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Cultura

Postado em 07/06/2020 11:43

Paulo Tripa: não consigo respirar

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José Bessa Freire

“Quando quero ‘Aparecida’ / não é lá que eu vou. / Busco-a em mim mesmo /

onde ‘Aparecida’  sou”.  (Paráfrase do poema “Olinda” de Felix de Athayde)

(Diário do Amazonas) Paulo Borges de Lima nasceu no barraco de taipa e zinco da rua Bandeira Branca, n º 86, em Manaus, onde morou durante 82 anos. Conhecido como Paulo Tripa, foi ali que passou a infância e a adolescência com seus pais Rita e Paulino, fabricando broas de goma de mandioca vendidas nas ruas do bairro de Aparecida com o pregão: “Broa! Broa boa de boca!”. Dali, já adulto, saía diariamente para o Porto de Manaus, onde trabalhava como ajudante de pedreiro. Agora, na calçada, sua cadeira de fio de “macarrão”, na qual lia o jornal, ficará para sempre vazia. Nesta terça (2), ele foi levado pelo coronavirus.

Era naquela cadeira de embalo que, de tardinha, desfrutava a aposentadoria, abicorando os amigos que paravam para um dedo de prosa. Exceto em dias de jogo do Vasco, clube do coração. Aí acompanhava cada partida no radinho de pilha. Sabia de cor a escalação do time nos anos 40: Barbosa, Augusto e Rafaneli, Jorge, Danilo e Eli, Alfredo, Ipojucan, Ademir, Maneca e Dejair. Lembrava detalhes das jogadas do zagueirão argentino Rafaneli – um paredão. Os lances majestosos de Ademir Queixada – uma fábrica de gols. Ou os dribles chaplinescos de Alfredo – o Tesourinha. Não perdia nem as partidas de futebol de botão, com o time do    Vasco feito de caroço de tucumã pelo Euclides Coelho de Souza.

Houve uma época – a gente não precisa esconder – em que esse filho de broeiros, ele mesmo broeiro, gostava de tomar umas e outras doses de cocal na taberna do seu Francisquinho ou do Jaime Mãozinha. Afinal, ninguém é de ferro. Mas ele gostou. Virou vício. No entanto, conseguiu vencer o alcoolismo, o que não foi uma tarefa fácil, como testemunhou sua sobrinha amada Mônica Lima.

Cuchichiba

Na banca de tacacá da dona Alvina diziam que, por causa das manchetes dos jornais de 1938, ele devia se chamar Getúlio em homenagem ao ditador Vargas atacado no Palácio do Catete pelos fascistas naquele ano. A outra opção era Virgulino, tributo ao cangaceiro Lampião morto e degolado na mesma época. Ficou Paulo, porque dona Rita ouviu na igreja a história do santo no livro de Atos dos Apóstolos. Quanto ao apelido há controvérsias: para alguns por ele ser magérrimo, para outros por ter ele vendido bucho e tripa do Matadouro Municipal, o curro do bairro de São Raimundo. Minha irmã Helena, sua colega no curso primário do Colégio Aparecida, conta que ele ficava com raiva quando os colegas gritavam:

– Paulo Tripa Cuchichiba. Não é de nada.

O “insulto” não era o Tripa, que ele assumiu sem problemas, mas a referência a Carlos Cuchichiba, feio como o fascismo, atacante do Atlético Latitude Zero, do Amapá, que jogou em Manaus e que diziam ser irmão gêmeo do Paulo.

– Solteiro, nunca teve filhos, mas perfilhou os sobrinhos. Era tio-avô e até tio-bisavô. Muito cuidadoso com a família, acordava todos os dias às 5h da manhã, dava milho para as galinhas e coava o café, enquanto ouvia as notícias no rádio. No bairro era querido por todo mundo, devido à sua simpatia e carisma. Uma figura ilustre cujo brilho do sorriso será sempre lembrado por quem o conheceu – conta sua sobrinha Mônica. Pude constatar isso na última vez que passei por Manaus, há dois anos, num papo com ele e seu sobrinho Rubem Rola.

A Associação Comunitária do Bairro de Aparecida divulgou nota oficial assinada por seu presidente Wander Reis, se solidarizando com a família e informando que não houve velório em decorrência de ter sido ele acometido pelo Covid-19.

