O desfile começou com o carro abre-alas, trazendo o escritor Júlio Verne, que nunca esteve na Amazônia e jamais sonharia que seu romance publicado em 1881 estaria mais de um século depois na Passarela do Samba, descendo numa jangada pelo grande rio, de Iquitos a Belém, com negros e indígenas escravizados. La estavam os navegantes andinos, a Amazônia viva e a Amazônia em chamas, a ala dos ribeirinhos, os mitos amazônicos, incluindo Jurupari, o maior deles. Na comissão de frente a mãe natureza chorando sangue, em defesa da floresta e dos povos originários.
A ditadura empresarial-militar instaurada com o golpe de 1964 queria, no entanto, uma “escola sem partido”. Daí tornou obrigatório “temas patrióticos” para os enredos, o que levou o saudoso Stanislaw Ponte Preta a compor de gozação O Samba do Crioulo Doido. Em 1974, Martinho da Vila teve censurado seu samba Aruanã Açu em defesa do meio ambiente e – oh ironia! – a Vila Isabel desfilou neste ano fazendo a apologia da Transamazônica, responsável por desmatamento e mortes.
Em resposta, lembrei ao meu ex-aluno o seminário sobre as línguas faladas no Brasil, realizado em março de 2006 na Câmara de Deputados, em Brasília, quando dona Fiota, filha de escravizados, falou não em português, que ela dominava, mas na Gira da Tabatinga, com a qual eles se comunicavam nas senzalas e ainda hoje usam em terras quilombolas. No final do seu discurso pediu licença para cantar e justificou: