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domingo, 14 dezembro, 2025

Panamá 2025: Grande dívida, listas cinzentas e emprego informal

Cidade do Panamá (Prensa Latina) Apesar das previsões de organizações internacionais de maior crescimento, a economia do Panamá encerra 2025 com uma grande dívida externa superior a 57 bilhões de dólares, informalidade no mercado de trabalho e a permanência na lista de paraísos fiscais.

Por Mario Hubert Garrido

Correspondente-chefe no Panamá

As estatísticas oficiais refletem uma tendência preocupante: em 13 meses, de junho de 2024 a julho de 2025, vários especialistas questionaram as “medidas cosméticas” das autoridades para gerir a dívida, um sinal que gera desconfiança.

Segundo a Direção de Finanças Públicas do Ministério da Economia e Finanças (MEF), o Estado contraiu uma dívida adicional de mais de cinco bilhões e setecentos milhões de dólares desde julho de 2024, durante a administração de José Raúl Mulino.

Em junho do ano passado, o saldo era de US$ 51,813 bilhões, segundo o relatório; e apenas nos primeiros sete meses de 2025, o aumento foi de US$ 3,778 bilhões.

Segundo analistas, a isso deve-se somar a dívida dos projetos chave na mão, a dívida também de empresas estatais, os compromissos assumidos por meio do mecanismo de Parceria Público-Privada (PPP) e as contas a pagar aos fornecedores.

Economistas como Ernesto Bazán alertam para a inclinação do atual governo em pagar dívidas estaduais com títulos da dívida pública.

Além disso, o Estado pagou 960 milhões de dólares ao Fundo de Seguridade Social em virtude da Lei 462, que reformou o sistema de pensões.

Com relação aos pagamentos de títulos, o próprio Bazán indicou que, quando uma obrigação é cumprida por meio de um instrumento de dívida, evita-se o aumento das despesas, uma vez que não há pagamento em dinheiro, porém, isso aumenta a dívida.

Na prática, evita-se o aumento do déficit fiscal, mas aumenta-se diretamente a dívida, ou seja, uma “medida totalmente cosmética”, observou o especialista.

CORTINAS DA AGÊNCIA DE CLASSIFICAÇÃO

O Panamá recebeu notícias importantes durante esse período. Por um lado, a agência de classificação de risco Moody’s manteve sua classificação de grau de investimento, enquanto os títulos panamenhos melhoraram sua posição no Índice de Títulos de Mercados Emergentes (EMBI).

Com uma perspectiva de crescimento superior a quatro por cento, que a maioria dos panamenhos não acredita, estima-se que a economia local possa retornar aos níveis pré-pandemia.

Mas ainda há tarefas a serem resolvidas, como o desemprego – em torno de 10% –, a informalidade (quase 50% da população economicamente ativa), a baixa arrecadação de impostos e os altos gastos públicos.

Segundo René Quevedo, especialista em questões trabalhistas e consultor empresarial, a economia panamenha enfrentou uma forte contração no consumo.

Seu “epicentro” está localizado no Panamá e no Panamá Ocidental, onde, entre agosto de 2023 e outubro de 2024, segundo dados da Controladoria Geral, mais de 125.000 empregos foram perdidos, além de US$ 60 milhões em massa salarial por mês.

Segundo Quevedo, esses números representam 47% da contração do consumo em nível nacional no primeiro semestre de 2025.

Nesse sentido, ele indicou que os riscos para o processo de consolidação fiscal persistem devido à rigidez dos gastos públicos e à baixa arrecadação de impostos, sendo necessárias medidas adicionais para acelerar o ajuste e conter o aumento da dívida.

LISTAS CINZAS

O Panamá iniciou um processo de fortalecimento institucional em preparação para a quinta rodada de avaliação do Grupo de Ação Financeira Internacional (GAFI), que ocorrerá em 2027.

Segundo a Superintendente de Entidades Não Financeiras, Isabel Fernández, o objetivo dessas ações é manter o progresso alcançado em termos de transparência, prevenção da lavagem de dinheiro e financiamento do terrorismo.

Fernández destacou que o país está em fase de consolidação após ter sido retirado das listas de monitoramento da organização internacional e que as autoridades estão trabalhando para fortalecer os mecanismos de conformidade e a cooperação interinstitucional.

Ele também observou que o Cadastro Único de Beneficiários Finais, administrado pela Superintendência, é uma ferramenta fundamental para garantir a transparência na propriedade das empresas, um aspecto que o GAFI valoriza particularmente em suas avaliações.

De acordo com as conclusões mais recentes do Conselho Europeu, a nação istmica possui um regime de isenção de rendimentos prejudiciais de origem estrangeira, que ainda não foi resolvido.

Além disso, ele reconheceu que o Panamá se comprometeu a abordar as deficiências em sua estrutura de troca de informações, mediante solicitação, identificadas pelo Fórum Global, e também solicitou uma revisão abrangente antes de 17 de julho do próximo ano.

