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Postado em 12/07/2017 8:15

São cinco senadoras… Numa mesa!

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Por: Crispiniano Neto
Terrível. Cena dantesca para olhos machistas e direitistas. Cinco mulheres ocupando a mesa do Senado, como forma de protestar exigindo diálogo sobre leis trabalhistas.
Kukukaya. São cinco jogadoras numa mesa… E os cabras de peia, enlouquecidos por não poderem mandá-las para a cozinha… Da porta do meio para trás.
Esqueceram as meninas… Esqueceram, mas fizeram lembrar que muita gente que não quer ver mulher no Senado, imaginem, sentadas à mesa, em atitude rebelde, quando deveriam ser recatadas e não revoltadas e do lar em que vez de estarem lá…
O mundo quase veio abaixo.
Claro, né. Já não basta os pais dessas senhoras um dia terem “cometido cinco fraquezas”, do Oiapoque ao Chuí, deixando nascer cinco “meninas fêmeas”, e que, ainda por cima, em vez de se chamarem Amélias ou Evas, se chamavam Fátima, Gleisi, Vanessa, Lídice e Regina. Lilyths que não deveriam ser expulsas do paraíso, porque lá nem deveriam ter entrado; bruxas que deveriam ir para a fogueira, não fosse quebra de austeridade fiscal, gastar dinheiro do erário com lenha…
Todos os pruridos da canalha golpista foram provocados. Teve até quem visse “Crise institucional”, ainda que não tivesse tido tal visão em dois anos de boicotes, sabotagens, golpes e golpes no golpe. Mas como? Não viram mais que uma “ditabranda” em vinte anos da “gloriosa…”
Sabe-se que o ato das senadoras Fátima Bezerra, Gleisi Hoffman, Vanessa Graziotin, Lídice da Mata e Regina Souza, não passava de um protesto civilizado em busca do diálogo sistematicamente negado. Não poderia nem ser chamado de “grito desumano” mesmo sendo a “única maneira de ser escutado”.
Até que enfim, acordaram, porque “no meio do caminho tinha cinco pedras, tinha cinco pedras no meio do caminho”. Pedras daquele “reino mineral” de que fala Mino Carta, que sabem e que gritam: “Afastem de nós este cale-se”. E a resposta foi medíocre. Tão esperada quanto exasperada. O “Índio” botocudamente “inventou de inventar a escuridão”.
Algo de “muito grave” estava acontecendo naquela casa… Diferentemente de quando um movimento de extrema direita invadiu o mesmo Congresso pedindo golpe militar. Isso passou em brancas nuvens, porque não incomoda comentaristas imbecis de rádio e TV. Nem fere os interesses dos golpistas.
Também não houve o mesmo espanto quando, recentemente, por duas vezes, policiais protestando contra a coirmã Reforma da Previdência, renderam a polícia legislativa, de armas em punho invadiram a Câmara e chegaram aos aceiros do plenário da Câmara.
Os comentaristas políticos não se exasperaram, coxinhas-ratos de redes sociais não fizeram masturbação ideológica, não teve dancinha do Pato Amarelo, nem a gangue de Temer, tampouco a de Aécio e a de Rodrigo Maia, imagine-se a de Bolsonaro, se revoltaram como agora, diante da visão fantasmagórica de cogumelo atômico em que transformaram a imagem das cinco senadoras sentadas à mesa. Cinco “anti-rosas atômicas… rotas alteradas”, que não se encolheram “mudas, telepáticas, cegas, inexatas”.
Houve uma comentarista da Jovem Pan que disse que aquilo envergonhou a “classe” feminina. Que diabos quer dizer “classe” feminina, enquanto categoria sociológica?
Madureira, o “marido traído” por Aécio chegou a ver algo como uma “ditadura de esquerda”, em gestação. Nunca imaginei que o rapaz fosse tão obnubilado. Já não lhe basta ser idiota?
A gravidade da cena das mulheres à mesa, foi cantada em prosa e verso com mais gravidade que um impeachment sem prova de crime de responsabilidade, sem os nós em pingo d’água dados por Cunha no regimento da Câmara, sem que ninguém com ele se preocupasse, como agora se preocupam com o regimento do Senado.
