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Postado em 11/12/2018 5:04

Receita de caos: Bolsonaro afasta partidos e militariza governo

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Eleito pelo WhatsApp, amparado por ministros blogueiros, um filósofo de Facebook e os três filhos escolados no Twitter, o youtuber Jair Bolsonaro prepara-se para o inevitável desembarque na realidade. Egresso de pelo menos quatro anos em que labutou no mundo virtual, a vender como lebre da antipolítica o gato que cumpriu sete mandatos de deputado federal, parece agora armar-se para uma guerra na fronteira de sua bolha. Acercou-se de dois “superministros”, um deles Super Moro, cujos poderes já se mostraram de fato especiais. E convocou os quartéis: até o fechamento desta edição, contavam-se nove os militares chamados ao entorno do presidente, incluindo o vice, general Hamilton Mourão.

O último a juntar-se à tropa foi o também general Carlos Alberto dos Santos Cruz, que ocupará a Secretaria de Governo. Entre outras atribuições, fará a articulação política com o Congresso Nacional. A não ser que pretenda lançar-se à tarefa munido de fuzil e baioneta, é bastante provável que o general venha a confirmar a regra: de onde menos se espera é que não vem nada mesmo.

“É uma pessoa que fala mais de um idioma, tem uma vivência fora do Brasil muito grande, é combatente também”, disse Bolsonaro ao justificar a escolha de Santos Cruz para o trato com parlamentares falantes do português e residentes no Brasil, ao que tudo indica destituídos de qualquer intenção de fundar um movimento guerrilheiro.

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Fosse apenas a interlocução um problema que se avizinha, o novo governo ainda teria chances de lograr sucesso na lida com deputados e senadores. A questão torna-se mais dramática quando Bolsonaro dá sinais de iludir-se com a própria fantasia: como antipolítico, o outsider de fancaria rejeita a política como ela é, e aumenta a aposta no sentimento antissistêmico que afinal o catapultou ao impensável posto.

“Vamos mostrar como vai ser daqui para a frente. Diferentemente do que aconteceu nas últimas três décadas, o toma lá dá cá, não vai ter cargos (em troca de apoio). Foi essa prática que trouxe o Brasil para o momento que está hoje. Estamos criando uma nova forma de relacionamento (com o Congresso), inventando uma fórmula.” O Einstein que nos fala é Onyx Lorenzoni (DEM), coordenador da equipe de transição do próximo governo e futuro ministro-chefe da Casa Civil. Ele próprio já atropelado pelo andar da carruagem que passa por cima dos partidos e suas lideranças.

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A fórmula que se inventa estaria na medida da superficialidade dos 280 caracteres permitidos no Twitter: para evitar o toma lá dá cá, excluem-se os partidos políticos e seus líderes das negociações de apoio, e recorre-se diretamente às bancadas, como aquelas da Bíblia, do Boi e da Bala. O resto do serviço ficaria terceirizado às redes sociais. “Hoje há um instrumento que é a internet”, descobriu a pólvora o senador eleito Flávio Bolsonaro, ao revelar a tática em entrevista para o portal UOL. “Sem dúvida, um forte instrumento de pressão.” Eis a reinvenção da roda, a bem da verdade uma roda que por décadas rodou quadrada, a obrigar as alianças estapafúrdias do “presidencialismo de coalizão”. Tampouco se pode acusar Bolsonaro de não botar em curso aquilo que prometeu quando travestido de antipolítico. O problema reside em algo prosaico: a realidade.

“Bolsonaro cumpriu sete mandatos como deputado federal, mas tudo que fez foi falar aquelas grosserias, não entende absolutamente nada do funcionamento do Congresso, por incrível que pareça”, diz Renato Lessa, mestre e doutor em Ciência Política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ), professor titular de Teoria Política da Universidade Federal Fluminense (UFF) e investigador associado do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Lessa qualifica a estratégia do novo governo para lidar com o Congresso como “infantil”, “uma receita para a confusão”, “um coquetel explosivo que tem todas as chances de dar errado”.

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