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Postado em 14/06/2021 8:38

Peru: Qual será a natureza de um governo Pedro Castillo?

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Castillo, o presidente eleito do Peru.

Por Michel Chossudovsky

Pedro Castillo é sindicalista e ex-professor da região norte andina de Cajamarca. Ele está comprometido com a redução da pobreza e a criação de empregos.

Exacerbada pela crise de Covid e pelo bloqueio, o Peru está atualmente num estado de desemprego em massa, pobreza extrema e desespero indescritível.

As chamadas estimativas de pobreza do Banco Mundial no Peru são “falsas” (27% da população do país está abaixo da linha da pobreza). Uma análise independente sugere que pelo menos 70% da população do Peru está abaixo da linha da pobreza e a pobreza extrema é da ordem de 35% a 50%.

O país veste uma camisa de força neoliberal.

Castillo estará em posição de reverter a maré de política corrupta patrocinada pelos EUA, que remonta à presidência de Alberto Fujimori em julho de 1990? Será ele capaz de implementar um projeto econômico e social progressista?

Qual será a natureza de um governo Castillo? Castillo ganhará apoio do governo Biden-Harris?

O importante é avaliar a entourage política de José Pedro Castillo. Ele já assumiu vários compromissos. Sua equipe técnica já foi escolhida. Este é o procedimento padrão nas eleições latino-americanas.

Há indícios de que um governo Castillo adoptaria o que podemos descrever como uma agenda neoliberal “progressista”, com o apoio da esquerda, com o endosso tácito do governo Biden com certas pré-condições, antes de sua posse em 28/Julho/2021.

Convém notar que a OEA supervisionou o processo eleitoral (em nome de Washington) e não relatou quaisquer “irregularidades” a favor de Castillo.

Se Washington se tivesse oposto ao candidato socialista Pedro Castillo, o Departamento de Estado dos EUA teria instruído a OEA a questionar a legitimidade dos resultados eleitorais, tal como fez na Bolívia em novembro de 2019, o que resultou de facto num golpe de Estado patrocinado pelos EUA que obrigou o presidente Evo Morales a renunciar e abandonar o país.

Alianças políticas e equipes consultivas

Pedro Castillo é apoiado por Veronika Mendoza, a líder do Nuevo Perú ( Bloomberg , 9/Junho/2021). O que está em causa é uma aliança política estrategica entre Perú Libre de Castillo e o Nuevo Perú de Mendoza.

Mendoza é uma figura progressista na política peruana. Seu partido está a apoiar Castillo. Foi assinado um acordo entre as duas partes. Mendoza nomeou uma ” equipe de profissionais” para esboçar um plano de governo (ver Bloomberg, 9/Junho/2021, ênfase acrescentada).

O que isto sugere é que Castillo já aceitou uma equipe consultiva, nomeada por Mendoza, que está destinada a desempenhar um papel central no governo de Castillo. Durante a segunda volta da campanha eleitoral, o principal assessor económico de Castillo é Pedro Franke, um antigo economista do Banco Mundial.

Antecedendo a segunda volta, Pedro Franke esteve amplamente envolvido em declarações de relações públicas em apoio à candidatura de Castillo.

Embora Franke tenha uma retórica populista, ele no entanto está comprometido com a teoria econômica dominante do “livre mercado”. A questão é se um governo Pedro Castillo se conformaria com o “Consenso de Washington”.

O país já está nas mãos de credores estrangeiros. Estes últimos também estão a prestar “assistência financeira” em relação à crise do Covid.

Continuidade: Um pacote neoliberal de facto e em andamento de intervenções económicas e sociais (sob os auspícios do Banco Mundial, do FMI e do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID))?

Neoliberalismo com rosto humano

Pedro Franke já propôs uma economia de mercado popular em nome de Pedro Castillo, a quem comparou com Luis Inacio da Silva.

Embora apoie o programa de criação de empregos em massa de Castillo, ele está comprometido com a “prudência orçamental e metas de inflação, e opõe-se à nacionalização de empresas”.

O que isto sugere é que um governo Castillo não será capaz de criar empregos sem o aval dos credores externos do Peru:

“Não queremos nacionalizar as indústrias de mineração e petróleo, ou outros sectores, disse Franke.

Não queremos controles de preços generalizados ou uma taxa de câmbio dupla ou impor controles da moeda como Chávez fez”.

Estas declarações sugerem que o governo Castillo não confrontaria os conglomerados de mineração estrangeiros, mas também que obedeceria às condicionalidades do FMI-Banco Mundial.

A questão dos controles de preços é, obviamente, crucial. Recordar a adopção por Alberto Fujimori da agenda do FMI de tratamento de choque da economia em agosto de 1990. O preço a retalho da gasolina aumentou 30 vezes do dia para a noite.

Os remédios económicos do FMI invariavelmente disparam aumentos nos preços dos bens de consumo essenciais, enquanto congela salários. Nas atuais condições (crise do Covid), isto precipitaria um grande sector da população peruana na pobreza extrema e no desespero.

Numa conferência de imprensa em 2/Junho/2021. Pedro Franke declarou:

“As três medidas essenciais são:

Um vasto programa de crédito com taxas de juros baixas que cheguem à agricultura.

Em segundo lugar, um programa de investimento público que irá gerar empregos diretos e indiretos.

Outra medida que será tomada será “defender e promover a produção local”.

“Insistimos em que a batata – um produto nacional – deve ser promovida, (assim como) a produção nacional de arroz. …

A industrialização do país é essencial, assim como o apoio aos empreendedores e à inovação”, disse ele. …

Franke descarta a possibilidade de criar emprego através da política monetária: “Nossa proposta é de uma política orçamental e monetária responsável. A nossa proposta inclui um equilíbrio orçamental … “nomeadamente” medidas de austeridade”.

Ver entrevista sua na TV, em castelhano

A declaração anterior confirma que os credores estrangeiros, e não o governo, serão os responsáveis pela criação de empregos. Numa entrevista concedida a 8/Junho, Pedro Castillo confirmou que:

“Respeitaria a autoridade do banco central e que não estaria a planear nacionalizações ou expropriações, mas acrescentou que uma revisão tributária sobre a mineração seria necessária para ajudar a pagar pelas reformas planeadas de saúde e educação”. ( Reuters , 8/Junho/2021)

13/Junho/2021

O original encontra-se em www.globalresearch.ca/…

Este artigo encontra-se em https://resistir.info

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