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quinta-feira, 18 julho, 2024

Plano Real: Direita sonha com passado mágico que deixou de ser solução para virar problema

Foto Marcello Casal Jr/Agência Brasil

César Fonseca

A mídia conservadora, anti desenvolvimentista, neoliberal, anti-PT, anti-Lula, solta foguetes nas comemorações exageradas dos 30 anos do Plano Real, que seguiu parâmetros burgueses financeiros para combater a inflação que havia se transformado em hiperinflação desde final da ditadura militar.

Destaque-se que a hiperinflação não decorreu, como dizem os neoliberais, pelo excesso de gastos do governo, descontrole fiscal etc, ou seja, por problemas internos, motivados por ações populistas etc.

A causa foi externa: a economia nacional e as demais economias capitalistas periféricas, aliadas dos Estados Unidos, sucumbiram-se, conjuntamente, pela especulação do Banco Central dos Estados Unidos ao puxar, em 1979, a taxa de juro – a prime rate – de  5% para 25% em 1979, em nome da saúde do dólar, abalado pelo descolamento do dólar do ouro, em 1971, no governo Nixon.

Com a flutuação da moeda americana, depois do seu descolamento do padrão ouro, Washington encheu a praça global de dólar sem lastro – não havia ainda o petrodólar para substituir o ouro como âncora do dólar – enquanto pressionava a periferia capitalista aliada a desregulamentar, totalmente, a economia, como aconteceu, mais intensamente, na a Era FHC, dominada pelo Consenso de Washington.

Resultado: o dólar se inflacionou.

Paul Volcker, todo poderoso presidente do BC, diante do perigo do dólar entrar em crash pelo excesso em circulação global, puxou violentamente os juros e jogou a economia mundial em crise, atingindo mais intensamente os países capitalistas subdesenvolvidos na América Latina.

A dívida externa, com a puxada de juro na América, explodiu e, no Brasil, acabou com a experiência nacionalista militar de tentar construir o Brasil Grande, mediante poupança externa.

A inflação sem controle, junto com o endividamento, sinalizou, futuramente, a hiperinflação, que amadureceu nos governos Itamar/FHC.

 Mágica tucana

Os tucanos dolarizaram a economia – sobrevalorizando o real – para equiparar a moeda nacional, apelidada de URV,  ao dólar e, desse modo, numa tacada derrubar os preços.

Garantiram, como um passe de mágica, a vitória eleitoral em 1994 e 1998, quando FHC comprou a reeleição no Congresso, assim como a Faria Lima hoje compra o Legislativo para sustentar política macroeconômica antinacionalista via juros altos praticados pelo BC neoliberal anti-Lula.

Historicamente, a façanha do Plano Real, para combater a hiperinflação brasileira produzida pela taxa de juro de 25% imposta pelo Banco Central americano de modo a salvar o dólar que inundara o mercado mundial, especulativamente, foi genial jogada política para a direita ganhar a eleição.

Se não houvesse essa mágica, que derrubou os preços, mas jogou o país na desindustrialização e no desequilíbrio das contas públicas, impulsionado pelo juro alto Selic, especulativo, Lula ou Brizola ganharia a eleição de FHC em 1998.

O Plano Real, no segundo mandato de FHC, já estava fazendo água, sob pressão do FMI para que a moeda fosse desvalorizada.

Brizola havia cantado a bola da volta da inflação, que estava se aproximando dos 12%, em 1997/98, ressaltando que era como o velho diabo que vive muito e tem experiências que produzem amadurecimento e ceticismo com novidades esdrúxulas.

O hoje presidente do BNDES, Aluízio Mercadante, em 1994, antecipou-se ao dizer que o Real era uma farsa eleitoral, tanto que depois da derrota de José Serra para Lula em 2002, os tucanos não ganharam mais nada, chegando ao poder, apenas, pelo golpe, aliando-se à direita em 2016 e 2018.

Deixaram para Lula em 2003, apenas, retorno da inflação e dívida pública incontrolável, com avanço da desigualdade social.

 Economistas políticos

Os idealizadores do Plano Real foram menos economistas do que políticos, para preservar o poder para a burguesia financeira, derrotando trabalhadores, ao alinharem o real ao dólar, que derrubou a hiperinflação, numa tacada só.

O mal da hiperinflação, entretanto, migrou da alta dos preços para a alta da dívida pública via juros altos, como arma para continuar ampliando reprodução do capital, embora a dívida, paulatinamente, negativamente, levasse o país ao baixo crescimento econômico por ser obrigado a se submeter ao tripé neoliberal(metas inflacionárias, câmbio flutuante, superávit primário) imposto por Washington.

A inflação, arma de enriquecimento do capital às custas do empobrecimento dos trabalhadores, passou a crescer dialeticamente na barriga da dívida pública.

O Plano Real, no fundo, foi jogada de acomodação com o FMI, que discordou do Plano por ser, aos seus olhos, coisa de doido, mas que atingiu o objetivo da burguesia: continuar no poder.

Mudou a forma, mas não o conteúdo.

A dívida pública saiu do controle porque a inflação cresceu em forma de dívida, embalada pelos juros altos, responsáveis maiores pelo avanço da desindustrialização e privatização do patrimônio nacional.

 Armínio Fraga, tucano juramentado, ex-presidente do BC, na Era FHC, chegou a fazer mea culpa: juros Selic a 26% ao ano, no tempo dele, bem acima do crescimento do PIB de 2%, 3%, produziria três desastres: subconsumismo, desigualdade social e consequente fuga de investidores.

Eis em síntese o resultado concreto do Plano Real de estabilizar a inflação, mas de produzir, também, o empobrecimento nacional crônico.

Solução Lula

Lula agora tenta minimizar a situação, no seu terceiro mandato, garantindo reajuste real do salário-mínimo e dos aposentados, com elevação consequente do consumo interno devido à melhor distribuição da renda.

A solução Plano Real, mágica, revelou-se, historicamente, efêmera, porque entrou em contradição consigo mesma, enquanto a solução PT, com Lula e Dilma e, agora, Lula 3, revela-se, politicamente, mais consistente do ponto de vista do trabalhador.

Não é à toa, portanto, que a direita conspira contra o governo Lula, escondendo a realidade dos fatos, que mostram apoio dos trabalhadores à administração petista, passaporte para o quarto mandato em 2026.

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