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domingo, 14 dezembro, 2025

Plano de paz – Rendição da OTAN em grande estilo

© AP Photo / Vadim Ghirda

Wellington Calasans – Correspondente na Europa

Com base no suposto plano de paz de 28 pontos divulgado pelo The Telegraph, que teria sido elaborado conjuntamente pelos Estados Unidos e Rússia, torna-se evidente que a proposta representa uma significativa reconfiguração geopolítica da Europa Oriental.

O acordo, ainda não confirmado oficialmente por nenhuma das partes, exigiria concessões territoriais drásticas da Ucrânia, incluindo o reconhecimento da Crimeia e todo o Donbass como territórios russos, além do congelamento das linhas de frente em Kherson e Zaporizhzhia.

A proposta também limitaria a soberania ucraniana através da proibição de adesão à OTAN e restrições severas às suas capacidades militares, configurando um novo equilíbrio de poder claramente favorável aos interesses russos na região. É o que podemos chamar de troféu do vencedor.

A tentativa europeia de recusar o plano, sob o argumento de que ele é uma “capitulação sem humilhação”, revela-se problemática quando analisamos seus detalhes concretos. É hora de reduzir a arrogância e abraçar esta que pode ser a última oportunidade de uma “saída honrosa”.

O documento menciona garantias de segurança e um robusto programa de reconstrução com recursos de ativos russos congelados, uma concessão russa que ninguém poderia ignorar como um gesto de “esforço de paz”.

Para a Europa e os corruptos políticos ucranianos, a essência do acordo subverte a integridade territorial ucraniana conquistada desde 1991. Alguém precisa avisar a essas figuras desconectadas da realidade que a derrota é incontornável. Sugiro que traduzam a música do cantor e filósofo Falcão: “eu acho melhor escapar fedendo do que morrer cheiroso”.

A reintegração da Rússia no G7 (tornando-o novamente G8) e o levantamento gradual das sanções representariam uma normalização das relações internacionais com Moscou, uma maneira coerente de desfazer todos os erros iniciados no descumprimento dos Acordos de Minsk.

O grande desafio será garantir de todos os envolvidos o cumprimento de mecanismos eficazes de fiscalização e de consequências claras para violações futuras do acordo de paz e das garantias de segurança apresentadas, pois somente isso tornará estas promessas particularmente sinceras.

Caso a União Europeia insista em manter a Ucrânia “como um zumbi” – economicamente dependente de ajuda externa e militarmente incapaz de defender sua integridade territorial completa – as consequências seriam ainda mais devastadoras para o projeto europeu.

O continente já enfrenta um declínio relativo em influência global, com a Alemanha particularmente afetada por crises energéticas e desindustrialização acelerada. Inclusive, os alemães estão sem perspectivas concretas de reação, perdendo empresas e sem poder de competitividade.

Manter um estado-cliente permanentemente dependente esgotaria os recursos europeus já limitados, aprofundaria divisões internas entre estados membros e fortaleceria narrativas eurocéticas. Se a preocupação com o crescimento do chamado extremismo de direita for verdadeira, é hora de parar de repetir os mesmos erros.

Além disso, este cenário transformaria a Ucrânia em um campo permanente de influência estrangeira, alimentada pelo fantasma da invasão russa, disfarçado de defesa da soberania ucraniana, minando qualquer credibilidade restante da promessa de segurança ocidental para países fronteiriços, pois na prática é o uso de um país como território de uma guerra por procuração.

O cenário proposto reflete uma realidade militar e geopolítica em que o poder de barganha ocidental diminuiu substancialmente desde o início do conflito. A relutância norte-americana em fornecer armas de longo alcance à Ucrânia e a crescente fadiga de guerra em capitais europeias criaram condições para este acordo que prioriza a estabilidade imediata através de pontos realistas para a garantia da paz.

A imprensa europeia fala sobre possíveis garantias de segurança adicionais dos EUA contra futuras agressões russas, mas isso apenas sugere uma tentativa de manter vivo o fantasma da “invasão russa” e não de preocupação em salvaguardar minimamente os interesses ucranianos ou europeis.

No longo prazo, a aceitação deste tipo de acordo estabelece uma primorosa reflexão sobre as lacunas existentes na chamada ordem internacional baseada em regras. O reconhecimento de conquistas territoriais por meios militares sepulta a ideia de que através da demonização de povos e líderes é possível legitimar estratégias de “mudança de regime”.

Para a Europa, especialmente para potências tradicionais como a Alemanha, esta seria uma admissão tácita da incapacidade de projetar poder e proteger interesses estratégicos sem dependência excessiva dos Estados Unidos. O que poderia representar uma tentativa de recomeço, sem a agenda belicista como bússola das decisões políticas e estratégicas.

O verdadeiro desafio não é escolher entre capitulação ou zumbificação, mas reconstruir uma capacidade credível de paz que preserve tanto a segurança europeia quanto a integridade dos países vistos como “ameaça”. A OTAN precisa reconhecer que está obsoleta em tecnologia bélica e que ao insistir em desafiar uma potência como a Rússia, estará a cometer um erro fatal.

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https://x.com/wcalasanssuecia/status/1991788213355102704?s=20

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