Reinaldo e a ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania, Macaé Evaristo — Foto: Clarice Castro/MDHC
Emiliano José
Talvez as novas gerações, mesmo os aficcionados do futebol, não tenham conhecido José Reinaldo Lima.

Foto: Arquivo Placar)
Reinaldo, brilhante jogador, e dizer brilhante é pouco: um dos melhores, mais talentosos atacantes do futebol brasileiro.
Passou pelo Atlético Mineiro, por alguns outros times, e pela Seleção Brasileira.
Costumava comemorar os gols dele com o punho cerrado, a reproduzir gesto dos Panteras Negras, movimento negro norte-americano antirracista e de intensa militância em favor da conquistas dos direitos civis para os negros.
Denunciou: não foi convocado para a seleção brasileira de 1982 por conta da posição política dele.
Não escondia a posição contrária à ditadura militar.
Exceção dentre os jogadores do período, no mínimo um dos poucos a ter tal atitude.
Foto: Clarice Castro/MDHC
Nesta terça (02/12), em Minas, a Comissão de Anistia do Ministério de Direitos Humanos o anistiou, pediu perdão a ele em nome do Estado brasileiro, e o indenizou em 100 mil reais. Justa reparação.
Reinaldo futebol – Foto: Pedro Silveira
Reinaldo foi monitorado pelo SNI o tempo todo e também foi perseguido no âmbito esportivo, cujas entidades estiveram sempre ao lado da ditadura.
Disse: provável vocês se lembrem de minha trajetória como jogador, “mas pode ser que não saibam da luta muitas vezes silenciosa que tive que enfrentar”.
Todos nós sabemos, dirá o agora veterano atacante, dos horrores da ditadura, das tantas vidas ceifadas por ela.
Mas, acrescentará, a repressão “foi muito além dos porões e das celas e não usava só a violência física”.

(Foto/CAM)
Fonte: Reinaldo, ex-Galo, ícone da democracia, tem condenação anulada após 50 anos – https://jmonline.com.br/esporte/reinaldo-ex-galo-icone-da-democracia-tem-condenac-o-anulada-apos-50-anos-1.570006
O regime militar, ele denunciou, orquestravam campanhas de difamação, “verdadeiras operações para acabar com a reputação e a vida social das pessoas que eles consideravam inimigos”.
Verdadeira máquina de propaganda e mentiras que agia nas sombras “com resultados terríveis na vida real”, como ele disse no pronunciamento durante a sessão da Comissão de Anistia, chorando quase o tempo todo.
Ditadura usava a tática de guerra psicológica, “feita para isolar e destruir a pessoa, sem precisar de um tiro ou da prisão”.
Reinaldo deu declarações durante a vida dele como jogador a favor da democracia, pelo fim da ditadura.
O regime militar o perseguiu ferozmente. Acionou uma ampla campanha de difamação contra ele. Disposto a calar a voz dele, diminuir a força de suas palavras.
Tentaram acabar com a vida e a carreira dele.
Disse com propriedade: tal forma de violência do Estado, ataque à honra, à imagem, à dignidade de uma pessoa “é tão grave quanto as outras”.
Busca destruir a pessoa por dentro, “tirando seu lugar no mundo e no futuro”.
_ É uma violência que deixa marcas profundas e duradouras, mesmo que a gente não veja.
Como decorrência de toda a perseguição, enfrentou ao longo da vida problemas com álcool e drogas.
Recuperou-se.
Chegou a ser deputado estadual pelo PT e vereador.

É atualmente comentarista esportivo.
A Comissão de Anistia marcou um belo gol.
Chegou aos campos de futebol.
Normalmente, território minado.
Tratado só com celebração.
Sem nenhuma análise histórica.
Menos ainda, quando se trata do período ditatorial.
Poucos jogadores a se manifestar, a se indignar em relação à ditadura.
Necessário um mergulho a lembrar, por exemplo, a perseguição aos irmãos de Zico, Nando e Edu.
O futebol, sob a CBF, era sustentáculo do regime militar.
Sob João Havelange, paraíso da corrupção.
Havelange chegou a perseguir Pelé porque o Rei opôs-se a ele.
Quem sabe, a anistia a Reinaldo abra as portas para um trabalho investigativo mais profundo sobre as relações amistosas, de cumplicidade entre o futebol e a ditadura.
E discuta como o dinheiro está matando uma das mais genuínas paixões do povo brasileiro, como o capital vai sepultando-a.
Esperança é a última que morre.

(Foto: Arquivo EM)



