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domingo, 14 julho, 2024

Retorno de Bashar: ataque de EUA e Israel não impede volta da Síria ao jogo regional, diz analista

© AFP 2023 / LOUAI BESHAR

Sputnik –EUA e Israel intensificaram ataques contra alvos na Síria na última semana, alegando temer entrada de milícias ligadas ao Irã no conflito com o Hamas. Saiba por que essa campanha militar pode não ser suficiente para reverter a volta da Síria ao tabuleiro político no Oriente Médio.

Na segunda-feira (30), o Departamento de Defesa dos EUA informou que suas bases militares no Iraque e na Síria teriam sido atacadas 23 vezes em menos de 15 dias, em um contexto de escalada de tensões no Oriente Médio, em função do conflito israelo-palestino.
“De 17 a 30 de outubro, as forças dos EUA e da coalizão foram atacadas pelo menos 14 vezes diferentes no Iraque e nove vezes na Síria, por meio de uma combinação de drones e foguetes de ataque unidirecionais, totalizando 23 ataques até agora”, informou o Departamento de Defesa dos EUA em seu site oficial. “Muitos desses ataques foram interrompidos com sucesso por nossos militares. A maioria não conseguiu atingir os seus objetivos.”
A alegação de Washington foi realizada após o país realizar campanha de ataques aéreos contra o território da Síria, utilizando caças F-16 e munições guiadas de precisão. O Pentágono justifica a violação ao território soberano da Síria, alegando estar atacando milícias ligadas ao Hezbollah e ao Irã.
Mas os EUA não são os únicos que realizaram ataques no território sírio no mês de outubro. As forças de Israel atacam o território sírio periodicamente, mirando objetos de infraestrutura, como os aeroportos de Damasco e Aleppo.
“Existe certa naturalidade no trato dos ataques que Israel e EUA realizam na Síria, e na continuada ocupação de parte do território por parte de Washington, como se a Síria não fosse um país soberano”, disse o professor livre-docente de Relações Internacionais da PUC-SP, Reginaldo Nasser, à Sputnik Brasil.
Com o governo de Damasco fragilizado após mais de dez anos de guerra civil, Israel e EUA não enfrentam resistência militar síria aos seus repetidos ataques.
Militares dos EUA em veículo militar perto de prisão atacada por militantes do Daesh (organização terrorista proibida na Rússia e outros países), província de Al-Hasakah, Síria, 8 de fevereiro de 2022 - Sputnik Brasil, 1920, 01.11.2023
Militares dos EUA em veículo militar perto de prisão atacada por militantes do Daesh (organização terrorista proibida na Rússia e outros países), província de Al-Hasakah, Síria, 8 de fevereiro de 2022 (© AP Photo / Baderkhan Ahmad)
O governo da Síria não tem condições de entrar em conflitos armados, já que segue muito enfraquecido e inicia o seu processo de reconstrução somente agora”, considerou o professor livre-docente.
Apesar da presença de milícias armadas financiadas pelo Irã no país ser uma realidade, Nasser não acredita que os sírios devam ser castigados pelas ações do Hamas, grupo que não nutre ligações com Damasco.
“Os líderes do Hamas ficam locados no Catar, mas quem é apontado como culpado de tudo é o Irã. E quem sofre bombardeios são o Líbano e a Síria – as partes mais frágeis da região”, notou o professor.
Apesar de serem aliados, os objetivos dos ataques dos EUA e de Israel na Síria nem sempre são os mesmos, acredita a professora de Relações Internacionais e assessora do Instituto Brasil-Israel, Karina Stange Calandrin.
Israel tem maior preocupação com a presença do Irã e do Hezbollah na Síria, que considera uma ameaça direta para a sua segurança”, disse Calandrin à Sputnik Brasil. “Já os EUA se preocupam mais com a presença da Rússia no país.”
Apoiadores do Hezbollah agitam bandeiras iranianas e do Hezbollah, enquanto celebram a chegada de petroleiros iranianos ao Líbano, 6 de setembro de 2021 - Sputnik Brasil, 1920, 01.11.2023
Apoiadores do Hezbollah agitam bandeiras iranianas e do Hezbollah, enquanto celebram a chegada de petroleiros iranianos ao Líbano, 6 de setembro de 2021
Para ela, o perigo de escalada do conflito na Faixa de Gaza para as Colinas de Golã, território sírio ocupado por Israel desde 1967, é real. Uma ofensiva israelense na área teria o objetivo de enfraquecer o Hezbollah.
“Com certeza é uma possibilidade real, que Israel deve evitar a qualquer custo. O Hezbollah é muito mais poderoso e tem mais experiência de guerra do que o Hamas”, disse Calandrin. “Então uma escalada [nas Colinas de Golã] seria mais perigosa em termos militares para Israel do que o conflito com o Hamas [na Faixa de Gaza].”