Foi o cúmulo da desobediência ao estado de direito. Ainda bem que Renan só fez descumprir uma notificaçãozinha do STF. E todo mundo lambeu o chão onde ele pisou. Nada grave no mundo dos que tudo podem… Grave, naquele momento, seria o vice de Renan, o petista Jorge Viana assumir o senado, quando se sabe que lugar de petista, como de puta preto e pobre, é na cadeia. Jorge na presidência do Senado era um perigo para os planos golpistas, como aquelas senadoras paralisando a mesa do mesmo Senado, numa metáfora do Brasil paralisado, tetraplégico, sucumbindo por inanição e falência múltipla de órgãos… Não basta aprovar reformas é preciso vender ao mundo a impressão que o Brasil ainda estrebucha. Que algo ainda funciona.
Bem que essas meninas travessas poderiam fazer coisas mais leves que ocupar a mesa do senado, num protesto simbólico em que pediam diálogo sobre uma reforma que dilacera em mais de cem agressões a legislação trabalhista do País. Elas bem que poderiam fazer como Zezé Perrela, o colega que não faz nada errado, “a não ser traficar drogas”. Mas… sentar à mesa. Aí é demais! Não admitem nem que o cachorro balance o rabo, imagine querer que o rabo balance o cachorro…
Bem que elas poderiam sair comprando senadores, como Temer fez na CCJ da Câmara, num Black Friday de deputados como só tinha sido visto quando da aprovação da reeleição de FHC. Isso sim, é honesto e democrático. Não fere o decoro… Pois sim. Aquela revolta do Delegado Valdir poderia ter sido infinitamente mais grave se Temer tivesse mandado Marcelinha sentar na mesa da CCJ, antes de abrir aquela reunião.
Essas meninas poderiam ter tido um comportamento mais decente, mais conforme. Em vez de sentarem à mesa pedindo diálogo, poderiam ter proposto um acordão, com Temer, envolvendo o supremo e a “porra toda” para parar uma sangria qualquer.
Em vez de terem sido tão indecorosas com esta sentada, poderiam ter saído correndo atrás de um blogueiro, botando pilha e dizendo que iam comer… Comer, tudo bem, mas não aquela quentinha nuclear que a senadora Fátima Bezerra pediu à mesa. Uma senadora comendo à mesa senatorial. Fosse pelo menos um inocente pozinho branco, mas refeição… Aquilo, sim, é gravíssimo. Diferentemente da volta do Brasil ao Mapa da Fome.
Comer blogueiro de esquerda, tudo bem, já que a esquerda come criancinhas…
Tudo muito grave nesta sentada histórica. Com que apelidos merecem ser alcunhadas as cinco terroristas? Marcola, Beira-Mar, Bin Laden, Kim Jung Woon, Bashar Al Assad, Símon ‘Bolivariano’, Cara de Cavalo, Maníacas do Parque. Sabe-se lá… Bandidas da Luz “Vermelha”, seria considerado um achado… Até porque uma sentada à mesa, e um motivo infinitamente “muito mais grave” que os fatos e atos que motivaram o departamento de propinas da Odebrecht a chamar Marta Suplicy de Barbie, Romero Jucá de Caju, Ana Amélia Lemos, de “Véia”, Anastasia de Dengo, Lobão de Esquálido, José Agripino de Gripado, Eunício de Índio, Jader Barbalho de Jacaré, Cássio Cunha Lima de Prosador, Ronaldo Caiado de Vaqueiro, Aécio Neves de Mineirinho. Logo “Mineirinho”, o nome do bandido que virou filme, “Mineirinho Vivo ou Morto”, mas que “não amarrava a cartucheira” de Aécio.
Sentar à mesa da casa parlamentar para parlamentar, ou seja, para dialogar, antes da sessão, não é inusitado. Aliás, é bem mais decente que pedir propinas para esvaziar o plenário ou garantir o quórum e votar no que o governo, pau mandado do PIB, quiser. Ocupar a mesa é algo que foi feito com elogios, por Luiza Erundina quando Cunha era o Todo-poderoso presidente da Câmara Federal. E não teve a mínima consequência trágica que agora querem fazer crer que terá.
Ora, gente. Mas… Naquele tempo não se tratava de Reforma Trabalhista.
Não estava em jogo a menina dos olhos dos capitalistas selvagens, o capricho dos empresários burros que não conseguem entender que para eles, e só para eles, é bem melhor uma classe trabalhadora, aqui classe de verdade, com poder de consumo e com direitos para que eles tenham o direito de continuar sendo donos dos meios de produção e da mais-valia.
Esses moucos, pobres moucos, não sabem o que é o confronto de classes, osso no osso sem sela e sem pelego no meio.
Eles não têm noção do que seja ver as classes exploradas e oprimidas em guerra, com gosto de sangue na boca, sabendo que nada têm a perder a não ser os grilhões

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