho de Ministros e, apesar de ter controlado os distúrbios em menos de 24 horas, decretou estado de sítio por 30 dias, para usar toda a força contra os grupos criminosos e prevenir ações terroristas.

Em mensagem à população, o chefe de Estado afirmou ser importante reconhecer que nada disso aconteceu por acaso: “acontece justamente quando o progresso do país na libertação das instituições das redes criminosas que traficavam corrupção e impunidade está produzindo resultados claros.”

“Sabemos quem está por trás disso, grupos que se beneficiam desse flagelo que cresce nas sombras e se recusam a nos permitir, como nação, viver com transparência e justiça”, afirmou o político de 67 anos.

Essas são as máfias político-criminosas que resistem e buscam instigar o terror porque sabem que este ano a Guatemala recuperará seu sistema jurídico e elas estão fracassando, enfatizou a autoridade, socióloga de formação, ex-diplomata e ex-congressista.

MUDANÇAS IMPORTANTES

Especialistas consultados pela Prensa Latina explicaram que as ações, sem dúvida, ocorreram em um momento em que o país caminha para mudanças importantes nas chamadas eleições de segundo grau.

No início do ano, também no rádio e na televisão, Arévalo descreveu os cinco processos como um enorme desafio, “já que aqueles que durante décadas abusaram do poder e se enriqueceram através da corrupção ameaçam continuar a tomar conta das nossas instituições”.

É necessário definir os magistrados para o Supremo Tribunal Eleitoral para o período de 2026-2032, o Tribunal Constitucional, o chefe do Ministério Público (MP), a Universidade de San Carlos e o Controlador Geral de Contas.

O que é chocante, disseram analistas locais a esta agência, é que, no caso do procurador-geral, um comitê de nomeação selecionará os seis melhores candidatos e o presidente nomeará o ocupante do cargo por quatro anos.

O presidente denunciou repetidamente a atual chefe do Ministério Público, Consuelo Porras, como a encabeçadora do “Pacto dos Corruptos” e a acusa de instrumentalizar o sistema judiciário para impedir reformas e até mesmo proteger criminosos.

DENTRO DO ÂMBITO DA LEI

Rodrigo Mendoza, especialista em comunicação política e consultoria eleitoral, disse à Emisoras Unidas que certos grupos poderosos cooptaram o Estado. Ele também esclareceu que o presidente quer fazer as coisas da maneira correta, dentro dos limites da lei.

Ele já teve muitas derrotas e confrontos, e este ano é crucial. Se ele (Arévalo) conseguir superar 2026 de forma positiva para todos, poderemos ter um processo eleitoral em que o populismo não prevaleça, considerou.

O jornalista Haroldo Shetemul lembrou à estação de rádio que vários chefes de Estado do país quiseram fazer isso, o mais recente sendo Otto Pérez (2012-2015), que se revelou corrupto, “pura demagogia”, e a mão de ferro permaneceu no ar.

Em comparação com o vizinho El Salvador, ele comentou que as políticas de segurança têm efeito, mas a um custo elevado, com anos sem garantias e violações dos direitos humanos que não podem ser negadas, observou.

Mendoza alertou que é muito cedo para perceber o perfil que a população exigirá dos candidatos, pois isso depende muito das eleições de segundo grau deste ano.

Isso pode permitir – acrescentou ele – uma mudança na realidade dos processos judiciais, da persecução penal.

Arévalo explicou que deseja jogar segundo as regras democráticas em uma nação com uma ditadura judicial, que não está exatamente caminhando nessa direção e que levou a uma deterioração da situação política e de segurança, observou ele.

Na Guatemala existe uma democracia formal, pois votamos a cada quatro anos, mas isso não significa uma mudança na vida dos cidadãos e, em termos de segurança, vivemos em um estado caótico, refletiu o especialista.

O Sistema Penitenciário (SP) está falhando em todas as frentes; por exemplo, na Renovación I remodelaram o prédio, mas a estrutura de corrupção e impunidade continua lá, afirmou ele.

RESULTADOS DO ESTADO DE SÍTIO

Arévalo afirmou que o estado de sítio já está “dando resultados” e reiterou que a medida permite que o país responda à crise com toda a sua força e capacidade.

As operações conjuntas entre a Polícia Civil Nacional e o Exército visam controlar o sistema prisional, cortar a comunicação entre os líderes dentro das prisões e os membros das gangues, e penetrar em áreas com altos índices de criminalidade.

O ministro do Interior da Guatemala, Marco Antonio Villeda, confirmou a captura de 44 membros de gangues, 39 do Barrio 18 e cinco da Mara Salvatrucha, em uma semana de estado de sítio.

Removemos cinco câmeras de vigilância da Zona 18 da capital, que esses grupos utilizavam para manter o controle territorial, e, no total, realizamos 211 operações, enfatizou o oficial.

Ele reiterou que não há trégua nem concessões com essas organizações criminosas, “que este Executivo está enfrentando de frente, de forma consistente e sem hesitação”.

Julio Rivera, ex-vice-ministro dessa pasta e ex-membro do Conselho do Parlamento, opinou que, de fato, o estado de sítio cumpre a função para a qual foi proposto.

No entanto, ele ressaltou que essa medida, por si só, não transforma a dinâmica da violência e do crime em um país.

Nas palavras do ex-diretor do SP, Eddy Morales, o que deveria ser feito, do ponto de vista humano, está sendo feito. A realidade é que muita coisa está acontecendo, e não é um problema recente, ressaltou ele.

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