Mundo abalado

No Brasil, tem gente morrendo com coronavirus a cada minuto e alguns segundos – considerando que o dia tem 1440 minutos – o que contradiz as previsões otimistas do puxa-saco Osmar Terra Plana. Em breve, seremos o primeiro país do mundo em número de mortos: “O Brasil acima de todos”. Já tivemos três ministros da saúde e não temos ainda uma política de combate à “gripezinha”, assim classificada pelo presidente da República, preocupado unicamente em se manter no poder e em impedir as investigações sobre suspeita de corrupção da sua família. Já nos aproximamos dos 40.000 mortos. O Paulo Tripa é um a mais. “E daí? Esse é o destino de todo mundo” – diz Bolsonaro, banalizando a morte com um mover de ombros e um esgar.

Quanta perspicácia! Como descobriu que esse é o nosso destino?  O que ele não diz é que o Estado tem a obrigação de zelar para adiar o máximo possível a morte do cidadão e proporcionar qualidade de vida, aplicando recursos dos impostos na área de saúde e não distribuindo-os em rachadinhas entre os familicianos ou em voos de helicópteros para apoiar manifestações que pedem o fechamento do Supremo Tribunal Federal. Resta-nos a esperança anunciada por Gianna, 6 anos, filha de George Floyd, numa das manifestações diárias contra o racismo que vêm ocorrendo em centenas de cidades americanas e europeias:

– Papai mudou o mundo. 

Mudou mesmo. No Brasil, no domingo (31), atos de rua em defesa da democracia uniram, de forma inédita, torcidas rivais de clubes paulistas. “A intenção era riscar o primeiro fósforo e acordar outros movimentos e partidos” – disse um dos fundadores da Gaviões da Fiel. O fósforo aceso despertou jovens suprapartidários de Manaus que já na terça (2), no dia do adeus a Paulo Tripa, desfilaram pela av. Djalma Batista contra o governo Bolsonaro e contra o racismo.

As boas broas

Peço desculpas aos eventuais leitores, que podem muito bem alegar a existência de assuntos mais importantes para discutir aqui nesse espaço: um deles, as manifestações que se espalham pelo mundo em plena pandemia e as que ocorrem no Brasil neste domingo (7). Ou os artigos do antropólogo Luiz Eduardo e do Guilherme Boulos sobre os protestos de rua, que mereciam ser comentados. Ou ainda a declaração ‘polêmica’ do Lula de que não é “Maria vai com as outras”, num momento crítico em que se faz necessário unir forças para lutar contra a escalada fascista. Não deu.

Em favor do Paulo Tripa, lembro apenas que poderia também ter dito: “I can’t breath”. Ele não conseguia mais respirar, sufocado por quem gasta milhões, inutilmente, com a cloroquina desautorizada pela Organização Mundial da Saúde e tenta esconder, adulterar e retardar as notícias com os dados sobre as vítimas da pandemia.

Vamos combinar: eu não podia deixar um amigo ir embora, sem acenar-lhe com um último adeus, a alguém que simboliza todos os personagens honestos e trabalhadores que perdemos. Fui buscar Paulo Tripa em mim mesmo, lá onde “Aparecida” sou. Nele me solidarizo com as milhares de famílias que perderam entes queridos, entre os quais centenas de indígenas. Saravá, meu irmão!

Recado a São Pedro: Oi Pedrão, deixa o Paulo Tripa entrar e oferece a ele uma cadeira de macarrão. Esse vascaíno, homem íntegro, ajudante de pedreiro, cimentou as pedras sobre as quais foi assentada a tua igreja. Além disso, leva com ele a receita de umas broas deliciosas, com cheiro de infância, com as quais se pode comungar, pois derretem na boca como hóstia. Broa. Broa boa de boca. Ah! Ia esquecendo: por favor, não permite que aí o chamem de Cuchichiba. Ele não gosta.

P.S. Um dia depois de Paulo Tripa, o coronavirus levou o professor Makuxi Fausto Mandulão, 58 anos, da comunidade Tabalascada, região da Serra da Lua, um amigo querido a quem conheci ainda jovem e com quem mantive contato em cursos, eventos e reuniões sobre educação indígena e, a partir de 2012, em trocas frequentes de mensagens no facebook,  com afagos e abraços recíprocos.

Obs: Fotos do arquivo da família cedidas por Mônica Lima e enviadas por Regina Cabral Freire, a quem agradeço. Ver também Meu amigo Rubem Rola http://taquiprati.com.br/cronica/212-meu-amigo-rubem-rola e Morrer de Aparecida http://taquiprati.com.br/cronica/54-morrer-de-aparecida

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