EUA em baixa no Oriente Médio

Em um cenário no qual o apoio incondicional a Israel impõe altos custos diplomáticos aos EUA no Oriente Médio, a presença de outras potências, como Rússia e China, é ainda mais desafiadora.
“Neste momento a situação dos EUA na região é muito complicada”, disse Nasser. “O presidente dos EUA, Joe Biden, não foi recebido por Jordânia e Egito, e a política de Washington vem sendo alvo de críticas por parte de Catar e Arábia Saudita.”
afastamento dos EUA também é resultado de pressão da opinião pública, fortemente mobilizada em ondas de protestos pró-Palestina no mundo árabe, apontou o professor livre-docente.
Iraquianos queimam bandeiras israelenses durante manifestação em apoio aos palestinos na Faixa de Gaza. Bagdá, Iraque, 13 de outubro de 2023 - Sputnik Brasil, 1920, 01.11.2023
Iraquianos queimam bandeiras israelenses durante manifestação em apoio aos palestinos na Faixa de Gaza. Bagdá, Iraque, 13 de outubro de 2023
“O poder da rua árabe é grande e os países da região não têm interesse que os protestos se aqueçam novamente”, considerou Nasser. “Portanto, há forte pressão da opinião pública para que os governos locais se afastem ainda mais de EUA e Israel.”

Vitória para Damasco?

diminuição da influência dos EUA na região pode favorecer o processo de normalização das relações entre o governo de Damasco e os demais países árabes, acredita Nasser.
“Damasco pode sair fragilizada militarmente, mas não politicamente. A Síria vinha em um processo chamado de normalização de suas relações com os demais países árabes, inclusive com as monarquias do golfo [Pérsido], algumas das quais financiaram ações contra o governo de Bashar Al-Assad”, considerou o professor de Relações Internacionais.
Em maio deste ano, a Síria foi readmitida na Liga Árabe, após mais de dez anos suspensa do órgão, em passo considerado fundamental para o início de negociações de paz no país. Na época, Washington criticou a decisão do órgão.
Representantes da Liga Árabe participam de reunião de emergência na sede do grupo  no Cairo, Egito (arquivo) - Sputnik Brasil, 1920, 01.11.2023
Representantes da Liga Árabe participam de reunião de emergência na sede do grupo no Cairo, Egito (arquivo) © AP Photo / Amr Nabil
“Não acreditamos que a Síria mereça a readmissão na Liga Árabe neste momento”, disse o porta-voz dos EUA, acrescentando que as sanções impostas por Washington contra Damasco permanecerão em pleno vigor.
A redução da influência dos EUA no Oriente Médio, portanto, pode reforçar a reconciliação entre países árabes e o papel diplomático de instituições multilaterais da região.
“Apesar das tensões com Israel, o que vemos agora é uma diminuição das tensões entre os países árabes – o que é raro, diga-se de passagem”, disse Nasser. “O acordo entre Irã e Arábia Saudita, mediado pela China, foi fundamental para selar essa tendência.”
Esse contexto pode favorecer a Síria, que precisará de apoio político e financeiro externo para reconstruir o país, após mais de dez anos de guerra civil, intervenções externas e sanções econômicas impostas pelos EUA.

“Os fundos de investimentos dos países do golfo [Pérsico] poderão ter papel fundamental na reconstrução da Síria, […] e essa é só mais uma das vantagens da diminuição de tensões entre os países árabes“, concluiu Reginaldo Nasser.

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