A lista, que está em vigor desde 2017 e é atualizada a cada seis meses, inclui jurisdições que não cumprem os padrões da UE em matéria de transparência fiscal, equidade fiscal ou implementação de regras internacionais para prevenir a erosão da base tributária ou a transferência de lucros; e que também não tomam medidas para resolver esses problemas.

Em outubro de 2023, o Panamá foi retirado da lista cinza da GAFI (Grupo de Ação Financeira contra a Lavagem de Dinheiro e o Financiamento do Terrorismo), após cumprir uma série de parâmetros e medidas para prevenir a lavagem de dinheiro, o financiamento do terrorismo e outros crimes financeiros, mas permaneceu nesse tipo de lista de países sujeitos a impostos no Velho Continente.

A nação insular tem sido associada a paraísos fiscais desde o caso conhecido como Panama Papers, uma investigação jornalística internacional no início de 2016, que foi revelada pelo vazamento de documentos do escritório de advocacia Mossack-Fonseca, cuja principal atividade era a criação e gestão de empresas offshore.

MERCADO DE TRABALHO

Sem dúvida, o momento mais crítico que o mercado de trabalho panamenho atravessa nestes 12 meses é o desemprego, que chega a dois dígitos, e a informalidade, que atinge quase 50%.

De acordo com especialistas, a situação dramática é resultado da perda de milhares de empregos, da contração dos investimentos e da alta dependência dos gastos públicos.

O especialista em trabalho René Quevedo afirmou que, com exceção dos anos de pandemia de 2021-2022, esta é a maior taxa de desemprego dos últimos 20 anos. Ele atribuiu o estrangulamento econômico à perda de investimento privado.

Na opinião dele, nos últimos dois anos o Panamá perdeu 80% das suas exportações e 70 mil empregos, sendo 54 mil no setor de mineração e milhares mais na recente situação tensa após os protestos na província ocidental de Bocas del Toro, no setor bananeiro.

Ele especificou que, até o momento, esse número atingiu 49,3% da população empregada em setores não agrícolas e que existem 771.000 trabalhadores informais.

Ele também destacou que a queda na arrecadação de impostos e a redução nos gastos discricionários (não essenciais) impactaram diretamente as microempresas, já que “sem dinheiro não há consumo, sem consumo não há vendas, sem vendas não há renda e não há emprego”.

APOSTE NO MERCOSUL

Apesar de tantos problemas internos, o Panamá mantém uma perspectiva voltada para o exterior e almeja se tornar o centro de logística e serviços da região, buscando benefícios para todos.

Em dezembro, o Panamá ingressa no Mercado Comum do Sul (Mercosul) como Estado Associado, mas há meses vem preparando negociações para aumentar o comércio com seus membros plenos.

De acordo com o Ministro do Comércio e Indústrias, Julio Moltó, o comércio com os países membros da aliança — Argentina, Brasil, Uruguai, Paraguai e Bolívia — é vital.

Além disso, o Mercosul conta com seis Estados Associados: Chile, Colômbia, Equador, Guiana, Peru e Suriname.

Nesse sentido, ele anunciou que um processo de negociação direta será iniciado com cada um dos países fundadores, embora eles tenham que estabelecer individualmente as regras de importação e exportação, bem como os mecanismos de investimento e cooperação.

Com uma população combinada de 308 milhões de pessoas até o final de 2023, o Mercosul está entre as seis maiores economias do mundo em termos de Produto Interno Bruto (PIB).

No entanto, suas exportações diminuíram, registrando uma queda de quatro por cento em 2024 devido à redução em itens como alimentos e máquinas industriais, dois de seus principais produtos, de acordo com as estatísticas oficiais.

Na última década, as exportações panamenhas para os países do Mercosul atingiram US$ 62,6 milhões, sendo o Brasil o maior destinatário, com US$ 57,7 milhões.

O Panamá exporta principalmente resíduos de alumínio, sucata de ferro e peixe congelado para o gigante sul-americano.

Entre 2014 e 2024, o Panamá exportou US$ 2,1 milhões para o Uruguai, principalmente camarão congelado e cacau.

As vendas para o Paraguai totalizam US$ 1,5 milhão, sendo os miúdos bovinos o produto mais proeminente, enquanto o comércio com a Argentina, o menor do grupo, atinge US$ 1,3 milhão ao longo de 10 anos, com produtos como grãos de cacau e derivados.

Em 2023, o Panamá importou mercadorias dos países fundadores do Mercosul, liderados pelo Brasil, num valor aproximado de 1,2 bilhão de dólares, principalmente em máquinas, veículos e produtos químicos.

A Argentina ficou em segundo lugar, com US$ 800 milhões, focados em alimentos processados, produtos farmacêuticos e máquinas agrícolas.

Por sua vez, o Uruguai exportou US$ 150 milhões em mercadorias para o país banhado pelo canal, incluindo laticínios, carne e artigos de couro, enquanto as importações do Paraguai totalizaram aproximadamente US$ 100 milhões, principalmente produtos agrícolas como soja e milho.

O Panamá aspira a se tornar a plataforma de entrada para os produtos do Mercosul na América Central e no Caribe, permitindo que o bloco abasteça essas regiões geograficamente mais próximas em comparação com a Ásia, um de seus principais mercados.

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