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quinta-feira, 29 janeiro, 2026

Racismo em Salvador: Agressão racista tem de ser punida

Foto: Reprodução Folha de São Paulo

Emiliano José

Chama-se Gisele Madrid Spencer Cesar,

e tem cinquenta anos.

E é racista.

E proclama isso aos quatro ventos.

E acredita poder fazer isso impunemente.

Agrediu uma trabalhadora negra num dos bares da vida.

Turista, gozando férias, e crendo ser Salvador terra do apartheid.

Racismo é crime! Uma turista gaúcha, Gisele Madrid Spencer Cesar, cometeu racismo contra uma trabalhadora negra em Salvador, no Pelourinho. Ela se achou no direito de chamar um comerciante de “lixo”, cuspir

Chamou a jovem trabalhadora de lixo.

Repetiu isso quando ela, atendente no bar, perguntou se tinha ouvido bem.

Levada à presença de Ricardo Amorim, um negro rastafari.

E se indignou.

Disse, reiterava o racismo, não aceitar ser atendida por ele, titular da Delegacia Especializada de combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa da Bahia.

Queria um delegado branco, vejam só a arrogância da Casa Grande.

Na Bahia, não.

Continuaria a ser recepcionada pelo delegado negro,altivo, sereno, e muito firme.

Poucos dias, e foi solta, sob medidas restritivas.

Não sei se o episódio vai ensiná-la.

Sinceramente, não creio.

Racismo é traço vindo da família, da cultura, do entorno da pessoa, da sociedade.

Está fincado na alma.

Somos um país forjado sob mais de 300 anos, três séculos, de escravidão.

Milhões de pessoas escravizadas.

A Casa Grande sempre considerou poder fazer toda e qualquer crueldade, a pior delas submeter a pessoa a um cruel regime de trabalho, onde não havia qualquer direito.

A Casa Grande, não fosse tantas outras coisas, disseminou o mando masculino, aprofundou o desprezo e a exploração da mulher, naturalizou a utilização de castigos cruéis.

E esta Casa Grande viu renascer-se, fortalecer-se novamente com a advento do bolsonarismo, fenômeno capaz de liberar os monstros submersos, calados até então da sociedade brasileira.

E monstros aqui não são apenas uma metáfora.

Nesse mundo em crise, vale o diagnóstico de Gramsci para identificar a existência dela, da crise: é aquele momento histórico onde o velho se recusa a morrer, o novo não tem força para nascer – e é nesse lusco-fusco, nesse momento, que surgem as deformidades, os monstros.

Muitos dos nossos parentes, familiares, amigos, mantinham-se calados à mesa, nas festinhas, comemorações variadas.

Quando surgiu uma liderança obtusa, ignorante, e por isso mesmo, valorizada, essas pessoas de bem, a considerar lixo todos os pobres e de modo especial as pessoas negras, passam a seguir o líder, o mito, e a deixar extravasar a alma de Casa Grande – racista, homofóbica, misógina.

Insisto: valorizam o mito porque obtuso e ignorante, e ao agir assim, deixam nítidos os valores culturais reacionários acumulados, a mentalidade também obtusa, ignorante, infensa aos valores iluministas.

Essas pessoas de bem, e as aspas ficam por conta das leitoras, dos leitores, desnudaram-se.

Perderam qualquer vergonha de se mostrar.

Muitas delas, com formação universitária, acadêmica, por incrível possa parecer.

Não, não estou dizendo da inexistência do racismo anteriormente.

Sempre existiu, por óbvio.

Estou afirmando da disposição dos racistas de mostrarem a cara agora – o líder deles não falara em pesar os negros calculando por arroba, por que eles não se mostrariam?

Agora podiam até defender a ditadura – o mito não falou da necessidade de os militares terem matado 30 mil?

Não defendeu o bárbaro assassino chamado Carlos Alberto Brilhante Ustra?

O aflorar do bolsonarismo revelou as obtusidades, monstruosidades da sociedade brasileira, de modo especial o racismo, o lixo a que se referiu a gaúcha, liberou geral.

Essa moça, a levar a Espanha no nome e também a Itália, por Madrid e Cesar, e eu não veria acaso nisso, talvez atavicamente franquista e adepta de uma espécie de cesarismo, essa moça é parte desse fenômeno, independentemente das influências do entorno familiar mais próximo.

Curioso: racistas chegam à Bahia, admiram a criação cultural negra, são capazes de colocar um colar dos Filhos de Ghandi, como Madrid Cesar, como se uma coisa não tivesse a ver com a outra – reacionarismo e alienação.

Não quero discutir o caso de modo singular.

Talvez fosse mais próprio ela ter permanecido presa porque cometeu um crime grave.

Humilhou uma trabalhadora acreditando-se no direito de fazê-lo, e ninguém pode avaliar o significado disso na alma de Hanna, a vítima, ninguém.

Os racistas, ao virem à Bahia, devem tomar mais cuidado.

Salvador é uma terra negra, majoritariamente negra.

Gisele Madrid Cesar deu sorte.

Tivesse encontrado uma barraqueira, daquelas incapazes de levar desaforo pra casa, e ela podia ter sido quebrada no pau, e até acontecer coisa pior porque a turba podia entrar no jogo e aí nunca se sabe o desfecho.

Não, não digo isso por defender tal atitude, muito pelo contrário.

Nada de fazer justiça com as próprias mãos. Mas podia ter acontecido, e seria lamentável.

Devemos valorizar a existência de uma delegacia especializada em combater o racismo e a intolerância religiosa.

O governo Jerônimo Rodrigues cuidou disso, sabedor da existência do racismo entranhado na alma de tanta gente, cuja crueldade exige os rigores da lei.

Racismo é crime. Deve ser entendido assim, e a lei já consagrou isso.

Por isso, ninguém pode arvorar-se com o direito de ofender ou agir de modo racista.

Na Bahia, vai parar na cadeia.

Por justiça.

Em defesa dos valores mais nobres da humanidade.

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