28.5 C
Brasília
terça-feira, 27 janeiro, 2026

Padre Oliveira e o Cristo dos pobres

Como se retornasse no tempo.

Às minhas andanças por Periperi, Salvador, comunidade com vida própria, um comércio imenso espalhados por becos, esquinas, vielas, nada de shoppings, e um impressionante dinamismo, e gente sentada nas calçadas, sempre com o sorriso aberto.

Estive por lá hoje.

Outra Salvador, diferente do mundo das camadas médias ou da burguesia, obrigadas a conviver em apartamentos, alguns de espaço reduzido, outros, amplos, mas tudo muito diferente da vida numa grande comunidade de periferia.

Como se retornasse no tempo.

Fui visitar padre Oliveira.

Quando em campanhas ou em mandatos, vereador, deputado estadual, deputado federal, andei muito por lá, levado pelas mãos dele, padre-cidadão.

Curioso, soube apenas hoje: nasceu em Tucano, em Creguenhém, distrito do município.

Vida política tem disso: a gente anda mais que notícia ruim.

Andei muito por Tucano, fiz amizades, e tive votos.

Cheguei a levar Gilberto Gil pra lá: fez show defendendo candidatura minha.

Amizade.

Hoje, conversa rendeu, e eu fui descobrir coisas antes submersas, por conta do silêncio do padre.

Cidadão discreto, nunca me contou da participação dele na organização inicial do PT, desde os primeiros dias.

Também não sabia ter sido um dos participantes do Grupo Moisés, uma das mais importantes articulações da Igreja Católica, atuante na Bahia, mas com repercussões em todo o Brasil.

Quase uma organização clandestina.

Ele próprio contou a mim e a Alisson, a quem devo a ida a ele, querido companheiro do PT: às vezes, reuniam-se no Mosteiro de São Bento, outras vezes, no Convento das Mercês.

Muito medo, à época, e com toda razão: ditadura.

Conhece Periperi como a palma da mão.

Cuidou de almas daquela comunidade desde 1979, quando chegou.

Não só de alma: nunca se preocupou apenas com as coisas lá do céu.

O Cristo dele sempre foi o dos excluídos, dos perseguidos, dos pobres, dos lazarentos, das prostitutas, homem do Novo Evangelho, sempre próximo da Teologia da Libertação, sem nunca tocar trombeta dessa condição.

A visita me fez refletir.

Ele nos mostrou um espaço, no segundo andar: um amplo salão, denominado dom Hélder Câmara, onde se realizavam seguidas reuniões da comunidade e de militantes do PT, nos momentos iniciais do partido e ainda depois, por muito tempo.

Uma vida intensa naquele espaço.

Refleti sobre hoje.

Cadê o PT das comunidades eclesiais de base? Cadê o mergulho na vida do povo?

Perguntei, e não soube, não sei responder.

Desafios essenciais.

Não podemos atribuir ao acaso o avanço continuado da extrema-direita.

Espaço vazio, sempre ocupado.

Lição dada por padre Oliveira, hoje, sem uma palavra.

Apenas me mostrou o amplo espaço dom Hélder Câmara, com marcas de abandono, vazio, e no olhar dele, um quase lamento.

Eu o imaginei de outra maneira: lotado, discussões acirradas, divergências, a luta pela anistia, pela organização do PT, defesa das reinvindicações da comunidade, quase vi tudo, e de repente fui jogado novamente ao presente, e o espaço seguia vazio.

Não, a manhã não foi de desesperança.

Constatar desafios é necessário e muito bom.

Ver um homem como ele à beira dos 80, cheio de ânimo, ainda organizando gente da paróquia, dando alento a ex-padres hoje casados, lendo, estudando, ativo, é revigorante.

Muito obrigado, padre Antônio Oliveira.

Saúde.

Paz e bem.

#padreoliveira

Autor

Emiliano José

Bom saber, companheiro

35 min

Responder

Jaime Matos Nascimento

Meu caro Emiliano José, Miraldina, minha esposa, passou uma temporada em Salvador justamente no início dos trabalhos de Padre Oliveira.

 

ÚLTIMAS NOTÍCIAS